domingo, 8 de novembro de 2026

O TEJO

 

Tem o velho rio

memórias de espantar,

recordando ter sido via de intenso

comércio, pelos locais por onde passou.

Alimentou a pesca e as populações,

e não se esqueceu da extração de metais preciosos, nas suas margens.

De fedores também se recorda

nomeadamente das velhas calhandreiras,

despejando os calhandros

e os seus conteúdos abjetos no seu leito.

As suas águas são sulcadas por fragatas,

e ainda são o ganha-pão de muitos pescadores

e mariscadores.

As caravelas, naus e galeões aportando

em Lisboa, recheadas de riquezas

do Oriente e não só, são a sua memória

do período áureo.

Lembra-se das aves raras tropicais,

dos animais de grande porte,

com um chifre à frente e outro com

uma tromba, o rinoceronte e o elefante.

Foi pista de hidroaviões e de pesquisas.

Banhou diferentes povos,

antes do País ser Portugal.

Presenciou lutas renhidas,

assistiu às largadas de armadas,

partindo à descoberta do mundo,

e ao seu regresso, repleto de boas novas.

No século XVIII ajudou a destruir Lisboa

e assistiu ao seu renascer.

Ainda hoje é diariamente cruzado

por velhos e novos cacilheiros,

num vai e vem contínuo, entre as suas margens,

e é visitada por monstros marinhos,

transportando milhares de turistas.

O próprio rio anda feliz por acolher,

o regresso dos seus amigos golfinhos,

deliciando-se com as suas brincadeiras alegres

e por poder alimentá-los com fartura.

Bem a cantam os poetas e os fadistas,

escritores e amantes de um rio milenar,

capaz de despertar paixões à medida que o sol se deita

e os amantes se abraçam e beijam com fervor,

num prenúncio da fusão dos corpos e das almas.

                 Jorge C. Chora

                     8/11/2026

 

 

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

PODER E NÃO QUERER


 

Roda o mundo entre os que têm,

mesmo sem quererem e nada fazerem

e os que não podem, querem, mas também têm.

Há quem barbatanas possua

e se recuse a nadar,

outros, dotados de asas e não querem voar.

São tal e qual os agiotas,

 a ver o dinheiro tilintar sem o país ajudar,

de pernas cruzadas e barrigas ao sol a dourar,

limitando-se a ver os outros

a aprender a andar e a trabalhar,

mesmo sem asas e sem barbatanas,

para se sustentarem a si e aos outros.

 

               Jorge C. Chora

                     5/11/2026

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

SEPARAÇÃO

 


Não há quem defeitos

não tenha, tal como

não há quem virtudes

não possua.

Só qualidades vê

na pessoa amada,

até ela acentuar defeitos

em quem a ama

e ele se fixar nos defeitos

de quem até aí amou.

Eclipsaram-se as virtudes,

à vista ficaram os defeitos,

sem remédio está o amor,

consumada está a separação.

 

      Jorge C. Chora

          4/11/2026

domingo, 25 de outubro de 2026

A CAPRICHOSA

 

Quem uma caprichosa ama,

julga corresponder,

aos seus próprios desejos,

 e à satisfação dos caprichos da sua amada.

Quando se apercebe de não serem desejos,

mas simples exigências,

é tarde,

pois sejam elas quais forem,

só pensa em satisfazê-las.

 

      Jorge C. Chora

         25/10/2026

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

A CHINELA E A COLHER DE PAU

 


Se a chinela e a colher de pau,

não fazem, em geral, um doutor,

e são desaconselhados,

já a um jovem malcriado,

pouco dado a “trabalhar”,

adverso à ternura e ao carinho,

podem ajudá-lo a tornar-se

um homem respeitador,

capaz de beijar a mão e tratar

as mulheres por minha senhora,

quiçá, tornar-se um verdadeiro senhor.

Como todos os atos têm uma consequência,

poderá evitar ir parar à prisão,

e de lá sair pior do que entrou,

podendo tal facto acontecer também,

a quem nunca apanhou com a chinela,

muito menos com a colher de pau

e se tornou um doutor, mas cometeu

algo punível com pena de prisão.

        Jorge C. Chora

          21/10/2026

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

QUEM ME DERA

 

Quem me dera ser vento,

 tornar-me numa brisa fresca

e refrescar-te em dias quentes.

Quem me dera ser vento,

tropical e quente nos dias frios,

trazer-te o conforto e afagar-te,

sem ser visto, mas sentido.

Saberes que sou eu e mais ninguém,

o único a abraçar-te,

quando ofereces o teu corpo às minhas carícias,

o teu aroma a morango e sabor a chantilly.

 

            Jorge C. Chora

               19/10/2026

 

 

domingo, 18 de outubro de 2026

O AGIOTA E O NOVO-RICO

 

Na pança, o vento

do esgoto fedorento,

na cabeça, o fruto

do resíduo do intestino.

Num braço um Rolex

e no outro, um mais

caro para verificar

se aquele batia certo,

com a hora de ir ao agiota,

seu cérebro e testa de ferro,

os juros daquela semana

levantar.

Veio a crise e ninguém pagou,

os investimentos caíram a pique.

Descobriu nada ter,

e passar a ser funcionário do agiota,

o verdeiro rico que não usava anéis,

e no pulso um simples Casio de 5 euros.

Morreu de apoplexia o novo-rico,

e quando o seu caixão debaixo das janelas

transitou, ninguém uma lágrima derramou

e o agiota nem à janela assomou.

           Jorge C. Chora

           18/10/2026