Segunda-feira, 14 de Maio de 2012

Mariana"A Grande"

Mariana ascendera de modo meteórico na escala social. Fizera-o à custa de amantes bem posicionados. Entre eles, diziam os seus detractores, contavam-se quase todos os poderosos e ricos da cidade, incluindo os mais insuspeitos.

Já entrada em anos, mas ainda com queda para o amor, continuou a oferecer o acesso ao sétimo céu aos mais idosos e bem sucedidos concidadãos, com a arte e sabedoria necessária e adequada ao escalão etário dos seus admiradores.

Mariana acumulou vasto património e grandes influências, de que se serviu para deixar à sua descendência uma vida económica sólida, reforçada pelos casamentos e alicerçada em alianças que soube gizar.

Quando entregou a alma ao criador, não houve entre a nata da sociedade quem não tivesse sentido saudades de Mariana. A sua memória perdurou.

Passados uns anos, uma das netas, desconhecendo a história da sua antepassada, convenceu-se de que terem-na chamado de, “A grande”, envolvia notáveis feitos por ela praticados. Laura, assim se chamava esta descendente, empenhou-se em querer homenagear a sua avó e procurou apoio junto ao pároco da sua freguesia, até porque ela sabia que Mariana fizera inúmeras doações para aquela igreja.

Esforçou-se o bom homem por descobrir o que lhe tinha sido pedido. Nas diligências efectuadas, soube através de um idoso benemérito, a verdadeira razão de ser da grandeza de Mariana. Atrapalhado com o segredo, deu voltas à imaginação para descobrir o que dizer a Laura. Resolveu ir adiando,” sine die”, a explicação.

Um belo dia Laura foi ter com ele à igreja, acompanhada do marido e dos seus filhos. O pároco, que era a primeira vez que via o marido, ficou boquiaberto, pois ele teria uns quarenta anos mais do que a mulher:

-Querida Laura, a senhora é a encarnação da sua avó Mariana! Tem de certo a grandeza que ela tinha! Herdou-a…

-Como assim reverendo padre?

-A facilidade em dar-se com os mais sábios, com os mais velhos…a paciência, a arte e o sacrifício em mantê-los felizes…

Jorge C. Chora

Terça-feira, 1 de Maio de 2012

Vai um cafezito?

Durante três dias consecutivos, na hora de pagar o café da manhã, o cliente estendia-lhe uma nota de cinquenta euros. O senhor do café desculpava-se:

-Ainda é muito cedo. Desculpe-me, mas não tenho troco. Paga para a próxima.

Ao quarto dia, mal o cliente acabou de tomar a bica, o proprietário esboçou um enorme sorriso e cumprimentou-o:

- Bom dia! Hoje já posso servi-lo. Tive o cuidado de ter o troco para a sua nota…

-Oh! Muitíssimo obrigado. É uma gentileza que agradeço de todo o coração… -e, apresenta-lhe uma nota de quinhentos euros, que o força a oferecer-lhe o quarto café.

No dia seguinte, aguardou ansioso a chegada do homem das notas grandes. Tinha tido o cuidado de ter trocos para todas as situações. Ao meio-dia ainda aguardava a sua chegada. Nunca mais lá apareceu nem deu notícias.

Dois anos depois, viu-o entrar e reconheceu-o:

-Então por onde tem andado?

-A arranjar dinheiro trocado para lhe facilitar os trocos – e despeja um saco cheio de cêntimos em cima do balcão, ordenando – pague-se do que lhe devo e dê-me mais uma bica, um bolo e um maço de tabaco!

Nesse momento entraram no estabelecimento os homens da drogaria e o do talho, acompanhados pelo merceeiro que ao verem o monte de moedinhas exclamaram:

-Que jeito nos davam uns troquinhos…

-Se me ajudassem a contá-lo…tenho o café cheio – propôs o dono do café, enquanto continuava a atender.

Logo ali o talhante procedeu à divisão dos cêntimos em quatro montes, distribuindo um a cada um, incluindo o freguês a quem pertencia o saco, com uma recomendação:

-Isso bem contado!

Feitas as contagens e trocados os cêntimos por notas, o dono do café ficou de imediato com uma delas que, por mero acaso, correspondia à dívida total do forasteiro.

Em frente ao cavalheiro que trouxera os cêntimos, sobejou o seu respectivo monte, que a ninguém interessou, por já terem trocos suficientes.

Furioso e irritado com a tarefa que acabara de concluir e por ter de ficar de novo com muitas moedinhas, ainda teve de agradecer o convite que lhe foi dirigido pelo dono do café:

-Vai agora um cafezito?

Jorge C. Chora

Sexta-feira, 13 de Abril de 2012

A Beijoqueira

Criava cobras como passatempo. Amava-as. Eram os animais com quem mais se identificava. Notou que uma delas necessitava de cuidados veterinários. Apressada, colocou-a na mala e saiu a correr. Ao dobrar a primeira esquina sentiu algo frio na sua garganta. Era um assalto e a frialdade devia-se a uma faca encostada ao seu pescoço:

-Passa para cá o dinheiro…

-Tenho-o aqui na mala…mas estou tão nervosa que não vou conseguir encontrá-lo… - e,disfarçando um sorriso, abriu o fecho, deixando-a entreaberta.

O larápio enfiou de modo violento a mão na carteira. A rapidez com que a introduziu igualou o modo como a retirou. A cobra abocanhou-lhe a mão e ficou pendurada e quanto mais ele a sacudia mais ela se firmava. A senhora advertiu-o:

-Esteja quieto senão ela não o larga. Chame-a docemente de querida e afague-lhe a cabeça …pode ser que desista…Vou telefonar para o 112 porque a “Beijoqueira” é venenosa…

Ao chegar ao hospital, o amigo do alheio, fez questão de dizer à polícia que tinha sido alvo de um atentado e, caso sobrevivesse, iria colocar um processo à agressora.

O jovem agente de serviço, desabafou, em voz baixa:

-Que Deus não o permita…

-Olhe que eu processo-o por cumplicidade… – ameaçou-o raivoso o abocanhado.

A dona da cobra, que se dirigira ao hospital para recuperar a sua “Beijoqueira”, admoestou-o com uma voz de trovão:

-Devia aproveitar o pouco tempo que lhe resta para se arrepender e pedir perdão ao Criador… e, muito à socapa, com um ar penoso, dirigindo-se ao policial – infelizmente a cobra não é venenosa…

Jorge C. Chora

Quarta-feira, 4 de Abril de 2012

A fila prioritária

Fez as compras que tinha a fazer e dirigiu-se à caixa para as pagar. Quando se preparava para as colocar no pequeno balcão, ouviu atrás de si uma voz rouca:

-Peço-lhe perdão mas, se me deixasse passar à sua frente, ficava-lhe muito agradecida.

Olhou e viu uma idosa apoiada numa canadiana. Sorriu, ajudou-a a colocar os produtos e inclusive a colocá-los nos sacos. Mal acabara de praticar a sua acção cívica quando surgiu uma senhora grávida. Cedeu de imediato a passagem.

Sentiu-se ainda obrigada a ceder a primazia a mais duas pessoas: uma que transportava uma criança ao colo e a outra que trazia uma bebé no carrinho que dormia o sono dos justos.

Quando, por fim, julgou chegado o momento de ser atendida, apareceu-lhe, afogueada, uma jovem e elegante senhora que anunciou, plena de requebros
snobs:

-Estou grávida de um mês…

Ao ouvir esta declaração deu uma gargalhada sonora e disse:

-Minha querida, acabei mesmo há bocado de fazer amor e estou mesmo convicta, de que engravidei. Terá de esperar pela sua vez. Ah! Antes que me esqueça…Parabéns!

Nesse preciso momento a funcionária da caixa levanta-se, deixando ver uma barriga que denotava estar no fim do tempo e, muito aflita, interrompe o diálogo:

-Mil perdões mas tenho de ir já para a maternidade…

Jorge C. Chora

Quarta-feira, 14 de Março de 2012

As manhas de "Vou Tar" e "Cointreau"

Chegaram à velhice sem cheta. Em abono da verdade nunca a tiveram. Melhor dizendo, iam tendo mas por pouco tempo, pois derretiam-na em farras.

Com um cadastro recheado de malfeitorias, o tempo que passaram engavetados foi encarado por “Vou Tar” e” Cointreau” como uma espécie de retiro espiritual entre iguais, uma oportunidade para aprender novas patifarias.

“Vou Tar” e” Cointreau” eram alcunhas atribuídas pelas práticas de cada um. O primeiro nunca dissera” vou estar aqui ou acolá”, limitando-se a abreviar; o segundo, desde que provara, numa festa de casamento, onde fora sem ser convidado, um cálice de cointreau, nunca mais quisera outra bebida senão essa.

Ambos eram dados a infindáveis discussões sobre o que se devia fazer ao dinheiro dos outros:

- Agora que estamos em crise, todos os que têm dinheiro a prazo, devem levantá-lo e distribuí-lo equitativamente por quem, como nós, nada tem. Ao governo deve competir assegurar que esse dinheiro chegue aos nossos bolsos.

-Não está mal visto não… -Junto tostões há quarenta anos e agora tinha de vos sustentar -insurgiu-se o”Labuta”.

-Ainda ficas com a tua casa e aquelas territas na aldeia. Bem podes pagar mais uns impostos… -alvitraram os dois sanguessugas.

-Mais ainda? Se calhar também querem que volte a comprar o que é já meu e me custou tanto sacrifício… - revoltou-se.

-Não era má ideia! Era uma forma de partilhar … - concordaram entusiasmados, antecipando o prazer da posse do que não lhes pertencia.

-E se vocês fossem atrás das fortunas duvidosas ou dos que são mesmo muito ricos! - desabafou o “Labuta”.

-Julgas que somos parvos? Com esses nada conseguimos! Ainda éramos capazes de ficar sem o pouco que arranjámos à custa de papalvos como tu! -exclamaram, um tanto fartos da ingenuidade do aforrador.

“Labuta” calou-se. Não estava para se aborrecer ainda mais. Um berro enorme assustou--o:

-Então esse cointreau nunca mais vem?

-E ponho na conta de quem? – gritou o dono no interior do estabelecimento.

-Na do “Labuta” claro!- berraram “Vou Tar” e” Cointreau”.

Jorge C. Chora

Quarta-feira, 7 de Março de 2012

A Praça dos amores

Na praça do” sou todo teu”,
cachos de beijos
subiram ao céu,
entre sussurros de
sou toda tua,
serás todo meu.

Nessa praça tiveram lugar,
os amores de Bela,
os aís de Catarina,
as promessas e os desejos de Isabel:
Sou toda tua,
serás todo meu.

Cachos de beijos
sobem ao céu,
entre sussurros
de amor, promessas
que se ouvem,
e se renovam:
Sou toda tua, sou todo teu.
Ainda é a praça do” sou todo teu”.

Jorge C. Chora

Domingo, 4 de Março de 2012

A ranhosa

No meio da praça a menina estremecia. As lágrimas corriam-lhe por ambas as faces. Ao princípio ela ainda as tentou limpar mas depois desistiu. As pessoas pararam.

-O que te aconteceu Isabel?

E a menina redobrou as lágrimas e o choro. Uma aflição contagiante começou a apoderar-se dos que presenciavam o sofrimento da gaiata.

-O que tens Isabel? Diz-nos, por favor…

-Perdi o dinheiro que os meus pais me deram para o leite. Coloquei-o em cima da cadeira enquanto me assoava. Quando acabei já lá não estava! Eram dois euros. Agora não posso levar-lhes o leite e fiquei sem o dinheiro. A culpa é minha… como é que isto me aconteceu? Eles não vão confiar mais em mim!

E na praça, os avôs e as avós que viram confiscadas partes significativas das suas reformas, que percebiam perfeitamente a sensação de perda e de revolta,
exclamam comovidos:

-Ah como era bom que os grandes tivessem a responsabilidade das crianças!

Num canto da taberna, uma velha ébria retira os dois euros que escondera no bolso e ordena:

-Mais um copito de aguardente e isso depressa, que o dinheirinho não abunda …donde este veio não virá mais nenhum… - e vira-se para a criança que entretanto se aproximara e choramingava ao pé de si – desanda daqui ranhozita… o prejuízo duns é o lucro doutros…

Jorge C. chora