Queixou-se-me o teu irmão,
que chegou hoje a Luanda,
das saudades por ti sentidas,
por não receberes cartas minhas.
As minhas saudades, são como as tuas.
Escrevo-te para te dizer porque não o faço.
Infelizmente, aí na aldeia só o padre sabe ler,
e se eu te pudesse dizer ao ouvido,
que adoro satisfazer os teus pedidos,
o Cura quereria logo saber do que se trata,
como se ele já não soubesse a cantiga.
Dá a carta a ler à tua sobrinha,
quando ela para aí for nas férias da Páscoa.
Mil beijos do teu José que muito te ama.
Luanda
1962
Por azar, Laura, quando recebeu a carta,
ia a passar o padre,
tendo-se dela
apossado, dizendo:
--Logo, na missa, ler-te-ei a carta. Fica descansada.
Dito e feito, no final da santa missa,
o padre leu-a, em voz alta e mal acabou, perguntou-lhe,
com ar de raposa velha:
--Que desejos confessas ao teu marido, Laura?
-O meu gosto de tomar banho de água fria senhor padre!
Jorge C. Chora
28/3/2026
