sexta-feira, 12 de junho de 2026

BENDITO STº ANTÓNIO

 

 

BENDITO STº ANTÓNIO

No dia de Santo António

bebem-se cervejas

sem conto nem desconto,

sardinhas de infantário

e urina-se em qualquer canto.

Quem não chega a tempo,

à barraca do alívio,

faz nas calças ou nas saias

e tem sempre o recurso,

de dizer que foi uma torneira

descomandada, que jorrou

água por si abaixo, sem dó nem piedade,

e o/a deixou naquele estado,

e todos fingem acreditar,

ou não fosse dia de Stº António!

 

       Jorge C. Chora

        12/06/2026

quarta-feira, 10 de junho de 2026

O FADO DA MALVADA

 

Sofia era bela

e ela sabia

quão bela era.

João sofria

sempre que a via,

pois ela nunca ria,

muito menos lhe sorria.

João não conseguia

sequer respirar,

ao vê-la passar.

Ela sabia

o mal que lhe fazia

e nisso se comprazia

ao ver a sua agonia.

Tão bela quanto malvada,

pelo canto do olho o observava,

enquanto nua se passeava

no terraço da sua casa,

fazendo-o suspirar,

sem respirar, até desmaiar

e morrer com falta de ar.

Ao vê-lo prostrado,

quis certificar-se pelo dano causado.

Abeirou-se da borda do terraço,

quando um vento de João aliado,

a empurrou borda fora

e acabou por morrer,

nua e abraçada,

ao homem que tinha matado.

    Jorge C. Chora

       10/7/2026

domingo, 7 de junho de 2026

O ENTALADO

 

           

Se te vires numa situação extrema

entre um bazófio e um asno

e não conseguires sair da mesma,

nem mesmo rezando ao santo,

vira-te para as mentiras do bazófio.  

As suas mentirolas pífias,

poupam-te dos ditos pútridos.

Podes é ter o azar de ambos,

partilharem os mesmos dotes

e então nem Stº António te vale,

exceto se possuíres asas,

ou apanhares boleia de um pássaro!

 

            Jorge C. Chora

                7/7/2026

 

terça-feira, 2 de junho de 2026

ARROZ E FEIJÃO

 


Arroz e feijão

é bela refeição

e não tem senão,

para um pobretão.

Para os fartos

deste belo pitéu

 há sonoros fartos:

 podem ser cheirados,

inclusive enlatados

e são de tirar o chapéu,

para quem finge não gostar de feijoada!

Jorge C. Chora

  2/7/2026

domingo, 31 de maio de 2026

ANICHADA

 


Adoro ter-te anichada

ao meu colo,

com os teus seios de cetim

encostados ao meu peito,

refletindo o luar de agosto.

Sinto-te tremer de excitação,

 à medida que te sussurro palavras

de amor e te percorro suavemente

o teu corpo e o interior das tuas coxas.

Ofereces-me a tua boca,

ajeitas-te com destreza e sofreguidão,

até me possuíres a teu gosto e ao teu ritmo,

e me transmitires os teus espasmos

e o teu contagiante e maravilhoso orgasmo.

E assim permanecemos abraçados,

saboreando a brisa noturna e o saboroso

calor emanado das rochas aquecidas durante o dia,

confortando-nos as nádegas e acarinhando os sexos adormecidos.

Jorge Chora

31/5/2026

 

sábado, 30 de maio de 2026

O ENCRENCA

 


O Encrenca é bicho danado,

tudo quanto vê,

tudo quanto cobiça,

tal como no velho ditado,

quando ainda se é jovem

e se vê qualquer saia.

 

O Encrenca envelheceu

e já saias não quer,

quer riquezas,

todas as que vê,

ainda que dono tenham,

grita em plenos pulmões:

Isto é meu e aquilo também,

 Ai de quem o contradiga,

pois quem tem negócio fecha-o,

ou se o quer abrir,

só no dia de S. Nunca!

 

Não vai longe o tempo,

em que encontre um tal como ele,

e se torne o Encrencado,

algo insuportável para o Encrenca,

habituado a gritar aos sete ventos:

-Sou rei, sou rei e ainda hei-de ser Papa!

 

       Jorge C. Chora

         30 /5/2026

sexta-feira, 29 de maio de 2026

A IMPORTÂNCIA DE TE VER

 


Descansa-me ver-te,

mas passo a vida cansado,

em sobressalto e acordado,

só por pensar em deixar de te ver.

Se passares e eu por isso não der,

não vá o diabo tecê-las e eu perder-te!

Jorge C. Chora

29/5/2026

terça-feira, 26 de maio de 2026

O PÁSSARO ENGAIOLADO

 

Eu conto a tristeza

do pássaro engaiolado,

impedido de voar

por pura maldade,

pois nem cantar

o pardal sabe!

Ao longe vê a sua companheira,

só e amargurada,

sem parceiro de tropelias,

sem par para distrair,

o comilão enfarpelado,

e surripiar-lhe do prato

metade do queque,

ajudando-o a emagrecer,

cuidando-lhe da saúde,

e da limpeza da mesa emporcalhada.

Jorge C. Chora

  26/5/2026 

segunda-feira, 18 de maio de 2026

A FILA À PORTA DA MERCEARIA

 

 SE FOR PUDICA(O) NÃO LEIA OU LEIA ÀS ESCONDIDAS

 

               A FILA À PORTA DA MERCEARIA

Uma fila, não tão grande como as das finanças, estava formada à entrada de uma pequena mercearia.

A maioria das pessoas eram senhoras idosas e alguns homens. Uma senhora recém-chegada, admirada com o que estava a passar perguntou:

--Estão a dar alguma coisa?

--Sim e não! -respondeu uma das presentes.

-- Como assim? – surpreendeu-se quem fizera a pergunta.

-- Lá dentro existe um cartaz que diz que” Quem apalpar a fruta, sofrerá o mesmo tratamento por parte do dono”. Estamos todas(os) prontos para ir apalpar a fruta.

--Somos idosas(os), já perdemos os dentes, mas não o vício, pertencemos todos à geração do Woodstock. Na altura éramos jovens de 20 anos.

E a recém-chegada não hesitou e disse:

--Sou a mais velha que aqui estou, portanto tenho prioridade e colocou-se na frente da fila.

Acabada de entrar, virou-se para o dono e disse:

--Já apalpei a fruta, mas o senhor não viu. Quero o castigo que mereço!

 

Jorge C. Chora

18/5/2026

domingo, 17 de maio de 2026

 


 


POEMAS SÃO ROSAS

Poemas são rosas,

aromas delicados,

confessando amores,

às suas namoradas.

   Jorge C. Chora

     17/5/2026

 

                               


                                            Foto de Mª Adelaide H. Chora


 

 

quinta-feira, 14 de maio de 2026

AS MÃOS E OS BEIJOS


As mãos dadas,

são uma ligação

a quem amamos.

Elas transmitem-nos

o calor corpóreo,

a posse mútua

desejada e visível.

 a ternura proporcionada,

nos toques desejados e sentidos.

e por isso se beijam amiúde,

a qualquer hora do dia ou da noite,

em todas as estações do ano,

quer faça chuva, quer faça sol.

          Jorge C. Chora

            14/5/2026

segunda-feira, 11 de maio de 2026

A VIDA E O PESSEGUEIRO


A vida é como uma árvore de fruta caduca,

tal como o pessegueiro.

Cresce com cuidados,

veste-se de rosa,

branco ou vermelho

e d’outras cores chamativas,

como os jovens na flor da vida.

Os seus frutos são suculentos e apreciados,

mas no outono da vida,

as suas lindas folhas

murcham e caem.

Mas a vida renasce com a polinização.

A sua herança,

cresce à vista de todos

e com os devidos cuidados,

não deslustra os seus antepassados,

podendo até superá-los.

 

     Jorge C. Chora

       11/5/2026

sábado, 9 de maio de 2026

A LISBOA D'OUTRORA E A D'AGORA

 

Na Lisboa d’outrora,

falava-se de janela para janela.

D. Zélia pedia à vizinha:

- Tens coentros Luísa?

- Tenho, queres cá vir ou vou aí

levar-te, falamos um pouco

 e bebemos um copito?

E a conversa decorria amena

e picante se fossem novas,

ou sobre o sermão do velho cura

se fossem mais idosas.

Na Lisboa d’agora,

 já não é mau darem-se os bons dias,

 ao cruzarem-se no elevador,

e uma olhadela rápida,

ao modo como vão vestida(os)

E há quem goste mais da Lisboa d’outrora,

do que a d’agora

e quem adore as modernices d’agora

e deteste o retrocesso d’outrora,

sem perceberem que continuam a coexistir,

embora em diferentes locais da cidade,

as duas Lisboas: as dos bairros e as d’agora.

                           Jorge C. Chora

                                9/5/2026

 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

O COGUMELO

 

Oi! Cogumelo!

-Chamo-me Melo

e não cogumelo!

Vê se atinas ó parolo!

-Está bem Cogumelo.

Todos os dias algum camelo,

o chamava de Cogumelo.

Passaram-se anos e o flagelo

persistiu apesar do apelo.

Um dia encontrou Consuelo,

antiga colega espanhola,

que o saudou com um ósculo

e exclamou:

-Há anos que não te via Cogumelo!

- Olha que ainda hoje não sei,

 por que me alcunharam de Cogumelo! -confessou Melo.

-Lembras-te de quando vocês competiam

a ver quem urinava mais longe?

As miúdas da turma observavam-vos às escondidas

e tu tinhas “aquela coisa” parecida com um cogumelo!

Olha, a propósito, como te chamas afinal?

- Fui ao registo e mudei o apelido de Melo para Cogumelo!

                 Jorge C. Chora

                     7/5/2026

 

sábado, 2 de maio de 2026

SEM SENTIDO

 

Na vida duas certezas há:

a do fim ser certo,

e não existirem certezas,

sobre a forma como a vida

se vai desenrolar, pois

ela é feita de mudanças.

Perante as incertezas,

tratar mal quem pode morrer,

hoje ou amanhã,

inclusive nós, qual o sentido

das animosidades que nutrimos

uns pelos outros?

    Jorge C. Chora

        2/5/026

domingo, 26 de abril de 2026

OLHARES D'AMOR

 


Beijos na ponta do nariz da amada,

são amor,

tal como os lábios colados às suas mãos,

ou os sussurros de bem-querer,

aos ouvidos docemente murmurados.

Mas o olhar, meu Deus,

digam o que disserem,

tudo diz,

tudo confessa,

tudo transmite,

como tudo devolve em dobro,

se o amor que nos têm

é idêntico ao que no nosso olhar veem.

        Jorge C. Chora

          26/4/2026

sábado, 18 de abril de 2026

AS PÉTALAS DA DOCE SOFIA



Ao olhar-me,

vê-se refletida

nos meus olhos,

não como é,

mas em forma de

duas rosas em cada pupila.

Não estranha que eu colha

o seu aroma, no seu pescoço,

lhe sussurre aos seus ouvidos

o quanto gosto do seu perfume

e lhe confesse, ao alcançar

os seus seios e umbigo,

ser envolvido por um, ainda

mais doce aroma a rosa mosqueta.

À medida que alcanço a sua fonte pilosa

e a sua divina porta do paraíso,

suportado por dois maravilhosos

pináculos, liberto-a

das pudicas pétalas que a revestem,

e logo em voz trémula e sumida,

me confessa e suplica:

- É agora!

Jorge C. Chora

   18/4/2026 

sexta-feira, 17 de abril de 2026

SÊ INTOLERANTE

 


Queres cortar as tuas relações

com o mundo,

mas já vais tarde,

pois ele nem sabe que existes

e já dele te afastou.

Fosses tu um ditador ou assassino,

genocida, infanticida, torturador

ou oligarca,

e outras coisas ainda mais horríveis,

e estarias a ele ligado,

lisonjeado e aplaudido,

por multidões de alienados.

Liga-te ao sol, ao nascer do sol,

 ao ocaso, à lua e à gente simples,

e verás que o mundo nem sempre

é dos canalhas e há muitos,

a merecerem a tua atenção e o teu respeito.

Não te agaches, reclama, barafusta

e junta-te aos que não toleram

os que destroem o mundo como se

fosse deles!

Sê intolerante para os intolerantes.

 

            Jorge C. Chora

              17/4/2026

terça-feira, 14 de abril de 2026

O EROTISMO É O SAL DA VIDA

 

                              

O erotismo está para a vida, como o sal para a comida insossa.

                                        Jorge C. Chora

                                             14/4/2026

domingo, 12 de abril de 2026

MANUAL PARA OS DIRIGENTES CIVIS E MILITARES DO SÉCULO XXI

 

PÁG. 1


Perante a inversão de valores e da ética, implementada atualmente pelos altos dirigente mundiais, impõe-se relançar novas estratégias de comando e direção, embora também se recorram às clássicas.

Começaremos pela mais clássica:

1- “ Se vis pacem, para bellu”

Se queres paz, prepara-te para guerra

                     Vegetius- séc IV

 

 2-Quando se propõem tréguas, aproveita-se para reforçar argumentos,

estratégias e armamento, para ganhar as batalhas após o fim das tréguas,

ou inventa-se um motivo para atacar durante as mesmas e apanhar o inimigo                 desprevenido.

3-Inventar motivos para iniciar um conflito e ir mudando se eles não forem bem aceites pela opinião pública.

4-Negar, negar sempre as acusações por mais justas que elas sejam.

5- Dizer e desdizer o que se disse e tornar a dizer o mesmo, sempre que conveniente.

6-Provocar o maior número de vítimas civis, principalmente crianças e mulheres, por drones, à bala ou por mísseis e afirmar que se visavam estritamente alvos militares, ainda que essas estejam a centenas de quilómetros.

7- Não aceitar a supervisão de instituições internacionais, como forma de fugir à justiça.

8-Aproveitar as democracias para eleger quem com elas discorda, com o objetivo de as destruir e escapar às suas regras e instituições, nomeando quem querem e lhes apetece e lhe obedeça caninamente, para poderem ser demitidos de imediato, como lacaios que são, caso não façam o que lhes mandam.

9- Ser infiel a tratados e leis internacionais que exijam respeito pelas fronteiras e direitos humanos.

10-Afrouxar e acabar com toda e qualquer medida que obrigue a apoiar o direito à igualdade de tratamento na doença, entre pobres e ricos.

PÁG.2

 

11-Considerar direito divino despedir quem querem e lhes apetece, porque discordam de trabalhar horas a mais sem serem pagos. Considerar o trabalho como um privilégio.

 12-Utilizar as forças militares ou civis a seu belo prazer, considerando-as suas e não da nação e demiti-los quando discordam contra os abusos e injustiças.

13-Trair os aliados e repreendê-los quando não são por eles ajudados a violar as leis universais.

14-Qualquer dirigente deve considerar-se superior ao seu adversário e estar acima de qualquer lei.

15-Todo o vencedor está convicto de que nunca será julgado pelos crimes cometidos, pelo que pode continuar a sua ação impunemente.

16-Seguir o exemplo de Brennus, o gaulês, ao saquear Roma, e perante os protestos dos vencidos exclamou:

“VAE VICTIS”

 Ai dos Vencidos

Um aconselhar ao regresso dos piores exemplos do passado.

Oxalá Portugal nunca siga esta cartilha de latrocínio descarado, muito menos a sua filosofia destrutiva, desumana,e desrespeitadora dos direitos humanos.

 

Jorge C. Chora

12/4/2026

sábado, 11 de abril de 2026

GUSTAVO E O SEU AMOR

 

Gustavo andava perdido

por uma mulher da vida.

De todos Sofia tinha sido,

a troco de dinheiro e nunca de amor.

Os fados por Gustavo cantados,

refletiam a mágoa dela não ser sua

e quando ela o ouvia cantar,

enviava-lhe beijinhos entusiasmados

e papelinhos,

com convites disfarçados,

e locais por ela designados,

para encontros,

várias vezes prometidos e por si ansiados.

Convenceu-se de que ela ainda seria só sua,

seduzida pelo amor por si demonstrado.

No dia aprazado, de burel e lenço ao pescoço,

compareceu no local marcado,

sítio esconso e fedorento,

 num recanto da Mouraria,

onde ela atendia um cliente e à espera tinha outros três,

indicando-lhe uma caixa e dizendo-lhe.

--Põe aí o dinheiro que não tarda chega a tua vez!

                     Jorge C. Chora

                       11/4/2026

quinta-feira, 9 de abril de 2026

MIA PÉ-DE-VENTO

 

NÃO LEIA SE FOR PUDICA(O)

 

MIA PÉ-DE-VENTO

Mia Pé -de -Vento,

era linda e assertiva.

Oligarcas e ditadores detestava,

assim como os seus métodos

acéfalos, baseados em generalizações

abusivas e “no que não- disse- o que afinal disse,

e logo depois disse ter dito”.

Os namorados escapavam-se entre os dedos,

fazendo-a sofrer.

Um dia conheceu Bia.

Ela era bela, de estilo andrógina:

cabelo à escovinha, seios pequenos, delgada

e tão alta como ela e com algumas nódoas negras.

Perguntou-lhe:

-- Foi agredida? Precisa de ser tratada? -Sou médica e posso fazê-lo.

Bia sorriu-lhe e disse:

-- Muito obrigado. Elas resultam dos combates de treino.

O gelo trata-as- e de seguida- apresentou-se como engenheira agrónoma.

Palavra puxa palavra ambas concluíram

não terem namorado há uns anos e as razões para tal facto.

Bia era tão direta como Mia.

--Para além do meu aspeto masculino, ainda tenho outro problema- o de ter

algo com tamanho grande que lhes lembra um pénis.

Bia riu-se e exclamou:

--Exatamente o que me falta! Mostras-me?

Bia corou, mas acabou por mostrar-lhe, ainda que envergonhada, na casa de banho do restaurante onde estavam.

Mia adorou, ajoelhou-se e proporcionou-lhe o que ambas precisavam há anos.

Ainda hoje vivem juntas e felizes.

          Jorge C. Chora 

              9/4/2026

domingo, 5 de abril de 2026

SE QUISERES COMIGO NAMORAR

 

Se quiseres comigo namorar,

fica já por mim jurado

e sacramentado,

não mais terás de pisar o chão,

esteja ele ou não imundo.

A cada passo por ti dado,

poderás caminhar

num solo de seda atapetado,

à tua frente estendida.

Dar-te-ei a mão,

para evitar algum senão,

abraçar-te-ei a cintura,

para te sentires segura,

impedindo-te de te desequilibrares.

Caso isso aconteça,

levar-te-ei ao colo

e se os nossos lábios se tocarem,

queira Deus que sim,

iniciaremos o nosso namoro,

de acordo com a minha promessa,

jurada e sacramentada,

de não teres jamais de tocar o chão,

esteja ele ou não imundo.

         Jorge C. Chora

             5/4/2026

quarta-feira, 1 de abril de 2026

AS BELAS MARIAS

 

Batizam-nas sem consulta prévia,

com nomes de santas,

vaticinando-lhes um futuro de entrega,

quiçá a Deus ou ao martírio.

Podem as vítimas espernear à vontade,

porque pelo menos à nascença,

são e serão santas.

Depois, ah! depois, isso é outra história.

Tornam-se belas e pernudas,

de nádegas a chispar,

de seios e corpos dourados,

renegam os ícones bizantinos,

como por exemplo as Marias do Socorro,

cujos pecados são abençoados,

antecipadamente perdoados,

e verdadeiramente dignos de serem venerados.

Entre milhares de Marias com nomes de santas,

em Portugal e milhões no Brasil,

umas serão santas outras felizmente não.

                Jorge C. Chora

                  1/4/2026

 

sábado, 28 de março de 2026

CARTA À LAURA


Queixou-se-me o teu irmão,

que chegou hoje a Luanda,

das saudades por ti sentidas,

por não receberes cartas minhas.

As minhas saudades, são como as tuas.

Escrevo-te para te dizer porque não o faço.

Infelizmente, aí na aldeia só o padre sabe ler,

e se eu te pudesse dizer ao ouvido,

que adoro satisfazer os teus pedidos,

o Cura quereria logo saber do que se trata,

como se ele já não soubesse a cantiga.

Dá a carta a ler à tua sobrinha,

quando ela para aí for nas férias da Páscoa.

Mil beijos do teu José que muito te ama.

                Luanda 1962

 

Por azar, Laura, quando recebeu a carta,

 ia a passar o padre,

 tendo-se dela apossado, dizendo:

--Logo, na missa, ler-te-ei a carta. Fica descansada.

Dito e feito, no final da santa missa,

o padre leu-a, em voz alta e mal acabou, perguntou-lhe,

com ar de raposa velha:

--Que desejos confessas ao teu marido, Laura?

-O meu gosto de tomar banho de água fria senhor padre!

                          Jorge C. Chora                  

                             28/3/2026

domingo, 22 de março de 2026

AS ESTRELAS DO FIRMAMENTO

 

Convidou-a para ir ao seu terraço,

observar as estrelas do céu

e logo ela lhe perguntou,

se vestiria calças ou saias rodadas.

 

--Como quiseres- respondeu,

mas aconselhou-a vir de saias,

pois estaria mais fresca,

nessa noite de verão escaldante.

 

--Sábio é o teu conselho,

mas mais sábia sou eu pois,

vestirei só uma túnica

e a noite oferecer-me-á,

toda a frescura necessária.

 

Pé ante pé,

à hora combinada,

ao terraço subiram,

a convidada e o anfitrião.

 

Ao lá chegarem,

do prédio vizinho,

soava a segunda valsa

de Shostakavich.

 

Enlaçaram-se a dançar a valsa

e em breve,

algo se alojou, frenético,

num ninho quente e aconchegante,

quando a convidada levantou a túnica

e simultaneamente os seus olhos e lábios se tocaram

e as línguas se entrelaçaram.

E aí viram todas as estrelas do firmamento.

       Jorge C. Chora

      22/3/2026

sábado, 21 de março de 2026

A ROSA E OS SEUS AMORES

 

SE É PUDICA(O) NÃO LEIA

 

Anda Rosa indecisa entre

o Narciso e o Jacinto.

Incapaz de se decidir

entre um e o outro,

decidiu namorar um à segunda-feira

 e o outro à terça,

um na Mouraria outro em Alcântara,

sem saberem um do outro.

A partir de sexta até segunda-feira,

comunicou-lhes a sua indisponibilidade,

alegando a necessidade de descanso.

Estes fins de semana prolongados,

não os passa em branco,

 mas com a sua fiel Nini,

dispensando-se uma à outra,

os mimos de que necessitam

 e jamais dispensam ou dispensarão.

         Jorge C. Chora

          21/3/2026

 

sexta-feira, 20 de março de 2026

AS ANDORINHAS

 


Bandos de andorinhas

andam num vai e vem frenético,

de cá para lá e vice-versa,

em busca da primavera,

mas não encontram os sinais

 desejados.

Rajadas de ventos,

tempestades e chuvas

intermináveis, recebem-nas,

 e afugentam-nas,

para as bandas donde vieram.

Ansiosas por construírem os seus ninhos

e da pacatez tradicional,

estranham os telhados voadores,

o desmoronar de casas,

as inundações dos campos,

 a escassez de comida,

as nuvens de infectos voadores,

varridas para outra bandas.

E vão e voltam na esperança

de que algo se altere,

mas até ao momento,

veem goradas as expectativas,

e continuam no seu vai e vem desesperado,

à espera do bom tempo

 e do apaziguamento das tempestades,

tal como nós.

esperando o fim do tormento.

E a primavera chegou

 e as andorinhas ainda não vieram!

        Jorge C. Chora

quinta-feira, 19 de março de 2026

NÃO BASTA SER RICA E BELA

 

O Bentley parava religiosamente às dez horas em frente ao café.

O motorista abria a porta a uma mulher alta, com um olhar semelhante à da Anne Hathaway e uma figura tão bonita como a da Bruna Lombardi.

Logo a seguir saía um homem, com ar distinto, a quem a mulher dava o braço.

O curioso é que o homem que a acompanhava diariamente, nunca era o mesmo.

Os frequentadores do café assistiam intrigados àquela troca de cavalheiros.

--O que se passava afinal? Seria dona de um harém?

O casal, sentado à mesa, mal tinha trocado uma palavra quando o cavalheiro se esquivou de um copo, atirado contra ele pela bela que o acompanhava. Se não fosse a sua perícia a evitar o arremesso, teria sido atingido na cabeça.

Ele sorriu e impávido, tomaram o pequeno-almoço. Mal acabaram de comer, dirigiram-se para o carro, o cavalheiro abriu-lhe a porta, disse-lhe adeus e partiu.

Estava explicado o vai e vem dos cavalheiros.

O que ninguém soube, é se os outros tiveram tanta sorte como este em desviarem-se dos arremessos.

Jorge C. Chora

19/3/2026

 

sábado, 14 de março de 2026

VERMELHA É A FLOR DE QUEM AMA

 

É flor rainha

do amor,

encanta pela cor,

a todas ganha,

pelo aroma,

e pela preferência

de qualquer dama,

ao recebê-las de quem ama.

É a rosa dos amores,

põe de parte os temores,

e as eventuais dores,

e receios de bastidores.

É simplesmente,

 uma miraculosa rosa.

  Jorge C. Chora

    14/3/2026    

quarta-feira, 11 de março de 2026

INSUPORTÁVEL

 

Ressoam tambores iniciando,

não o princípio de festejos,

mas anunciando a cada batida,

cem mortes,

e a cada silvo,

outros tantos e infindáveis,

fins de vida.

Em vez de festas,

assiste o mundo,

ao roubo de terras,

empapadas em sangue,

que anexam,

sem nunca terem sido suas,

conjuntamente com as riquezas

nelas contidas,

sejam minerais raros, petróleo

ou simplesmente,

pelas suas localizações estratégicas.

Se por cada morte,

cinicamente,

enviassem um ramo de flores,

não haveria jardins ou estufas suficientes,

para satisfazer a procura,

face às chacinas.

        Jorge C. Chora

         11/3/2026