domingo, 27 de setembro de 2026

DOCE MARIA

 


Nunca tantos precisam de Ti,

doce Maria.

Ouve os roucos das crianças esfaimadas,

do choro desesperado das mães,

com os filhos mortos nos braços,

das viúvas e viúvos precoces,

esfacelados por ogres todo-poderosos.

Lança, doce Maria,

uma bênção sobre este mundo,

e pelo fim da sangria,

que tiranos enlouquecidos,

tal qual vampiros degenerados,

insaciáveis de sangue e amantes do terror,

se esforçam e comprazem,

para acabar com o mundo que odeiam

e que no fundo os desprezam,

só os louvando por medo e cobardia.

 

           Jorge C. Chora

              21/9/2026

 

TI'JOAQUINA


 

- Ti’ Joaquina,

tenho o peito

repleto de amor.

Receio até,

não suportar,

tamanha pressão.

-Dá-o a quem amas

e sairás aliviado!

- Mas eu amo tantas

e não sei a quem oferecer.

-Distribui-o por todas e

alguma te vai corresponder.

É a essa a quem vais doar todo o teu amor!

- E se for a mais feia Ti’ Joaquina?

- Mau, queres amar quem te ame ou

uma boneca que não corresponda

ao teu amor?

        Jorge C. Chora

         27/9/2026

 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

UM AMIGO DO PEITO

 


Há amigos e amigos:

uns são da onça

e outros não.

Tenho agora um,

tão preocupado comigo

 e com a minha saúde,

faça sol ou faça chuva,

está colado ao meu peito.

Acorda-me a horas impróprias,

alerta-me em frente seja de quem for,

independentemente de eu discordar

dos seus avisos fora d’horas,

tudo a propósito dos cuidados

excessivos para comigo.

Assemelhando-se, de facto,

a um amigo do peito

e nem nome de gente tem,

pois é um mero sensor,

amante da censura,

a bem da minha saúde permanente.

      Jorge C. Chora

         22/9/2026

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

SAUDADES INEXPLICÁVEIS

 

SAUDADES INEXPLICÁVEIS?

Há quem saudades tenha,

de um passado cheio de nada.

Desvalorizando o presente

e esquecendo-se de ter comido

o pão pelo diabo amassado,

louvando o toucinho rançoso

e as murchas couves pelos ricos ofertados.

Ó gente esquecida de ter sido

tratada à parte, apanhando bonicos

para ter alguns tostões.

Ricos foram poucos,

mas muitos os remediados,  

vivendo apertados, inclusive alguns

com títulos de doutores e engenheiros,

não passaram de uma classe média muito média,

 embora comparados com os pobres,

parecessem ser mais do que eram.

Hoje podemos não estar como queremos,

mas comparar o nosso presente com o passado

e não ver as diferenças, é puro snobismo.

É claro que queremos mais, mas não queremos voltar ao passado!

             Jorge C. Chora

                16/9/2026

domingo, 13 de setembro de 2026

EXPULSA DE VEZ A TRISTEZA


Se a tristeza em ti

se aloja,

se te asfixia,

se te tolhe o pensamento,

se não consegues

livrar-te dela, vai ao mar!

Confessa às ondas o teu sentir.

Uma delas, a mais sensível,

a que banha os amantes

e os esconde para estarem à vontade,

levá-la-á para longe,

dividi-la -á em partículas minúsculas,

e os peixes comê-la-ão, sem lhes fazer mal.

Respira a maresia, agradece à onda

e leva quem amas, para se unirem,

sem receio, pela onda benfazeja

e libertar-te de uma vez por todas,

da malévola tristeza alojada no teu peito.

                    Jorge C. Chora

                       13/9/2026

 

terça-feira, 8 de setembro de 2026

A SEDE DOS LÁBIOS

 


Tinha sede dos seus lábios,

assim com ela dos dele,

mas quanto maior a sede,

mais os lábios um do outro

se apoderavam entre si.

Em cada esquina saciavam

o desejo incontrolável,

de repetirem os beijos

e fizeram-no tantas,

 mas tantas vezes,

até chegarem à conclusão

de terem de os unir para sempre.

 

    Jorge C. Chora

     8/9/2026


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O COMBOIO PARA NENHURES


 

Três as linhas

férreas

existentes,

levando a destinos,

diferentes.

A primeira para

a frente de guerra,

a segunda para o progresso,

e a terceira para o regresso

dos caídos na frente.

O comboio da terceira via-férrea,

por cada alma transportada,

incluindo crianças, mães, jovens e velhos,

vai sempre a apitar,

num lamento por cada vida ceifada,

e tem o destino bem assinalado,

numa placa na locomotiva afixada,

em letras garrafais:

COMBOIO PARA NENHURES

    Jorge C. Chora

        2/9/2026