Em vielas da Lisboa d’outrora,
pairava no ar o cheiro da sardinha assada,
do bacalhau na brasa
e nas casas finórias, o do cozido.
Aos aromas culinários, em cada
canto ouviam-se fados, de faca
e alguidar, de traições e desgostos,
por fadistas roufenhos e amadores.
Havia exceções, fadistas celestiais,
morando hoje no céu onde deliciam
anjos, arcanjos, serafins e querubins.
As esquinas eram pouso de gingões,
de cabelo empastado de brilhantina,
gravata às bolinhas, sapatos pontiagudos,
dotados de uma grande unha,
no dedo mindinho, com a qual sacudiam
a cinza dos cigarros e coçavam o nariz,
enquanto vigiavam as “suas” meninas”,
chamando fregueses e o preço a pagar.
Sucediam-se as cabeçadas traiçoeiras,
com os clientes tentando safarem-se,
depois de se servirem e quererem
escapar sem honrar o preço combinado.
Aqui e acolá vislumbravam-se guardas,
recorrendo ao sopapo e à cacetada
quando se deparavam com rixas e era
necessário acalmar os desordeiros.
Assim decorria a vida em certas vielas
de Lisboa, por valdevinos e “bons vivants”
frequentada.
Jorge C. Chora