segunda-feira, 15 de março de 2021

O BARBEIRO DA MINHA RUA

Pula de alegria,

o barbeiro da minha rua,

chama-se Marcos

e nunca viu tanto velho lanzudo

à porta da barbearia.

Com mestria,

despacha os barbudos,

capina os cabeludos,

depressa e com mestria

e de tanto usar a máquina

ela está a ferver.

Já tem um balde de gelo

para as arrefecer,

pois não tem tempo a perder,

não vá um novo confinamento aparecer!

 

        Jorge C. Chora

        15/03/2021

 

 

sexta-feira, 12 de março de 2021

TAL COMO O BEIJA-FLOR

Como o beija-flor,

ando a pairar:

ele junto à flor,

eu 

em redor do meu amor.

Ele suga-lhe o néctar,

eu,

bebo-lhe as palavras,

o olhar,

o sorriso e os beijos.

Ele voa para trás

e para frente;

tal como eu

quando me convêm,

deixando-lhe espaço

para a abraçar de novo.

Ah! mas há diferenças,

o seu coração quando

não voa,

embora depressa,

bate mais devagar,

enquanto o meu,

não tem vagar para abrandar,

bate tanto como o dele a voar,

basta-me pensar,

nos beijos da minha flor.

 

       Jorge C. Chora

        12/03/2021

terça-feira, 9 de março de 2021

POEMA ENVIESADO

Mete, mete

meu amor,

devagar, devagarinho,

não estragues tudo,

por não saberes meter,

por favor, devagar e bem metido,

deixa-a entrar suavemente.

Não a metas toda,

no momento de chupar,

cuidado, por favor,

nem depressa nem muito devagar,

fá-lo com conta, peso e medida,

chupa a tinta toda, sem entornar

o tinteiro, nem sujar a caneta!

 

         Jorge C. Chora

sábado, 6 de março de 2021

AS GAIVOTAS EM TERRA

“Gaivotas em terra,

tempestade no mar”.

Pelo menos assim era

quanto ao gostar

de pescar,

e de voar,

em dias de mar chão

ou mesmo encapelado.

Mudaram os tempos

e muitas trocaram,

a liberdade de voar,

pela segurança dos quintais.

Desabituaram-se de pescar,

habituaram-se a mendigar,

em vez de peixe,

comem pão duro

e limitam-se a roubar,

o milho aos pombos e aos pardais.

 

    Jorge C. Chora

       6/03/2021

quinta-feira, 4 de março de 2021

AINDA NÃO HÁ...

 

Ainda não se servem

saladas de polvo

ou orelhas de coentrada,

muito menos um tinto,

acompanhado

de boa conversa

e embrulhado numa gargalhada,

nas tascas de gente boa.

A peste tudo matou,

Incluindo as bravatas

dos Casanovas de trazer por casa,

das gabarolices,

dos “fiz assim e assado”,

desacreditadas pela metade

e logo desmentidas pelas companheiras,

em alto e bom som:

-Quem nos dera se tivesse sido assim!

      Jorge C. Chora

       4/03/2021

quarta-feira, 3 de março de 2021

PARQUE AVENTURA

 


Na figueira nascem folhas

e despontam figos,

debaixo saltitam melros,

enquanto as pequenas felosas

bebericam água corrente e limpa

da ribeira da Falagueira.

E pela primeira vez este ano,

vi uma andorinha solitária

a cruzar o céu,

a chamar a primavera,

a garantir que algo continua,

felizmente, como sempre.

    Jorge C. Chora

   3/02/2021

segunda-feira, 1 de março de 2021

A MEMÓRIA DAS MÃOS

 


As minhas mãos

memorizaram o corpo

pelo

qual foram instruídas,

em afagos de bem querer

e despertares d’amor.

Podia não ver e mesmo assim

saber,

se és ou não tu,

pois elas memorizaram-te

do nariz aos pés.

  Jorge C. Chora

    1/03/2021