quarta-feira, 16 de agosto de 2023

DEBAIXO DAS TUAS SAIAS


 

Debaixo das tuas saias

o mundo tem mais graça:

O arco- iris em vez de sete

cores, chega a ter oito!

O por-do-sol acontece

mais tarde;

as estrelas brilham mais;

as folhas, ao roçarem umas

nas outras, abençoam a nossa união;

o canto dos pássaros, acompanha

o ritmo dos passos da minha amada;

os sons da natureza soam como uma

orquestra afinada, acompanhando

a cadência dos nossos beijos!

Debaixo das saias da minha amada,

o mundo tem mais encanto ou melhor,

tem verdadeira magia!

 

      Jorge C. Chora

     16/8/2023

terça-feira, 15 de agosto de 2023

EUGÉNIA E A SURDEZ


Todos a conheciam e muitos a temiam. Nada do que se passava na aldeia, lhe escapava.

O mais surpreendente, era o facto de ser surda. Surda, mas não muda,

diziam as suas vítimas.

Desmascarara vários casais e os seus casos extraconjugais e desmanchara muitos namoros.

Um dia, uma das prejudicadas, ao vê-la na praça, bem rodeada de público,

colocou-se por detrás dela e disse, num tom de voz normalíssimo:

-Ela fala dos outros, mas o marido está ali fora abraçado a outra!

- Com quem é que ele anda? Fala… ou dou cabo de ti e dela também! - reagiu Eugénia.

Os olhos e as bocas das aldeãs, abriram-se até mais não, ao verem

descoberto o segredo da falsa surdez de Eugénia.

Enraivecida, percorria as vielas da aldeia em busca de quem andava com o marido. Nunca a encontrou, pois ninguém andava ou queria andar com o dito cujo, tal o medo que tinham da falsa surda.

 

Jorge C. Chora

15/8/2023 

domingo, 13 de agosto de 2023

OS DEDOS DOS PÉS

 

Bumbum empinado,

cabeleira ao vento,

andar achinelado,

livre de calçado.

Exibe unhas multicolores

de garridas cores:

uma é azul, como o mar,

confundindo-se com o céu;

outra é verde, como os campos

e a esperança de continuar

a ver o seu andar insinuante;

 a terceira é vermelha,

recordando a paixão;

a quarta é amarela,

da cor do sol;

a última é violeta, flor

como ela, uma promessa

d’algo inconfessável e desejada.

E para cada cor, um admirador,

pronto a beijar-lhe os pés,

e os lábios de carmim.

E tudo isto sem que ninguém saiba

sequer o seu nome!

     Jorge C. Chora

       13/8/2023

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

ASSIM TAMBÉM NÃO!

 

Andava cegueta e detestava sê-lo. Telefonemas, deslocações, consultas, marcações e desmarcações, precederam a cirurgia.

Confirmada a operação, duvidou que fosse daquela vez, mas acabou por lhe ser reconfirmada.

A operação correu bem.

Quando chegou a casa e retirou a venda do olho que fora intervencionado, olhou espantado para a sua mulher e exclamou:

-Continuas linda, mas estás mais forte do que eu julgava! Um pouco mais gordinha.

Ela sorriu, um sorriso meio amarelado, que o marido não notou por não o ter visto com o olho operado.

“A tua operação correu bem demais…” - pensou a esposa.

Para retardar este tipo de constatações, que por sinal detestou, a mulher telefonou para o hospital e tranquilizou-os:

-Sei que estão cheios de trabalho. Não levo a mal se demorarem a realizar a segunda operação ao outro olho. Não é preciso ter muita pressa!

 

Jorge C. Chora

10/8/20223

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

DORMIR EM PARIS E TRABALHAR EM NOVA IORQUE

 

Amílcar dizia dormir em Paris e trabalhar em Nova Iorque.  Não perdia a oportunidade para repetir a afirmação quando a ocasião lhe proporcionava estar com Amélia que conhecera num dos grandes concertos em Lisboa.

-E não se cansa? – perguntou Amélia, revirando os olhos, visualizando o paraíso.

- Claro que sim- e observava a compleição robusta, associada a uma beleza que o atraia, não isenta do interesse de vir a poder ter uma dúzia de filhos, a avaliar pelas largas e promissoras ancas de Amélia.

Amélia casou-se com Amílcar e recebeu uma enorme casa com eira, beira e tribeira, que conheceu através de uma fotografia.

Ao lado da casa, muitos hectares de terra fértil e recebeu também uma enorme carrinha de caixa aberta e alguma maquinaria.

Uma semana após se terem conhecido e terem trocado um único beijo, Amílcar pediu-a em casamento, antecipando a imagem do lençol nupcial estendido à janela com a prova da virgindade da amada.

- No dia do casamento, Amélia perguntou-lhe:

- Onde vamos passar a lua de mel querido Amílcar?

- Em Paris e em Nova Iorque claro!

E foi no decurso da festa do casamento que ouviu falar diversas vezes, em Paris e em Nova Iorque.

Curiosa, acabou por perguntar a alguns convidados se também dormiam em Paris e trabalhavam em Novo Iorque.

-Não, alguns que aqui estão, trabalham em Nova Iorque, mas nunca dormiram em Paris. Só o patrão é que dorme em Paris que é o nome da sua casa e também trabalha na propriedade, a que ele chama de Nova Iorque. A única vez que ele saiu da aldeia, foi para ir a Lisboa ver um concerto.

A boda ainda ia a meio quando Amélia desapareceu. Amílcar recebeu um bilhete da noiva, entregue por intermédio do dono do restaurante que rezava assim:

Querido Amílcar,

Vou para a minha casa no Estoril. Se tiveres tempo entre as tuas deslocações entre Paris e Nova Iorque, quero passar a lua de mel em Biarritz e nos aniversários de casamento, ir surfar a Bali.

A tua noiva invicta

Amélia

 

Jorge C. Chora

4/8/2023

sábado, 5 de agosto de 2023

AS DUAS MÃOS

 

Entre as muitas mãos

no mundo existentes,

há duas principais:

a de Deus e a do diabo.

A de Deus, ampara,

a outra desampara;

uma levanta e salva

e a do demo mata.

A opção por uma

ou por outra, marca

a grande diferença:

a escolha é sua,

sabendo existir uma

terceira:

a de oscilarmos entre

uma e outra e acharmos

uma desculpa esfarrapada:

tudo podermos fazer,

porque simplesmente

não há Deus nem o diabo.

   JORGE C. CHORA

      5/8/2023

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

O CALOR DA TUA MÃO

 Estendeste-me a mão,

esperava um abraço,

ansiava por um beijo

e nada disso recebi:

o calor da tua mão senti,

e depressa esqueci

o beijo e o abraço,

que não recebi,

e muito agradeci,

o calor de uma mão,

dada a gosto, do que,

um abraço ou um beijo a contragosto!

Jorge C. Chora

   2/8/2023