As mães são
feitas de ternura e pedaços de céu: são seres celestiais a que se convencionou chamar
de anjos da guarda, com a missão de apaparicarem os seus filhos.
Jorge C.
Chora
4/5/2024
As mães são
feitas de ternura e pedaços de céu: são seres celestiais a que se convencionou chamar
de anjos da guarda, com a missão de apaparicarem os seus filhos.
Jorge C.
Chora
4/5/2024
Olhavam-na com desdém,
mal disfarçando a inveja
a consumi-las de modo indisfarçável.
A galinha poedeira era uma estrela,
apaparicada pelo enorme
tamanho e qualidade dos ovos,
alimentada de modo especial,
habitando um local higienizado.
As outras galinhas,
alcunhavam-na de Madame,
um misto de desprezo e raiva,
tal o tratamento diferenciado,
tão acima do usufruído por elas.
Iam aos arames quando ouviam
“As quatro estações de Vivaldi” ou
“A flauta mágica” quando ela punha os ovos.
Um dia, a Madame explicou-lhes,
com o bico trémulo,
que a música servia para apaziguar o seu
cacarejar de dor, sempre que punha um
dos gigantescos ovos e ato contínuo,
mostrou-lhes o enorme rabo inchado.
Desde esse dia, as galinhas agradecem
a um deus galináceo, numa ladainha
repetida à saciedade,” Gratias Dominus”
não terem sido selecionadas como
poedeiras de ovos descomunais!
Jorge C. Chora
1/5/2024
Destes
cravos,
espalhaste
sorrisos.
Mal sabias
tu,
tanto tempo
passado,
que muitos
preferem espinhos,
e cravos
fora do cano das espingardas!
Não te
cuides, amigo não
e em breve
terás,
saudações de
braço estendido,
gritos de
volver à direita,
cabeças ocas
a mandar no país
e a ralé a
ordenar:
- Ordinário,
marche!
Durmam democratas
e um dia
amanhecem,
nas
masmorras da iniquidade!
Jorge C. Chora
29/4/2024
Com uma garrafa numa mão
e um cigarro
na outra,
tresandando
a cerveja e uísque,
alguém te
abraça e declara,
enquanto te
beija:
- “I love
You”
e lhe
respondes, equilibrando-te a custo
e com a
vista toldada, sem saber se é o João
ou o
Frederico a Ana ou a Teresa.
-“Me too”
I love you é
a declaração das borgas, dita e redita
cada vez que
te beijam ou tu os(as) beijas e os(as) levas
ou te levam,
para detrás das moitas.
Mais séria é
a declaração amorosa “amo-te”,
seguida de
um beijo, sabendo a morango, pêssego
ou amora,
isenta de álcool de má qualidade,
em que se
doam mutuamente, de livre vontade,
exprimindo
um verdadeiro desejo,
sem confundir o João com o Frederico, a Ana com
a Teresa
e ambos(as)
se lembram no dia seguinte do prazer que tiveram,
e das juras
que fizeram!
Jorge C. Chora
28/4/2024
A liberdade é
um chapéu
de três
bicos.
Tanto cobre
quem a ama,
como quem a
detesta
e ainda de
quem
acha que
tanto fez
como tanto faz.
Esqueceram-se
de que é ela
que
garante esta
posição
de se ser contra,
a favor,
ou dizer que
tanto faz
como tanto fez.
Esqueceram-se
dos tempos
sem pio,
do falar em
surdina,
do calar as
injustiças
ou de ir
parar à António Maria Cardoso,
onde mesmo à
revelia,
sob tortura,
se dizia aos berros,
aos amantes
da falta de liberdade,
o que eles
queriam e defendiam.
A liberdade
é demasiado preciosa,
para acobertar
vilanias,
venham elas
de onde vierem.
Jorge C. Chora
24/4/2024
AMAR
Amar é:
Julgar vê-la
em todo o lado;
estranhar cada
minuto da sua ausência;
pegar-lhe na
mão como no jardim-escola;
querer
levá-la ao colo, mesmo sem poder;
querer
beijá-la a toda a hora e sentir o seu calor;
achar estarem
invisíveis no meio de uma multidão;
apertá-la e
fundirem-se numa só pessoa;
ficar sem
palavras na sua presença;
concordar
com tudo o que diz, sem nada ter ouvido;
ficar
hipnotizado com o mexer dos seus lábios;
cheirá-la e
sentir o aroma de Chanel;
ficar mais burro do que na realidade é.
Um estado
d’alma divino, uma embriaguez,
um Bolero de
Ravel.
Jorge C. Chora
24/4/2024
Num país onde escasseiam
poetas,
artistas e professores,
murcham as
flores,
mas florescem
pançudos,
colhendo patacas
nos seus
quintais.
Elas são adubadas
pelas dores
de muitos
servidores,
tão mais intensas
quantas mais
patacas
exigem os
senhores,
à revelia da
decência e das leis.
Jorge
C. Chora
21/4/2023