sábado, 28 de março de 2026

CARTA À LAURA


Queixou-se-me o teu irmão,

que chegou hoje a Luanda,

das saudades por ti sentidas,

por não receberes cartas minhas.

As minhas saudades, são como as tuas.

Escrevo-te para te dizer porque não o faço.

Infelizmente, aí na aldeia só o padre sabe ler,

e se eu te pudesse dizer ao ouvido,

que adoro satisfazer os teus pedidos,

o Cura quereria logo saber do que se trata,

como se ele já não soubesse a cantiga.

Dá a carta a ler à tua sobrinha,

quando ela para aí for nas férias da Páscoa.

Mil beijos do teu José que muito te ama.

                Luanda 1962

 

Por azar, Laura, quando recebeu a carta,

 ia a passar o padre,

 tendo-se dela apossado, dizendo:

--Logo, na missa, ler-te-ei a carta. Fica descansada.

Dito e feito, no final da santa missa,

o padre leu-a, em voz alta e mal acabou, perguntou-lhe,

com ar de raposa velha:

--Que desejos confessas ao teu marido, Laura?

-O meu gosto de tomar banho de água fria senhor padre!

                          Jorge C. Chora                  

                             28/3/2026

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