sábado, 27 de junho de 2026

AMÍLCAR E JOANA

 


Amílcar e Joana são rolas -turcas. Quando ele a viu pela primeira vez ficou encantado e disse para consigo, que era ela a eleita do seu coração, mas era preciso namorá-la e foi o que ele fez.

Bem na sua frente, curvou-se de forma repetida, enquanto aumentava o seu tamanho, abrindo as suas penas e a sua cauda em leque e ao mesmo tempo emitia o seu canto de modo insistente e repetidamente.

Cativada a atenção de Joana, passaram a ser inseparáveis e a ajudarem-se mutuamente. Estavam sempre juntos, repousando num fio elétrico, numa conversa amorosa, um bocado ruidosa, pois Amílcar era um grande conversador e Joana deliciava-se, com as conversas do seu namorado.

Quando ele se calava a Joana aproveitava para lhe segredar o amor que também por ele sentia.

Resolveram formar uma família depois de perceberem que não passavam um sem o outro. Foi preciso construírem o seu ninho, ou seja, a casa para morarem e acolherem os seus futuros filhos.

Ambos se empenharam na construção, recolhendo penas, fios de lã e linhas, com os quais fizeram o ninho- casa no alto de um pinheiro.

 Com as suas asas entrelaçadas, procuravam nas redondezas, pequenos frutos, sementes e rebentos vegetais para se alimentarem.

Amílcar dava de modo delicado os rebentos mais frescos à sua Joana e ela retribuía-lhe o carinho, oferecendo-lhe sementes e alguns cereais.

Chegada a altura de terem filhos, os pais dividiam as suas tarefas: o pai chocava os ovos de dia e Joana tomava o lugar de Amílcar durante a noite.

Criados os filhos, Amílcar e Joana retomaram os seus lugares costumeiros no fio elétrico e as suas conversas barulhentas, sempre abraçados e retribuindo os beijinhos um do outro.

A sua vida corria às mil maravilhas, entre passeios, recolha de alimentos e abraços, onde a ternura e o entendimento entre ambos motivavam uma certa inveja por parte de alguns pássaros.

O verão aproximava-se e os seus receios aumentavam, pois nessa época abria a caça e era necessário tomar muitas cautelas e estar de sobreaviso. Logo que ouviam tiros, voavam para o seu ninho o mais depressa que conseguiam.

Certo dia o azar bateu-lhes à porta. Foram passear e saíram da zona urbanizada, para um campo aberto. Entretidos na conversa, não se aperceberam da presença de um caçador que pé ante pé se aproximou, sem eles darem por isso.

Joana ouviu um tiro e viu cair Amílcar. Olhou para o homem que matara o seu mais-que-tudo e apercebeu-se de que não conseguia viver sem o seu amado. Deixou-se estar imóvel, em vez de levantar voo e procurar abrigo. Como poderia viver sem ele, questionou-se, enquanto o caçador com toda a calma apontou a arma e lhe deu um tiro. Caiu morta ao lado do seu Amílcar.

O caçador pendurou-os no cinto, onde já pendiam outros casais como

o Amílcar e a sua Joana.

      Imagem de IA:

 


Jorge C. Chora, 

27/6/26

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