quinta-feira, 8 de março de 2018

AS DORES DA CAETANA



A minha doce Caetana, tão meiga quanto rabina, enquanto lhe preparam o banho, gosta de fechar a porta da casa de banho e raspar-se, cirandar e fugir pela casa fora.

Foi o que fez um dia deste, mal a descalçaram, mas com tanto azar que bateu com a porta no seu dedo do pé.

Os pais pegaram-na de imediato ao colo, enchendo-a de beijos, enquanto ela se enroscava, chorando a plenos pulmões e desabafava, queixosa e revoltada:

-Foi horrível …foi horrível…

Tem toda a razão a minha neta, aos dois anos, feitos há pouco, em abominar o horrível…



Jorge C. Chora

8/3/2018


segunda-feira, 5 de março de 2018

UM PEQUENO SOBRESSALTO




Bati-te à porta

e não abriste,

tornei a tocar

e não recebi sinal.

Afastei-me em sobressalto

por nada saber de ti.

Comprei flores,

para que estas te esperassem

ao voltares.

Acabei, ao regressar,

por te ver,

no outro lado da rua,

acenando-me com as duas mãos.

Agradeci em segredo,

o facto de estares bem,

e ainda me permitir

ter um olfacto,

capaz de sentir e apreciar,

o aroma que exalavas,

a perfume e a sais de banho.



.Jorge C. Chora

    5/3/2018

sábado, 3 de março de 2018

MALDITA GRIPE



Tusso e estremeço. À partida, nada de mal. Nada de mal “utanas”: isso é conversa mole que os brasileiros bem tipificam, quando dizem que pimenta no olho do vizinho é refresco…

A cada tussidela seguem-se descargas eléctricas, que me encrencam as costas, as ancas e agravam as discopatias. Não me venham com o poema do Lobo Antunes, sobre os homens constipados, antes fosse caso disso.

Acabo de chegar da acupunctura e sinto-me bem melhor. Sento-me à mesa e aí vem ela, a maldita gripe e a respectiva tosse, estragar o que foi feito, desconjuntar-me o esqueleto.

Quero um remédio adequado e a resposta é lacónica: sabes que não podes tomar remédios!

Aguenta que é serviço. Quem te manda ser velho e padecer de tanta coisa! Mas o pior é não poder vadiar, comer um petico, apreciar um chá de parreira…

-Põe-te com ideias…

E aí vou eu, aos ziguezagues, sem vadiar, beber ou petiscar nada, agarrado à tosse e à dor,

para aquilo que mais detesto: estar na cama, sem escrever, ler nem fazer nada…

E assim se passou uma semana…. sem saber quantas ainda me faltam…



Jorge C. Chora

4/3/2018

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

OS SUSPENSÓRIOS DO CHINÊS



Comprei num hipermercado,

um artigo chinês,

uns suspensórios  

de tiras azuis e brancas,

com tudo o que os outros têm,

e a um preço catita.

Na primeira vez

que os usei, saiu-lhe

da mola, a tira do lado direito;

dei-lhe um nó e desliguei.

À tarde tive de atar

a tira do lado esquerdo,

e à tardinha saiu-me

a de trás: lancei-os janela fora.

Nunca comprei nada tão caro,

pois de nada valia trocá-los,

já que a ida à loja sair-me-ia tão cara,

quanto eles me tinham custado.

O raio dos suspensórios do chinês!



Jorge C. Chora

27/2/2018

sábado, 24 de fevereiro de 2018

OS ERICEIRENSES


OS Ericeirenses e não só,

 vão à praia envoltos em

nevoeiro matinal,

mergulham em águas gélidas

e podem fazer concursos

de pele de galinha.

Uma chusma de locais, estrangeiros

e nacionais, opta por uma segunda

pele: são adoradores de ondas,

que cavalgam pranchas,

e apreciam convívios sadios,

nas praias que se estendem

do Sul à dos Pescadores,

passando pela do Algodio,

até à lendária Ribeira D’Ilhas,

paraíso e meca dos surfistas

em Portugal.

No final do dia,

deleitam-se com os peixes

e mariscos do mar da Ericeira.

A feiticeira do mar,

abre os braços e continua

a enfeitiçar os seus moradores,

e a velar até pelos que

lhe viraram as costas.

Jorge C. Chora

24/2/2018





sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

UMA BEIRÃ QUE NÃO SE QUEIXA





Qualquer ai teu
me espanta,
pois sei que
não és menina de aiar,
embora sejas das terras
do ai eu, ai eu,
daí que um
ai teu, seja,
meu Deus, uma
grande preocupação.

Jorge C. Chora

23/2/2018


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

O CONSELHEIRO DA CONVERSADEIRA


Sentava-se no banco de pedra da conversadeira, na amurada junto ao mar, pelas dez horas da manhã. Os frequentadores locais guardavam-lhe o lugar. Trouxera boa fama ao sítio, outrora mal frequentado.
Às dez em ponto o senhor, que era alto e gordo, chegou. Minutos depois surgiram três gatos vadios, companheiros assíduos que pressentiam a sua chegada e por ali se deixavam estar enquanto ele ali permanecia.
Ninguém sabia ao certo o que ele fazia ou sequer se trabalhava. O que todos reconheciam era a sua simpatia e disponibilidade para conversar. Criou fama de trazer sorte a todo o tipo de namorados que com ele dialogavam: os laços que os uniam, daí em diante reforçavam-se e as paixões tornavam-se duradouras.
Com o tempo firmou créditos e passou a ser designado como Conselheiro. O sr. Conselheiro isto…o sr. Conselheiro aquilo…
Não tardou muito até que a sua fama se estendesse a outros públicos para além dos apaixonados. Começaram a rondar o local toda a espécie de investidores e homens de negócios mas sem quaisquer resultados práticos ou melhor, todos eles com algo em comum: todos acabaram por falir.
Um belo dia chegou ao local outro homem, também alto e gordo, que abraçou efusivamente o Conselheiro. Intrigados, verificaram, que não conseguiam saber qual deles era o Conselheiro: eram irmãos gémeos.
E foi aí que deslindaram o que se passava. O recém-chegado, tão loquaz quanto o irmão, explicou: este meu irmão é o homem mais bondoso que conheço. É conselheiro matrimonial e poeta. Quanto a negócios é o mais azarado…entregou-me a mim os negócios e agora vive feliz e contente.
A partir desse dia, durante uma hora, as duas conversadeiras ficaram reservadas aos dois manos: a da esquerda é frequentada pelos namorados e a da direita pelos negociantes.
Ninguém mais foi à falência.
Se a leitora(or) tem vontade de amar e de fazer bons negócios, já sabe: procure ouvir de modo crítico os conselheiros das conversadeiras, que os há um pouco por todo o lado e acima de tudo, não confunda negócios e amor que este é algo muito mas muito especial.

Jorge C. Chora

21/2/2018