sábado, 6 de março de 2021

AS GAIVOTAS EM TERRA

“Gaivotas em terra,

tempestade no mar”.

Pelo menos assim era

quanto ao gostar

de pescar,

e de voar,

em dias de mar chão

ou mesmo encapelado.

Mudaram os tempos

e muitas trocaram,

a liberdade de voar,

pela segurança dos quintais.

Desabituaram-se de pescar,

habituaram-se a mendigar,

em vez de peixe,

comem pão duro

e limitam-se a roubar,

o milho aos pombos e aos pardais.

 

    Jorge C. Chora

       6/03/2021

quinta-feira, 4 de março de 2021

AINDA NÃO HÁ...

 

Ainda não se servem

saladas de polvo

ou orelhas de coentrada,

muito menos um tinto,

acompanhado

de boa conversa

e embrulhado numa gargalhada,

nas tascas de gente boa.

A peste tudo matou,

Incluindo as bravatas

dos Casanovas de trazer por casa,

das gabarolices,

dos “fiz assim e assado”,

desacreditadas pela metade

e logo desmentidas pelas companheiras,

em alto e bom som:

-Quem nos dera se tivesse sido assim!

      Jorge C. Chora

       4/03/2021

quarta-feira, 3 de março de 2021

PARQUE AVENTURA

 


Na figueira nascem folhas

e despontam figos,

debaixo saltitam melros,

enquanto as pequenas felosas

bebericam água corrente e limpa

da ribeira da Falagueira.

E pela primeira vez este ano,

vi uma andorinha solitária

a cruzar o céu,

a chamar a primavera,

a garantir que algo continua,

felizmente, como sempre.

    Jorge C. Chora

   3/02/2021

segunda-feira, 1 de março de 2021

A MEMÓRIA DAS MÃOS

 


As minhas mãos

memorizaram o corpo

pelo

qual foram instruídas,

em afagos de bem querer

e despertares d’amor.

Podia não ver e mesmo assim

saber,

se és ou não tu,

pois elas memorizaram-te

do nariz aos pés.

  Jorge C. Chora

    1/03/2021

sábado, 27 de fevereiro de 2021

PODE SER SUA

 Deram-me uma vassoura,

aceitei-a de bom grado,

vou dá-la a quem souber

pilotá-la e me possa

o transporte público evitar.

Neste tempo de pandemia,

o indicado é mesmo andar

no ar e voar.

Quem quer a vassoura?

É só vir buscar

e prometer dar-me boleia

quando eu precisar!

JORGE C. CHORA

    27/02/2021

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

OS SEM CHETA

 

Sem cheta

ando eu,

tu

e talvez alguns de nós.

Se fossemos

príncipes ou princesas,

ninguém diria,

ou se atreveria a dizer,

estarmos sem cheta.

Quanto muito diriam,

momentaneamente sem fundos,

e estes surgiriam,

num abrir e piscar d’olhos,

pois sem cheta

ando eu,

tu

e talvez alguns de nós,

mas nunca os príncipes

e as princesas.

 

   Jorge C. Chora

    26/02/2021

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

ORFÃOS

 

À noite,

já não se estranha

ver o filho da Ana,

o neto da Antónia

ou a viúva Joana

a olharem o céu:

dialogam com os parentes

que morreram sós.

Acreditam,

só poderem ser eles,

aqueles astros teimosos,

cujo brilho não adormece

e ninguém viu morrer.

E no seu desespero,

pedem desculpa

por tê-los deixado

morrer sós.

 

 Jorge C. Chora

   22/02/2021