Dois são os pedidos
de quem dinheiro não tem
e na vida quer singrar e ser alguém:
a lábia do poeta e o vigor do camponês!
Jorge C. Chora
22/09/2021
Dois são os pedidos
de quem dinheiro não tem
e na vida quer singrar e ser alguém:
a lábia do poeta e o vigor do camponês!
Jorge C. Chora
22/09/2021
Desejar ver
e não poder,
estar perto
e não tocar,
falar sem destapar
a boca e os lábios mostrar,
almejar beijar
e ser beijado,
estar perto e não poder tocar,
ó Senhor, foi castigar
a carne, o espírito, a vontade,
roubar o doce à criança,
tê-lo perto sem o mostrar,
sabendo-o à mão sem os poder provar.
Que tormento Senhor!
Agora, destapados os lábios,
é tempo de os apreciarmos,
com conta, peso e medida,
se pudermos, claro está!
E caso não possamos,
não percamos tempo a falar,
isso fica para depois…
JORGE C. CHORA
17/09/2021
Há dias uma amiga contou-me uma ida sua a uma ervanária, em tempos que já lá vão.
Ao entrar no espaço, este encontrava-se repleto de clientes. No balcão estavam duas mui veneráveis senhoras que bichanavam as suas queixas em busca dos chás adequados. Não conseguindo perceber a natureza das maleitas das clientes, o empregado esforçou-se para que as senhoras explicitassem de um modo mais claro, de que tipo eram as dores de que procuravam alívio. Não conseguindo ajudá-las de modo adequado, consultou em voz alta o seu chefe. Este, empoleirado num escadote para ter acesso a uma prateleira no fundo da loja, quis certificar-se das maleitas das idosas e berrou lá do alto:
-Afinal de que males da barriga se queixam ao certo? Comem e não cagam?
Jorge C. Chora
13/09/2021
Ao chegar ao seu apartamento, no 4º andar sem elevador, Isaura ia estafada. Mesmo à sua frente,
aos pulinhos, encontrava-se Helena, a sua recente e jovem vizinha.
E o xixi corria-lhe pelas pernas a abaixo. Olhou envergonhada para a sua idosa vizinha.
-Ai que vergonha…
Isaura não lhe deu tempo para dizer mais nada. Beijou-lhe a testa enquanto lhe fazia uma festa no braço e lhe dizia:
- Acontece minha pequena. Tens de ter atenção, não fiques muito tempo sem ir à casa de banho até porque isso não te faz bem…
- Estou todo o dia a atender os clientes e mal tenho tempo para ir… À saída, quero é chegar a casa o mais depressa e depois…
-Não te preocupes. Vamos combinar uma coisa. Na entrada do prédio, no jardim, há um balde que fica do lado direito, atrás do arbusto. A esta hora não entra ninguém. Se te vires aflita, já sabes… Ah! só te peço o favor, de lhe acrescentares um pouco de água da torneira que lá está ao lado e despejares na roseira.
- Helena agradeceu e Isaura deu-lhe um abraço apertado.
A partir desse dia, Helena nunca mais teve necessidade de saltar. Quem passa na rua, admira-se ao ver uma imponente e bela roseira:
-Quem será o jardineiro que a trata? Que adubo usará? Qual será o segredo?
Jorge C. Chora
9/09/2021
Nina e Bernardo eram irmãos, sendo ele mais velho do que ela. Quando eram ainda meninos, tratavam-se por manos. À medida que foram crescendo, embora ele tivesse só três anos a mais, ela habituou-se a tratá-lo por Mano Velho.
Nina era extrovertida e vivia rodeada de amigas. Bernardo não lhes achava graça, não conseguia simpatizar por aí além com nenhuma em particular. Era delicado com todas e nunca deixou transparecer nenhuma animosidade, fosse com quem fosse, até ao dia em que conheceu Luísa e ficou encantado. Ela tinha menos um ano do que ele e mais dois em relação à sua irmã.
A sua simpatia, a delicadeza e os seus interesses diversificados atraíram-no.
Quando Luísa se tornou a melhor amiga de Nina, Bernardo respirou fundo e agradeceu a Deus a oportunidade de a ver amiúde.
Numas férias de verão, Nina convidou Luísa a passá-las no velho casarão, na quinta da família.
Bernardo deu, interiormente, pulos de contentamento.
Há muito que Nina percebera o amor que o irmão nutria pela sua amiga. Achava estranho que o Mano Velho nada dissesse à Luísa. Podia ser que agora Bernardo se declarasse finalmente, até porque sabia o que ela sentia pelo irmão: por mero acaso lera um poema que ela lhe escrevera para um dia lhe dar e Luísa se esquecera de esconder.
Resolveu apressar o encontro pois sabia que o Mano Velho, devido à sua timidez, nunca conseguiria tomar a iniciativa. Falou à Luísa, que se mostrou muito colaborante e lhe confessou, claramente, o que sentia pelo Bernardo.
Na manhã seguinte, à hora do banho, comunicou ao irmão que ia à vila comprar pão. Antes de sair, fechou a água e passado um bocado, Luísa gritava:
- Não há água… não vejo nada e estou toda ensaboada… Luísa traz-me água do poço…
E Bernardo, atrapalhado respondia:
- A Luísa não está…
- Então vai tu Bernardo...por favor…
E passado um bocado, atrapalhado, batia à porta e ouvia :
- Entra Bernardo, não consigo ver nada…
E o mano velho entrou. O que viu, nunca mais esqueceu: a mulher mais bela do mundo.
Ao regressar da vila, Nina viu o que estava à espera: sentados lado a lado, de mão dada, estavam a Luísa e o irmão.
- Afinal, decidiram namorar?
- Pedi o teu irmão em namoro e ele aceitou.
-É verdade… - disse todo ruborizado o Mano Velho.
Passados trinta anos, quando algum deles amua, Nina ordena:
- Vai desligar a água e aproveitar para lhe tirar o sabão…
E tem resultado.
Jorge C. Chora
5/09/2021
Outrora repleta de barracas
e bairros clandestinos,
hoje salpicada de verde e jardins,
habitada por gentes de paz
e múltiplas raízes,
é por muitos denegrida,
a maioria por desconhecimento,
outros por nítida má vontade.
Honrar quem a fez crescer
e deu o seu melhor
quando ela se transformou
numa das maiores do país
e trabalhou para solucionar
as muitas dores de crescimento,
é algo merecido,
embora muito ainda deva ser feito,
porque ela não vai parar de crescer.
Viva a Amadora e as suas gentes!
Jorge C Chora
4/09/2021
Dançar na rua,
ouvir a tua voz,
pensar em nós,
ir na tua,
sentir-te minha
por vontade tua,
sentir-me teu
por vontade minha,
é viver na lua.
Jorge C. Chora
1/9/2021