sexta-feira, 6 de maio de 2022

LISBOA VELHA SENHORA

Lisboa velha senhora

de sete seios dotada

ainda eretos e úberes,

repleta de voluptuosas curvas

e de cheiro a mar perfumada,

tem requebros de menina

vaidosa e deslumbrada,

quando a sentem como sua,

os mil povos que nela habitam

e dos seus seios se alimentam.

 

       Jorge C. Chora

        6/05/2022

terça-feira, 3 de maio de 2022

A ESTRELA


Todos a conheciam. Era presença assídua das melhores festas e uma das mais simpáticas e despretensiosa mulheres da alta roda.

Chamavam-na de Estrela, embora em rigor, ninguém soubesse de facto o que fazia e se esse era o seu nome verdadeiro. Pelo porte descontraído e pela facilidade com que falava achavam-na uma artista, uma declamadora, uma poetisa, quiçá, uma pintora que usava um pseudónimo. Como só era vista ao cair da noite, alguém, não se sabia quem, chamou-a de Estrela, e Estrela ficou.

Não constava que possuísse fortuna, embora vivesse de um modo desafogado e tivesse um leque enorme de amizades importantes. Herdara meia dúzia de apartamentos e era com as rendas que conseguia manter-se, com muita ginástica e maior pose.

 Albano, naquela noite, não tirava os olhos de Estrela. Já a vira noutras ocasiões, mas nunca se proporcionara uma oportunidade de se aproximar, pois, estava sempre rodeada de pessoas por quem ele não nutria particular simpatia. Em abono da verdade, a antipatia era recíproca. A todos recusara empréstimos, por parte do banco de que era um dos mais altos dirigentes.

Decidiu que desse dia não passava. Estrela notou-lhe o interesse. Afastou-se do grupo onde estava e foi buscar uma bebida. Passou-lhe mesmo em frente. Albano sorriu-lhe abertamente e dirigiu-lhe a palavra:

-Tenho-a visto por diversas vezes nos sítios onde vamos, mas nunca tive a oportunidade de nos apresentarmos…

-É verdade o que diz… nunca se proporcionou, mas vamos já resolver o assunto… -e estendeu-lhe a mão- que ele levou aos lábios e em vez de fazer menção de a beijar, beijou-a mesmo.

-Adoro o seu perfume…condiz consigo, é misterioso…

Estrela sorriu, tinha-o onde queria: a seus pés. Aproximou o pescoço dizendo-lhe:

-Também adoro este perfume. Aqui ainda se sente melhor. Aproximou ligeiramente o pescoço do nariz de Albano, enlaçando-o pela cintura, enquanto o conduzia para um recanto, perto das bebidas, mas oculto da sala onde estavam os convivas.

Albano sentiu a cabeça puxada suavemente para os seios de Estrela que lhe confidenciou ao ouvido:

-Um pouco mais abaixo o aroma é mais intenso- e baixava-lhe a cabeça, primeiro até ao umbigo e depois, baixando ligeiramente as calças de seda, fê-lo sentir a humidade que já a tomava.

Albano tremia de excitação. Estrela passou-lhe, de modo delicado, a mão sobre o alto bem visível que se formara nas suas calças, enquanto lhe dizia:

-São horas de me retirar, não tenho carro. Espatifei o meu e agora não tenho transporte…

-Levo-a a casa- ofereceu-se Albano.

-Agradeço, mas assim todos ficam a saber o que vamos fazer…

-Diga-me a sua morada e amanhã terá um carro à sua porta.

Como quem não quer a coisa, disse-lhe ao ouvido a morada, enquanto lhe ia colocando a língua no pavilhão auricular.

No dia seguinte, tinha à sua porta, um jaguar preto com uma motorista.

- Minha senhora, uma oferta da parte da parte do senhor doutor Albano.

Não precisa de se preocupar com o meu ordenado que o senhor doutor é que me paga.

Estrela olhou a motorista com atenção.

-Leontina?

-Sim, minha senhora.

- Sou eu!

-Caíram nos braços uma da outra. Tinham sido colegas e namoradas.

- Continuas a não usar roupa íntima Estela? -perguntou Filipa.

- Chama-me Estrela, que é como todo o mundo me conhece! E levantou a saia que trazia e mostrou nada vestir. Estrearam o banco traseiro da viatura, recuperando os anos perdidos.

O mundo estava com elas. O doutor era recebido aos fins de semana e os restantes dias, pertenciam a Leontina.

Agora todo o mundo sabia que Estrela era a digníssima mais-que-tudo, do Senhor Albano, o poderoso e riquíssimo dirigente bancário.

Quanto a Leontina, Albano pagava-lhe um excelente bónus extra, para manter a sua Estrela sempre no sétimo céu e sem tempo para ter outros cavalheiros a não se ele próprio.

 

  Jorge C. Chora

   3/05/2022

domingo, 1 de maio de 2022

NO DIA DA MÃE

 

  

DESCOBRI QUE SOU IGUAL A MEIO MUNDO, POIS ACHAM TER TIDO MÃES IGUAIS À MINHA, QUE FOI NADA MAIS NADA MENOS DO QUE A MELHOR MÃE DO MUNDO.

JORGE C. CHORA

  1/05/2022

sexta-feira, 29 de abril de 2022

AS PRINCESAS ALENTEJANAS

Modos de andar, há diversos:

Uns mais rápidos

outros menos ou mais lentos.

As princesas alentejanas,

andam parecendo paradas,

não correm pois não devem nada

a absolutamente ninguém,

mas progridem e chegam

onde são esperadas por alguém,

sem a pressa das pilha-galinhas.

O segredo reside no parecerem estar paradas

quando andam, pois,

paradas morrem torradas,

e a correr morrem de calor!

Do entendimento entre as duas pernas,

nasce a harmonia deste andar principesco:

embora estejam em brasa,

fingem parar quando andam,

correm sem se dar por isso,

como só as verdadeiras princesas,

todas elas alentejanas, são capazes disso!

 

      Jorge C. Chora

       29/04/2022

quarta-feira, 27 de abril de 2022

ALENTEJO

 Quem o Tejo passa

e o Alentejo atravessa,

diz adeus à cidade,

colhe o calor da amizade,

a sonoridade do cante

e o amor à calma reinante.

Ainda o Alentejo não atravessou

e já a saudade se instalou,

e uma decisão tomou:

Voltar à terra onde o fado e o cante se juntou.

      Jorge C. Chora

     27/04/2022

segunda-feira, 25 de abril de 2022

A PRIMAVERA DE ABRIL

O cheiro a cravo

e o sabor a liberdade,

anunciaram a primavera

tardia em Portugal.

Foi desde aquele 25,

quando jovens ainda imberbes

e outros já barbudos,

comandados por

graduados quase tão

jovens como eles,

encavalitados em tanques

e carros de combate,

substituíram as balas

por flores nos canos

das espingardas e gritaram

em uníssono:

-Aqui “o povo é quem mais ordena”!

 

    Jorge C. Chora

      25/04/2022

sábado, 23 de abril de 2022

ATRAÇÃO

 Não te esqueças de mim

meu amor:

acolhe-me no aveludado

dos teus seios,

oferece-mos,

e dá-me o prazer de senti-los meus.

Dispensa-me da dor

de deixar de os ver,

de não poder mergulhar na sua maciez,

de sorver o aroma deles emanado

e de vê-los crescer,

à medida que os acaricio.

    Jorge C. Chora

    23/04/2022