quarta-feira, 2 de agosto de 2023

O CALOR DA TUA MÃO

 Estendeste-me a mão,

esperava um abraço,

ansiava por um beijo

e nada disso recebi:

o calor da tua mão senti,

e depressa esqueci

o beijo e o abraço,

que não recebi,

e muito agradeci,

o calor de uma mão,

dada a gosto, do que,

um abraço ou um beijo a contragosto!

Jorge C. Chora

   2/8/2023

segunda-feira, 31 de julho de 2023

AVÓS

 

São potes de mel,

derretidos,

ao verem os netos,

ainda que eles sejam,

as maiores pestes,

ou não fossem os avós,

verdadeiros favos de mel.

     Jorge C. Chora

      31/7/2023

sábado, 22 de julho de 2023

SONHAR

 

Sonhos, todos os temos,

e é muito bom tê-los.

Sonhar é desejar,

e quem vive, algo quer,

mesmo quando finge

nada querer ou ambicionar:

sonhar e desejar,

são faces do mesmo sentir

e quem não sonha não vive

ou desistiu de viver

 e já nada quer, sonha ou deseja.

Está morto e não quer saber!

      Jorge C. Chora

        22/7/2023

terça-feira, 18 de julho de 2023

PÁSSARO ENGAIOLADO


Se eu fosse um pássaro

e estivesse engaiolado,

viveria assaz aborrecido.

Nunca me ouviriam o canto,

exceto se a carcereira permitisse

que o seu lábio debicasse,

a porta da prisão abrisse

e na sua gaiolinha me guardasse!

     Jorge C. Chora

        18/7/2023

 

  

sábado, 15 de julho de 2023

VIOLA DEDILHADA

 

 A namorada corria

 a dedilhar a viola,

mal o sentia subir a escada,

de modo a ser ouvida,

já possuída de um frenesim,

à espera do costumeiro festim.

Ela sabia e nunca se esquecia,

do velho hábito do namorado:

 ia contando pelos dedos,

 o número de acordes que ouvia

e as carícias que lhe daria,

ao alcançar a sua moradia.

 Recebia-o nua e preparada,

para a festa esperada

e sabiamente distribuída,

por cada poro da sua amada.

E de tanto dedilhar a sua guitarra,

ela já quase tocava sozinha,

ao ouvi-lo subir a escada.

     Jorge C. Chora

      15/7/2023

 

sexta-feira, 14 de julho de 2023

LIVRA!

 

Um dia, trouxe-me o vento,

um beijo sem remetente:

nem sequer lhe toquei

e muito menos o aceitei.

Houve quem o fizesse,

e sem perceber, seguisse

diretamente para o inferno,

de mão dada a um condenado

que não queria ir desacompanhado!

Jorge C. Chora

14/7/2023

quarta-feira, 12 de julho de 2023

DIVINDADES

 

Não se dispensam,

são adoradas,

mas muito complicadas:

um dia gostam,

noutro desgostam

e nos dias seguintes,

voltam a gostar!

Sabedoria não lhes falta

e sabem dar-nos a volta,

confundir-nos a seu bel-prazer:

hoje adoram salamaleques,

amanhã detestam queques,

e classificam-nas como mariquices!

São um doce enigma:

emanam ricos aromas

e sabores, como diz Pessoa:

 primeiro se estranha,

 e depois se entranha;

dia sim, dia não, até picos têm,

tal qual a coca-cola!

Mas, na verdade, não se dispensam,

ou não tivesse o Senhor,

tal como o padeiro cuidadoso,

dotado o pão, com uma

miraculosa racha, que faz 

as divindades perfeitas e acabadas.

Jorge C. Chora

12/7/2023