terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

OS SABORES DOS BEIJOS DA MINHA AMADA

 

De todos os sabores,

por mim conhecidos,

desconheço sequer um,

com o sabor dos beijos,

da minha namorada.

Um dia sabem a morangos,

no outro, a amoras silvestres,

a seguir a maçã camoesa,

e no seguinte a romã,

e naqueles dias especiais,

em vez de azedos, a doce lima,

e agora passado esse período,

sabem a mel de rosmaninho.

       Jorge C. Chora

        13/o2/2o24

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

O MEU DESPERTAR

 

Sonhei e acordei a pensar em ti.

Colhi   uma rosa no meu jardim,

e um beijo recebi, mal t’a ofereci.

Beijaste-a e ofereceste-a a mim,

convidando-me a deitar ao pé de ti.

Agora sempre que sonho contigo,

corro ao meu jardim, colho uma flor

e espero pelo teu convite para comigo

te deitares, ao veres as flores que te ofereci.

Como sonho e acordo sempre a pensar em ti,

corro o risco de acabar com as flores do meu jardim,

mas já vi que elas abundam no jardim do meu vizinho,

e quando ele por der por isso, já terei de novo as mais

belas e aromáticas flores que me asseguram o paraíso.

                     Jorge C. Chora

                    12/02/2024

 

sábado, 10 de fevereiro de 2024

SENHORA DO DESEJO

 

Ó senhora do desejo,

quantos dos teus,

 também são meus,

junta os teus aos meus

e passarão a ser nossos,

quando sonhas:

amar e ser amada;

cuidar e ser cuidada;

possuir e ser possuída;

dar e receber na proporção devida.

Faz de mim o teu colchão,

Ó senhora do meu desejo!

   Jorge C. Chora

     19/2/2024

O NAMORO

 

O namoro não tem data, nem prazo de validade: é um nunca acabar de gostar e pode durar a vida inteira ou começar e acabar, quando se deixa de gostar.

Jorge C. Chora

10/2/2024

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

BILLIE

 

Após ter ficado paraplégico, Richard, um americano de origem palestiniana, resolveu retornar à terra de origem dos antepassados.

Acolheu-se em casa de uns primos ricos, única família que lhe restava, depois de ter perdido os seus familiares num acidente automóvel. Passava o dia numa minúscula varanda, que dava para uma pequena praça.

Entretinha-se vendo a miudagem local a jogar futebol e a comemorar, efusivamente, as fintas e os golos que iam marcando.

Diariamente por lá passava uma jovem, professora de inglês numa escola próxima, que por acaso era amiga da sua família, por ter tido um aluno que era neto dos seus primos.

Com ela partilhava o interesse por alguns escritores e pela música e por se entenderem em inglês.

Billie, assim se chamava a jovem, passava todos os dias pela praça a caminho da escola, exibindo um sorriso e não se coibia de dar uns chutos e fazer umas fintas. Alguns dos miúdos eram seus alunos.

Richard, na sua cadeira de rodas, instalado na varanda, acenava-lhe todos os dias, sempre que a via e ela retribuía-lhe os acenos.

Bom observador, Richard, reparou no sorriso cada dia mais feliz de Billie e nos seus passos, cada vez mais cautelosos. Ela casara-se com um colega, no ano anterior.

À medida que o tempo ia passando e a barriga lhe crescia, Richard, por sinais, apontando a sua barriga e mostrando-lhe os dedos, ficou a saber que ela ia ter nem mais nem menos do que trigémeos.

Bom, pensou Richard, segundo ficara a saber, o marido de Billie era filho de um financeiro e o futuro dos filhos estava assegurado.

Já quase no final do tempo, ela caminhava com dificuldade, tão grande era a sua barriga, em relação ao seu pequeno tamanho.

Naquele dia o sol brilhava e Richard, na sua varanda, esperava que Billie passasse, para lhe acenar e perguntar por gestos, levantando o polegar, como estava naquele dia. Escutava nos seus auscultadores o Hallelujah de Leonard Coehn, quando a terra tremeu e viu Billie desfeita e também os gaiatos que jogavam à bola, em pedaços.

Segundos depois, quando na música se repetia duas vezes o Halleluja, outra bomba caída do céu, matou -o  a si e à sua restante família.

Estava-se ainda no início da guerra.

Jorge C. Chora

   7/1/2024

 

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

MARÉ CHEIA


A maré está cheia,

não há areal onde

te possas secar

e dourar ao sol.

Mas não faz mal,

o calor que emanas,

chega para te secar,

e dourar o mundo.

Jorge C. Chora

   5/1/2024

domingo, 4 de fevereiro de 2024

NOITE E DIA


Já cansada de dormir,

abre a noite os olhos

e nasce o dia, dando-se

reciprocamente um bom dia.

Alumia-se o mundo,

acordam as famílias, os amantes

e os namorados.

Inicia-se a longa jornada,

de trabalho e de estudo,

até as pestanas se fecharem,

de cansaço, ao fim do dia,

e a noite surgir de novo,

a dar início ao descanso

e ao começo da vida noturna.

Abrem-se os teatros, os concertos

e as diversas artes, porque a vida

não pára por ser noite ou de dia.

Se não houvesse vidas infames,

a chacinar crianças, mulheres e velhos,

à bomba, à fome e à sede,

à noite, suceder-lhe-ia o dia,

de um modo natural e humano.

        Jorge C. Chora

           4/1/2024