segunda-feira, 22 de abril de 2019

CORAÇÕES DA PÁSCOA



Num pequeno vaso,    
plantei um coração,
alimentado a seiva
em vez de sangue.
Com o tempo nasceu outro,
noivaram,
reproduziram-se
e agora
em vez de dois
são cinco:
dois pais e três filhos,
todos verdes e carnudos,
e nenhum pode negar
ser filho de tão garbosos pais,
alimentados a seiva,
em vez de sangue.

Jorge C. Chora 
22/4/19


LIVROS



Leva-os,
abre-os,
lê-os
à tua velocidade.
Saboreia-os,
deixa-os
abraçarem-te,
embarca
em viagens
só de ida,
de volta,
ou de ida e volta,
sem enjoos nem comprimidos.

Jorge C. Chora
22/4/19

quarta-feira, 17 de abril de 2019

CANIVETES E PICA-RABOS


  

Na mercearia-taberna, três clientes cortam pão e chouriço e comparam os seus canivetes.

- Este herdei-o do meu pai …

-Já quis comprar um semelhante … -diz o segundo- enquanto exibe o seu.

-O meu não é tão bonito, mas faz o serviço… - e corta mais um pedaço e leva-o à boca.

Na rua passou um velho cortando queijo e comendo-o com nítida dificuldade.

-Aquele tem um pica-rabos … imagino-o lá na Cova da Moura… o espetanço que não é…

Alheio aos comentários que lhe teciam, o velho almeida desdentado, porfiava na luta desigual com o queijo que se assemelhava mais a uma pedra, sem querer deixar que ele lhe levasse a melhor.

Pois é… V ex.ª tem um canivete ou um pica-rabos?

Jorge C. Chora 

17/4/19 

terça-feira, 16 de abril de 2019

NOTRE-DAME



Bailam chamas
na cúpula de Notre-Dame,
desesperam os franceses,
entristecem-se os povos
do globo,
ao verem em perigo
património do mundo.
 Erguem-se vozes,
consciências e vontades,
promessas de reconstrução,
oxalá se concretizem
e em França,
tudo se volte a contar
a partir de Notre-Dame.

Jorge C. Chora 

16/4/19


domingo, 7 de abril de 2019

DELÍCIAS D'AMOR




Andam no ar
delícias d’amor,
algumas à medida
do teu pudor.
Por favor,
abraça-as,
recusa perdê-las,
e ama-as
com todo o fervor.

Jorge C. Chora 

7/4/19

quarta-feira, 3 de abril de 2019

"MÃOS DADAS A MOÇAMBIQUE"




Secam-se pântanos,
reerguem-se
casas e muros,
dão-se as mãos,
entrelaçam-se vozes
e acordes musicais.
Surgem cuidados
de um povo irmão,
um empurrão
à desgraça,
um claro apoio
à reconstrução,
à saúde e ao pão.

Jorge C. Chora 

3/4/19


quinta-feira, 28 de março de 2019

A ÁRVORE DOS SORRISOS



 Abriram os olhos de espanto ao ouvirem um vendedor ambulante de tapetes, falar numa árvore dos sorrisos. O homem estava sentado à mesa de um café, soprava e depois bebia um chá fumegante. Conversava com alguém que examinava a sua mercadoria.

-Pois é…o preço está tão baixo …não consigo baixá-lo mais…- defendia-se o vendedor.
-Se fossem mais em conta levava dois, em vez de um… -respondia o comprador.
E o vendedor levantou as suas enormes pestanas, sorriu e disse:

-Se baixasse o preço, mais valia ter ficado na minha linda terra, rodeado de árvores do sorriso…

E mais não conseguiram ouvir porque os pais tiveram de se ir embora e os levaram.
Bernardo e Helena, sempre que tinham oportunidade, perguntavam às pessoas crescidas se conheciam a árvore dos sorrisos.
As respostas eram mais ou menos as mesmas:

-Árvore dos sorrisos? Nunca ouvi falar… mas até dava jeito se existisse uma, ou mesmo algumas…
Com o tempo, Bernardo e Helena acabaram por deixar de perguntar fosse a quem fosse por aquela árvore, tantos tinham sido os sorrisos zombeteiros dos seus interlocutores.

Nunca mais falaram de semelhante fenómeno e fingiram calar, bem fundo, a sua curiosidade.
Um dia os seus pais levaram-nos a um país onde ainda não tinham ido.

Num passeio que fizeram a uma zona meia desértica e quente, ao olharem para uma árvore de troncos retorcidos e espinhosos, não contiveram um sorriso de espanto: em todos os troncos havia cabras empoleiradas. Entreolharam-se e respiraram fundo: tinham finalmente encontrado a árvore dos sorrisos. Ela existia mesmo.

Durante muito tempo, Bernardo e Helena viram as cabras deliciarem-se com os frutos de argão, pois assim se chamavam, de acordo com a informação dada pelos marroquinos presentes.
Bernardo e Helena suspiraram de alívio: não fora em vão, que tinham mantido a sua curiosidade sempre presente ao longo dos anos.

E o leitor(a) sabe quão importante é o argão para a economia marroquina e norte africana, para além de despertar sorrisos, devido às cabras trepadoras empoleiradas nas árvores?

Jorge C. Chora
28/3/19