terça-feira, 13 de outubro de 2026

ALGUMAS VIELAS DE LISBOA


Em vielas da Lisboa d’outrora,

pairava no ar o cheiro da sardinha assada,

do bacalhau na brasa

e nas casas finórias, o do cozido.

Aos aromas culinários, em cada

canto ouviam-se fados, de faca

e alguidar, de traições e desgostos,

por fadistas roufenhos e amadores.

Havia exceções, fadistas celestiais,

morando hoje no céu onde deliciam

anjos, arcanjos, serafins e querubins.

As esquinas eram pouso de gingões,

de cabelo empastado de brilhantina,

gravata às bolinhas, sapatos pontiagudos,

dotados de uma grande unha,

no dedo mindinho, com a qual sacudiam

a cinza dos cigarros e coçavam o nariz,

enquanto vigiavam as “suas” meninas”,

chamando fregueses e o preço a pagar.

Sucediam-se as cabeçadas traiçoeiras,

com os clientes tentando safarem-se,

depois de se servirem e quererem

escapar sem honrar o preço combinado.

Aqui e acolá vislumbravam-se guardas,

recorrendo ao sopapo e à cacetada

quando se deparavam com rixas e era

necessário acalmar os desordeiros.

Assim decorria a vida em certas vielas

de Lisboa, por valdevinos e “bons vivants”

frequentada.

 

             Jorge C. Chora

 

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