sábado, 16 de novembro de 2013

Concorrência desenfreada...

                  
  Os avós passaram o tempo a beberem este mundo e o outro. Os pais arrastaram-se pela vida fora. Os netos, fazendo jus aos antepassados, herdaram-lhes a vagabundagem e a bebida.
Para sustentarem os vícios que lhes foram deixados, especializaram-se em enganar os conterrâneos.
Os olhos dos netos esbugalharam-se, quando viram um casal à sua frente encontrar uma carteira no chão. Depressa gizaram o plano para se apropriarem do seu conteúdo.

-Foi por estas bandas que perdi a carteira… -disse a neta, arregalando os olhos.

O casal abriu a carteira, olhou para uns documentos que ela continha e perguntou:

-Como é que a senhora se chama?

Revirou os olhos e pretendeu evitar a resposta:

-Ainda não fui tratar do cartão de cidadão…

- Mas aqui há um documento de identificação…. -  respondeu-lhes o casal que tinha encontrado a carteira.

-Não me lembro de o ter deixado na carteira… - tentou esquivar-se a candidata à posse.

-Pois assim não é possível devolver-lha… - concluíram os achadores - até porque ela pertence a estrangeiros – e continuaram a caminhar, dirigindo-se a uma esquadra da polícia que se encontrava na esquina.

Antes de conseguirem chegar à delegação policial, os netos interpelaram de novo o casal que encontrara a carteira:

-Somos descendentes de franceses….é muito provável que os documentos estejam em nome dos nosso antepassados…,

-Nem franceses nem ingleses…ela pertence a… - E não tiveram tempo de acabar a frase, pois um sem abrigo apoderou-se dela e enquanto fugia gritou:

-Ela não é vossa nem é minha…ela é de quem a apanhar…

E na correria desenfreada, quando olhou para trás para controlar os seus perseguidores, chocou com um grupo de amigos do alheio que lhe ficou com a carteira e lhe disse:

- Faz de conta que somos a troika…vai-te e não digas a ninguém…

Jorge C. Chora




sábado, 2 de novembro de 2013

Guardado está o pedaço...

Tinha o estômago a dar horas. Os seus olhos fixaram-se na vitrina do restaurante onde se encontravam expostas três enormes postas de peixe. Sentou-se e pediu ao empregado a maior das postas.

-Peço desculpa, mas a maior está reservada para o patrão…

-Então a segunda maior… -tentou o cliente.
-Torno a pedir-lhe desculpa, mas essa é destinada à patroa…

-Mau…não me diga que a terceira também está reservada …

-É verdade..e é para mim, que hoje estou convidado a almoçar com os patrões…

-Ainda pode comer uma bela feijoada… -sugeriu o empregado.

-Venha lá ela… -conformou-se o cliente.

Passado um bocado entraram os donos que disseram ao empregado:

-Daqui a uns minutos vai chegar um amigo que convidámos para almoçar. Mande fazer o peixe.

-Mas só há três postas…

-E depois? Escolha outro prato para si…

-Por acaso não há. A última dose de feijoada acabou de ser servida… -explicou o funcionário.

-Olhe, gordo como o senhor está, bem pode fazer dieta e agradecer-nos o cuidado que estamos a ter consigo. – replicaram os proprietários.

Na mesa, o cliente protegeu com ambos os braços o prato que tinha à sua frente ao ver o funcionário aproximar-se e exclamou:

- Não estou de dieta!

Afastou-se o empregado resmungando entre dentes:

-Não está, mas devia estar…



Jorge C. Chora

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Fado

Se sai do coração é fado
embora digam que nem tudo
o que daí jorra o é.
Ai não ?
O que é o amor senão fado?
E a fúria e o encanto, também a inveja e a má-língua,
a velhacaria e as saudades ?
Tudo o que saí do coração pode ser fado, seja escrito ou cantado,
porque o que hoje está rabiscado, amanhã pode ser cantado.
Se sai do coração, é mais do certo, será fado,
embora digam que nem tudo o que daí brota o seja.
Certo, mais do que certo, é que tudo o que é profundamente sentido,
amanhã será fado, seja cantado ou rabiscado.


Jorge C. Chora

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Ushanka,o gorro milagreiro

O senhor era feio. Assemelhava-se a uma mistura de abutre e de mocho velho, caso fosse possível acasalar estas espécies! Teoricamente não era, mas na vida real, era a prova provada, de que os impossíveis não existiam! Para além da fealdade, da qual não tinha culpa absolutamente nenhuma, associava outras características não menos penalizadoras, das quais devia assumir, de facto, a total responsabilidade: implicativo e pouco social.

O cavalheiro apercebeu-se de que certos sons tinham o condão de acalmar as pessoas, de as tornar mais abertas, permeáveis e receptivas à presença de estranhos. O som era o de pombos a arrulharem. Mandou fazer um gorro à russa, onde cabia um casal de pombos.

Todos os dias, antes de sair, encafuava o casal, que ia ao pombal buscar, no interior do seu gorro e saía à rua todo sorridente.

Já no jardim, aproximava-se de um grupo de senhoras que ali se encontrava. Pouco depois, era convidado a sentar-se entre elas e o número de senhoras idosas ia aumentando gradualmente, à medida que as pombas iam produzindo os sons acolhedores. A estas senhoras juntavam-se outras mais jovens e atraentes.

A cachaça a que era tão afeiçoado e lhe causava aquela vermelhidão na ponta do nariz, era confundida com timidez excessiva, com um rubor amoroso e delicado.

Aos poucos, sem dizer uma única palavra, tornou-se uma figura indispensável, um acompanhante de valia.
Quando ao fim da tarde as senhoras regressavam a casa, ele dirigia-se à taberna. Os frequentadores habituais rodeavam-no e demonstravam o espanto:

-Como é que tu consegues juntar as senhoras ao pé de ti? O que é que lhes dizes? Que conversas tens?

-O homem sorria e estendia o copo. Enchiam-lho de cachaça. Depois de muito instado, contava duas ou três coisas sem importância e murmurava, de modo misterioso:

-Qualquer dia conto-vos…

Um dia resolveu embaratecer os custos da alimentação dos pombos. Começou a dar-lhes uma ração de má qualidade e de baixo preço e a cortar-lhes a quantidade.

Dias depois, ao aproximar-se das amigas, estranhou a forma como estas o olhavam.

-O que é que o amigo tem a escorrer-lhe pela testa abaixo? – Interrogaram-no - com um ar enojado.
Antes que o homem respondesse, adiantaram-se os pombos:

- Basta cheirarem…

Jorge C. Chora


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

A árvore encantada

Cresceu sem ninguém dar por ela, ao fundo do jardim, num piscar de olhos. Perguntaram ao jardineiro que árvore era aquela e quando é que fora plantada.

-Não faço a mínima ideia, não fui eu que a plantei.. – ele bem suspeitava de quem tinha sido, mas não  se atrevia a dizê-lo - nunca vi nenhuma igual…Sei que é encantada e mais nada…

-Como assim? -  espantou-se a directora do refúgio infantil.

- Quando as crianças se acolhem à sua sombra e lhe fazem pedidos, ela escuta-os… -respondeu o jardineiro

A directora olhou-o, incrédula. Afastou-se dois passos e tornou a olhá-lo, certificando-se de que ele estava mesmo à sua frente e que o ouvira bem.

-Está a dizer-me que ela ouve as crianças?

-Sim…

Sempre achara aquele jardineiro um bocado estranho. Ela sabia que ele fora ensinado por uma antiga professora que repreendia os trovões, ralhava com o diabo e a quem os deuses temiam quando saiam da linha. Já o vira a falar com as plantas, fazer-lhes festas, cantar e colocar-lhes música para que a escutassem. Agora ele queria convencê-la de que a árvore escutava as crianças e acedia aos seus pedidos!?

No dia seguinte, ao ver os gaiatos protegerem-se do sol sob a frondosa copa, foi, pé ante pé, colocar-se à escuta.

-Com o calor que está, sabia-me bem uma laranja… - disse um dos miúdos.

E a árvore inclinou-se um bocado e apresentou-lhe uma enorme e suculenta laranja.

-E a mim, um morango, imaginem só… – disse a medo outro.

A directora arregalou o olho. Um morango!? Em Agosto e sem ser de estufa!? Uma árvore que não é uma laranjeira e dá laranjas?

E o morango surgiu, grande e limpo, ao alcance da mão do petiz.

A senhora sacudiu a cabeça. Beliscou-se, certificando-se que estava acordada. Mas o que se passa aqui? Interrogou-se e resolveu tirar a limpo a situação:

-Eu queria uma banana… - pediu com uma vozinha, imitando os petizes, escondida dos seus olhares.

E a árvore inclinou-se e ofereceu-lhe uma enorme banana.

A directora estendeu a mão e quando ia colher o fruto pedido, um ramo juntou-a aos pequeninos e disse:

-Junto deles conseguirá tudo…

E o jardineiro sorriu e disse para os seus botões:

-Será que consigo enxertá-la noutros jardins? Isto só pode ser obra da minha tutora. Até tremo quando me lembro do trovão, que teve que engolir o som, para não assustar os seus meninos! Do diabo que fugiu a sete pés quando quis intrigar e, da corrida que deu aos deuses da discórdia, quando se quiseram instalar na escola sob o pretexto de ser o melhor caminho!

E nesse mesmo dia, o jardineiro só parou depois de enxertar todas as árvores das escolas da cidade.

Na tua escola há alguma árvore que fale?

Não deixes que a cortem!


Jorge C. Chora

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

A decisão

Ameaçaram-no e ele reagiu construindo uma muralha à volta da sua torre. Ao verem as medidas que implementara,  tornaram a fazê-lo, aumentando o tom e a dimensão da ameaça.

Respondeu o visado construindo uma muralha ainda mais forte e alta do que a anterior. Sempre que era intimado, a resposta era imediata: Construía defesas mais altas e eficazes.

Um dia, os sitiantes, decidiram retirar-se e deixar de proferir os truculentos avisos. Acharam que tinham isolado o sitiado sem gastar um cêntimo em acções bélicas.

No interior da fortaleza,  as críticas não se fizeram esperar: eles próprios tinham-se enclausurado e agora estavam perdidos e sem saída. Acabariam por morrer à míngua!

Riu-se o castelão dos dislates que ouvia. Mandou que abrissem a 24ª porta da muralha.
Um pelotão executou as ordens e, ao abrir a referida porta, deixou à vista o pano da muralha.

-E então agora?- surpreenderam-se os habitantes.

O castelão chamou a criança que brincava no pátio e entregou-lhe um martelo, dizendo-lhe:
-Se deres uma martelada naquele muro, ganhas um presente e darás uma grande alegria a todos os que aqui estão.
Olharam os habitantes da fortaleza com certa piedade o seu castelão.

-Coitado, perdeu o juízo com o disparate que fez!

Eis senão quando, a criança desfere uma grande martelada e faz um enorme rombo que deixa ver com toda a nitidez o exterior do castelo.

Fez-se um silêncio sepulcral, só quebrado por uma voz tonitruante e furiosa vinda do lado oposto do castelo:

-Então o inimigo podia invadir o nosso castelo por esse ponto fraco nas muralhas?


Jorge C. Chora

domingo, 18 de agosto de 2013

O sapo alado

Era uma vez um sapo que surpreendeu toda a comunidade ao nascer com asas. À medida que crescia,  a comunidade revelava  a sua estranheza ,sempre que com ele se cruzava:

-Porque precisas tu de asas, um mero sapo como nós? Como nós quer dizer…

E o sapo alado, engolia em seco, contendo a sua vontade em dar-lhes uma sapatada daquelas valentes, que lhes tirassem, de uma vez por todas, a vontade de pronunciarem disparates.

Nascera assim, não pedira a ninguém as asas. O que mais desejava é que elas não lhe tivessem surgido e que ele fosse igual aos outros. Igual aos outros, ponto e vírgula: só sob o ponto de vista físico, porque ter uma cabeça semelhante à deles, não obrigado!

Num ano muito quente e quase sem chuva, a desgraça abateu-se sob a colónia local de sapos: metade deles  adoeceu e os filhos não vingaram devido à falta de charcos e pelo facto dos existentes terem secado.

O sapo alado assistiu à desgraça e sem que ninguém lho pedisse, bateu as asas e subiu aos céus. Procurou nuvens até que as encontrou. Assim que as viu, deu-lhes pontapés, com toda a força que tinha, empurrando-as para a sua região. Em seguida, dirigiu-se ao vento frio que soprava noutro local e falou assim:

-Amigo vento, nestas paragens ninguém te olha com bons olhos. Se vieres para as minhas bandas, vais ver que serás bem-vindo…

Em terra, os que o viram aos pontapés desabafaram:

-O que faz aquele palerma ao pontapé às nuvens?

Pouco depois, um vento frio fez-se sentir e daí a pouco, chovia de modo abundante.

E foi só a partir daí que os sapos passaram a incluir, nas suas orações, um pedido:

-Dai-nos, Senhor, a alegria e a bênção de manter a saúde ao nosso sapo alado, para que ele possa cuidar de nós…

Jorge C. Chora