sábado, 5 de abril de 2014

Verde tinto ou verde framboesa?

                                           

Uma jovem senhora, tinha pouca ou nenhuma paciência para esperar pelo verde nos semáforos.
Ao passar com a luz vermelha, acabada de cair e alertada pelas passageiras a quem ocasionalmente dava boleia, para o facto de já ter passado com o vermelho, respondia:

-Estás enganada! O sinal estava verde tinto!

A resposta foi essa até que, ocasionalmente, viu, numa loja, escrito numa pequena ardósia, pendurada à porta, a frase “verde framboesa”.

Parou e observou-a. Resolveu adoptá-la para as suas respostas/desculpas, pois achou que, ao
dizer que o sinal estava verde/tinto, isso  era de mau gosto porque podiam associá-la ao vinho verde tinto e aos seus eventuais maléficos efeitos.

Agora, quando não respeita os vermelhos e disso é recordada, posiciona os graciosos lábios na posição de quem vai um beijo repenicado e diz:

-Estás enganada! O sinal estava verde framboesa!

Um destes dias ficou para morrer, quando uma mulher polícia a mandou parar, e como se lhe fosse dar um beijo repenicado lhe disse:

-A senhora está multada por ter passado com o verde framboesa…

O resto já não ouviu. Como se atrevia ela a roubar-lhe a expressão verde framboesa!?

Jorge C. Chora


quarta-feira, 2 de abril de 2014

Os amores de Chico e de Glória e um Chevy à mistura

                                             

Amavam-se dia sim, dia não. Amavam-se à vez. Chico adorava-a nos dias pares e Glória nos dias ímpares.
Farto de não ver o seu amor retribuído nos seus dias, Chico propôs que se adorassem todos os dias e retribuíssem o sentimento por inteiro, quer se tratasse do dia dele ou dela.

Concordaram em fazê-lo e cumpriram durante uma semana o pacto. Na 2ª semana acharam que estavam em dívida para com um amor que tinham em comum: um chevy de 1954.

E os cuidados a ter com o chevy? Quem lhos daria? Se até ali o que estava dispensado de amar se lhe dedicava, agora que ambos se comprometiam, por inteiro, à relação Glória/Chico, o abandono desse ser idolatrado, afigurava-se-lhes como um crime de lesa-amor.

Retornaram à antiga fórmula, até que um dia instituíram o dia de São Chevy e acabaram em definitivo com os dias pares ou ímpares.

Era uma vez o amor de Chico e de Glória no qual se imiscuiu um chevy.

-Oh Lord don’t  give us chevy’s…

 Jorge C. Chora


·       *  Um chevy é um Chevrolet

terça-feira, 1 de abril de 2014

Já não há alfaiates como os antigos!

       
Encontrei uma girafa que estava de cabeça perdida.
 Dirigia-se ao alfaiate e ia reclamar
Por este lhe deixar os bolsos descosidos.
Queixava-se de que já não havia alfaiates como os antigos,
Que os modernos eram uma desgraça.
Permitiam a qualquer um o livre acesso aos seus bolsos
E por isso bem sentia as mãos que neles se introduziam
A qualquer hora do dia ou da noite, sem dar cavaco
A ninguém e, pelo menos que ela se lembrasse,
 Também não dera a sua autorização.
Tudo lhes servia, fosse pouco ou fosse muito,
E por isso andava de cabeça perdida sem saber o que fazer.
 Alguma culpa o artesão teria de ter no cartório,
Pois essa de deixar os bolsos descosidos
Nem ao demónio lembraria,
E apressou o passo pois desejava lá chegar
E encontrar a porta aberta.
Qual não foi o seu espanto quando ainda distante do destino,
Esticou o pescoço e viu centenas de irmãs suas
Formando uma longa, mesmo muito longa fila,
À porta da alfaiataria.
Apressou o passo e, ao chegar, juntou-se ao coro
Que se ouvia:
-Queremos os bolsos cosidos…queremos os bolsos cosidos
O velho alfaiate saiu à rua e disse:
-Minhas lindas girafinhas, por muito que eu
Cosa os vossos bolsos, os que deles se servem,
Têm tesouras que os cortam num ápice.
E as girafinhas, batendo o pé e esticando o pescoço
Fizeram-se ouvir:
-Fora com as tesouras…fora com as tesouras
Daí para frente, o velho alfaiate passou a poupar nas linhas
Pois a culpa, ponto assente, era das tesouras.
Ele até veio para a rua juntar-se às girafinhas:
-Fora com as tesouras…fora com as tesouras…

Jorge C. Chora

sexta-feira, 28 de março de 2014

As razões da tristeza da gata pernilonga



A  gata pernilonga passa o dia a miar,
Porque dela a amargura se apossou,
Pois quer casar e não a deixam.
Falta-lhe o vestido que teve de vender,
Comprou-o e não foi capaz de pagá-lo.
O mesmo se passou com a casa que escolheu
Com muito amor e no momento de ficar com ela
Verificou que o seu trabalho se tinha eclipsado.
Os ratos que outrora caçavam tinham proliferado tanto,
Que agora eram eles que caçavam os gatos.
Entre uma e outra desgraça o tempo foi passando
E hoje, para cúmulo da sua infelicidade,
Trouxeram-lhe a notícia do falecimento do Grande-Miau-Miau,
Seu eterno noivo. Pior foi quando inquiriu o malfadado mensageiro
Sobre a causa da sua morte e este lhe segredou:
-De velhice, minha cara amiga.

Jorge C. Chora



terça-feira, 25 de março de 2014

Só minha

        
Se eu tivesse o condão
De te aquecer com os meus olhos,
Ah! Como estarias sempre quente!
Viverias nos trópicos e saudarias
Os dias com aleluias.
Pior seriam aqueles dias
Em que a minha paixão incendiasse o meu olhar,
Viverias num braseiro,
E eu correria o risco de te
Desnudares aos olhos de outros e não só dos meus!


Jorge C.Chora

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Ouvi mal?

A jovem franziu o nariz, arqueou as sobrancelhas e deu-se ares de enjoada. Olhava para as pessoas   que a rodeavam como se elas tivessem uma doença contagiosa.

Os seus cabelos meio alourados, estavam apanhados no alto da cabeça e formavam um carrapito.

Uma das muitas senhoras  de  baixa estatura que a cercavam, mais mourisca do que uma andaluza, ao vê-la revirar os olhos, achou que aquele ar teatral era demasiado para o seu gosto e não se conteve:

-Este povinho que não tem onde cair morto…dá-se ares de importância, como se fossem banqueiras!

E foi aqui que a jovem loira, trineta de uma criada escocesa e de um bisnau das beiras, se abespinhou:

-Será que eu ouvi bem? Ela chamou-me povinho? Povinho, eu!?

-Não, ouviste mal, uma pessoa tão distinta como tu, podia lá ser do povo… - consolou-a  uma amiga , receando uma explosão de fúria por parte da descendente escocesa.


Jorge C. Chora

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A propósito de um ditado africano

Há um ditado africano que diz mais ou menos isto:” Se vires um cágado em cima de uma árvore, não penses que foi ele que subiu: alguém o pôs lá.”

O que o ditado não diz nem explica, é que essa realidade teve um princípio. Um princípio?

Sim, claro! Tudo tem um início e, como tal, tem de ter um fim, embora, neste caso específico, não se vislumbre ou anteveja, o fim dos cágados nas árvores.

Então qual foi o princípio? Vou já contar, não se apressem.

Um belo dia, um macaco com um currículo de patifarias que faria corar de inveja o mais empedernido dos sabujos, resolveu dar um passeio na selva. Olhando para a esquerda e para a direita, para cima e para baixo, não lhe sobrou tempo para olhar em frente.

Num piscar de olhos foi vítima de uma cilada. Apanhou tantas ou tão poucas, que jurou a si próprio e aos do seu grupo, nunca mais correr sequer o risco de cair noutra.

 Juntou os seus apoiantes e explicou-lhes que era necessário colocar observadores no maior número de árvores possível. Eles seriam os seus olhos e deviam depender, na totalidade, de si e dos seus.

O conselheiro-mor,  um macaco sabido e de longa barbicha branca, disse:

-Os melhores para essas funções são os cágados.

-Os cágados? Mas esses, coitados, nem às árvores conseguem subir…

-Por isso mesmo!-  gargalhou o conselheiro - Eles sabem que quem lá os pôs os pode tirar a qualquer momento, sem ter de dar qualquer justificação. Dependem de nós para tudo. Podemos atirá-los contra os que se nos opõem, fazê-los cair em cima deles. Matamos dois coelhos de uma só cajadada: esmagamos os que reclamam e criamos um lugar novo para substituirmos os cágados que morrem.

-Ó conselheiro, assim, com o decorrer do tempo,  corremos o risco das árvores não suportarem o peso dos cágados que lá colocamos! –  observou um jovem pertencendo ao grupo.

-Não te preocupes meu amigo… o teu lugar está assegurado… - É só obrigar todos aqueles que não pertencem ao nosso lado a plantarem mais árvores e promover, alguns deles, a cágados, para dar alguma esperança a quem não a tem.

E o conselheiro-mor  voltou à sua tarefa, a de consultar e seleccionar,  entre a longa lista de candidatos a  cágados, os que ia  nomear…


Jorge C. Chora