sexta-feira, 14 de outubro de 2016

AS"BALEIAS" NO TEJO E OS FILMES NO COLISEU NOS ANOS 50/60

            

Luciano Santos e a sua tia Adelaide, sempre que iam à Cova do Vapor, apanhavam o cacilheiro no Cais do Sodré. A bordo, instalavam-se na zona da proa, ao ar livre, e viajavam vendo o barco a sulcar as ondas, até chegarem ao destino e desembarcarem na Costa do Vapor, como lhe chamavam na época, num cais de madeira.

Um belo dia, navegando perto de Porto Brandão, Adelaide solta um enorme grito:

-Olha uma baleia! Uma baleia! E apontava, excitadíssima, um grande golfinho que dava saltos junto à proa do navio.

Os passageiros, deliciados, assistiam às brincadeiras da “baleia” que acompanhou o cacilheiro durante parte da viagem e a sua atenção só foi interrompida, de tempos a tempos, por um  engraçadinho que gritava:

-Olha a baleia!

À noite, já sem a tia, Luciano ia, por vezes, assistir a um filme no Coliseu. Na sala ficava com um olho fixo na tela e o outro no chão, local onde havia outro espectáculo: corridas de ratazanas. Quando ele e os outros espectadores acabavam de fumar os cigarros, afinavam a pontaria e arremessavam as beatas à rataria.

Se acaso pagassem uns dinheirinhos por cada rato, vivo ou morto, Luciano e os outros eram bem capazes de encher um saco e arrecadar uns tostões, que bem falta lhes faziam.

Lisboa nos anos 50/60, ainda era assim.


Jorge C. Chora

terça-feira, 11 de outubro de 2016

RECORDAÇÃO



O que em ti
vi quando te conheci
explica bem
o que por ti senti:
O mesmo que ainda hoje sinto
quando estou perto de ti
e gosto de recordar
 o dia em que te conheci.


Jorge C. Chora

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

UM BEIJO E UMA FLOR


Olhar as gerberas
causa-lhes um certo ciúme,
arregala-lhes os olhos
desperta-lhes o desejo
de recebê-las por parte
de quem,
até ao momento, lhes deu
uma mão cheia de arrelias
e a outra, repleta só de promessas
incumpridas.

Uma flor para a Guida,
outra para a Helena,
e ainda outra para a Joana,
havendo também para
a Mafalda, a Luísa
e para todas as mulheres
que amam.

Uma flor e um beijo
que elas, afinal,
 ciumentas ou não,
também merecem,
enquanto esperam
que as promessas
um dia se cumpram
e recebam de quem amam
um simples ramo de gerberas.


Jorge C. Chora

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

"RÁRES" E O PRESIDENTE DOURADO

                                           
Foi hoje aberto ao público o MAAT e muitos milhares de cidadãos quiseram visitá-lo, tal como eu.
O Prof. Marcelo Rebelo de Sousa também lá foi. Circulou entre a multidão, deixou-se fotografar com vários anónimos, apertou a mão a muitos dos que o quiseram cumprimentar.

Subindo a rampa exterior, que dá acesso ao topo do edifício, o Presidente da República, acompanhado de uma pequena comitiva, alguns deles militares da marinha, atraiu a atenção de Ráres, encavalitado aos ombros de seu pai.

Ráres é uma criança romena, e o pai um operário que trabalhou na construção do museu. Excitado por saber que naquele grupo que subia vinha o Presidente, apontou o reluzente oficial de marinha, fardado de branco, com os seus galões dourados e não teve a menor dúvida:

- É aquele senhor, não é pai?

E quando o progenitor lhe disse que não e lhe indicou quem era, calou-se e percebeu-se uma
desilusão: afinal nem sempre os que brilham ao sol são os que mandam em todos!

Jorge C. Chora


segunda-feira, 3 de outubro de 2016

O FADO CACAREJADO

                                                      

Na feira de antiguidades, um senhor de grandes bigodes, examinava os objectos da banca onde se encontrava, com um detalhe e uma morosidade exasperante.

O vendedor, de modo educado, ia respondendo às questões, a um ritmo frenético, que o cliente lhe ia pondo, da melhor maneira que lhe era possível.

Depois de mexer, remexer e examinar praticamente tudo o que havia, pegou numa pequena estatueta metálica, representando um galo. Deu-lhe o mesmo tratamento que tinha dispensado às peças anteriores, com a particularidade de a encostar ao ouvido, primeiro o esquerdo e a seguir o outro.

-A peça é portuguesa?

-Sim. Comprei-a como tal...

E o senhor, tornou a encosta-la às orelhas e a sacudi-la com um ar de caso.

-Pois olhe, se eu descubro que ele canta em chinês, pode ter a certeza que venho cá devolvê-lo…  - advertiu o comprador.

- E se ele por acaso cantar em japonês ou em tailandês? -perguntou divertido o vendedor.

-Nada feito…se ele cantar, só aceito em português legítimo, de preferência em ritmo de fado cacarejado!

Nestas feiras aparece cada maduro!


Jorge C. Chora

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O ROLÃO CU DE PAVÃO



Rolão cheira mal que tresanda. Como assim? perguntarão, querendo saber com exactidão o fedor que ele exala. Não é fácil descrevê-lo porque não há palavras que possam igualar a repugnância sentida, com o mesmo grau de intensidade em relação à experiência olfactiva. Direi que, o odor faz lembrar palha velha, embebida em urina e fezes de animais ou seja, o Rolão fede a estrebaria, embora se possa encharcar em jasmim ou outra essência qualquer.

De estrebaria é também o seu comportamento. Rolão pavoneia-se, usa o você em vez do senhor(a), gaba-se, não cessa de gabar-se do que fez com esta e com aquela, dando pormenores sórdidos, sabe-se lá se reais se imaginários, capazes de demolir a reputação mais sólida, sejam elas solteiras, viúvas ou casadas. Todas sem excepção, diz, suspiram por ele, emitem sinais de enorme interesse que ele, tal qual antena de TV, capta antecipadamente e sabe o momento em que elas se entregarão e o modo como o farão.

Rolão é feio como os dias de tempestade, branco que nem uma osga, lanzudo como uma ovelha de pêlo seboso e escorrido. Dotado de umas beiças finas que formam uma espécie de beiral das cloacas, por elas escorrem as aleivosias e a torrente orgásmica e leitosa da maledicência, também em relação a eles, quando jura a pés juntos e divulga, destilando velhacaria, que o gajo é, de fonte segura, um homossexual conhecido de todos, mas só ele tem essa informação: não diga a ninguém…

Rolão agarra-se como as lapas, não desgruda de quem lhe interessa, esfrega o ego a quem pretende sugar alguma coisa, até ao momento em que consegue concretizar a transfusão.

Rolão pavoneia-se, só dá as costas, mostra o rabo que julga ser de pavão mas é, de facto, um cu de pavão sem penas.

Quantos Rolões, cus de pavão, conhece Vª Exª? Está rodeado deles? É natural…é o que mais há!
São de facto muito, mas muito aborrecidos, e acima de tudo, infinitamente repetitivos…e cansativos.

Sacuda-os!


Jorge C. Chora

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

O GALO DESTRAMBELHADO

                 

Suspeito que o meu vizinho capou o galo que tem na capoeira. Este anda furioso com a perda sofrida e há quem diga que o animal até muda de cor pois, umas vezes está vermelho, outras rôxo e ainda, no auge da raiva, negro que nem um tição.

E o estupor do bicho reclama, sem atender nem à hora nem ao dia, seja de trabalho ou de descanso, num estilo roufenho e dolente, numa toada mourisca que ninguém percebe, mas que se sente ser de lamento e revolta,  por lhe terem tirado aquilo que o fazia ser um grande galo.

Canta de manhãzinha, mesmo antes da hora prima, segue-se a cantoria todo o dia, mesmo após as completas, emitindo aquele som desqualificado, de galo capado, de político que ninguém ouve.
Pior, mas muito pior, do que o seu cantar, é o coro de carpideiras que o acompanham. Escutem! Ouçam:

-Estamos fracas…estamos fracas…estamos fracas…

E o galo, convencido  que deve ser ouvido, levanta a crista e canta a propósito de tudo e de nada, aproveitando todas as oportunidades, tornando-se insuportável.

Se alguém tivesse o condão de fazer o destrambelhado retroceder até voltar a estar no ovo, estou certo de que todos os que o ouvem o impediam de ser chocado. Melhor ainda, penso que surgiriam os adeptos dos que o estatelariam no chão e procederiam como Pombal, salgando o solo, garantindo que o malvado galaró não deixaria semente.

Por mim, que não advogo soluções tão radicais, pagar-lhe-ia uma operação estética que lhe reimplantasse os ditos e fizesse com que ele abandonasse o estatuto de “castrati” desafinado.


Jorge C. Chora