segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

A CANÇÃO DO GULOSO



Ai como adoro
apertar sem magoar,
bailar sem dançar,
cometer aquele pecado
grande e saboroso,
devorar um gigantesco
chocolate,
que só me faz mal
e sabe tão bem.
Ai que bom é pecar,
comer um chocolate
do tamanho de uma
baleia, um bocado agora,
outro depois,
sem guardar para logo,
que esse, já o tenho no bolso,
junto à insulina.

Jorge C. Chora

19/2/2018

domingo, 18 de fevereiro de 2018

A MARCHA DOS FIGURÕES



Marcham os figurões,
semeando a cada passo canhões,
nas bermas fuzis,
no ar aviões,
que transportam desgraças,
de mão dada com o troar
das botas e o ribombar dos tambores
e tudo isto fazem e desfazem,
para dizerem que quem manda aqui
são eles, só eles, os grandes figurões.

Jorge C. Chora
18/2/2018

sábado, 17 de fevereiro de 2018

AS MÃOS EM CONCHA


Coloco as mãos em concha
para receber as tuas,
mas preferes retirá-las
e beijar as minhas,
deixando-me o sabor
e o calor dos teus lábios,
acrescido do aveludado das tuas mãos.
Que bom é colocar as mãos em concha,
aconchegar as tuas mãos,
sentir o teu perfume
e retribuir o teu beijo…
 Jorge C. Chora
17/2/2018

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

RESPOSTA PRONTA


Sentada ao meu colo, a pequena Caetana, com dois anos feitos o mês passado, é alvo de uma brincadeira da avó:
- Também quero colo…esse colo é meu…
Caetana olha-a e finge não a ouvir.
-Esse colo é meu… -torna a avó.
-Não, não é…és muito grande para estares ao colo do avô… -reage.
-Não sou não…
-Sim… és! - e, acto contínuo, tira a chucha da boca, estende-a à avó e ordena – Toma a chucha e vai
para a cama.
A seguir ri-se e anicha-se no meu colo com um ar vitorioso. Segundos depois, estende os braços e pede:
-Avó, quero colo!

Jorge C. Chora

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

HOMEM GRANDE



O “Abatanado” sorri de modo triste. Os seus óculos à aviador, com a lente direita fragmentada, semelhante a uma teia de aranha, deixam ver os olhos que denotam uma ausência de alegria, um conformismo forçado.

Roubaram-lhe a bicicleta, companheira inseparável das travessias das ruas e avenidas em alta velocidade, de rádio a tiracolo e imaginação galopante, dançando em duas rodas, prenúncio de outras danças que efectua apeado, acompanhado pelo som  que rompe e se metamorfoseia em estonteantes giros e contorções rítmicas.

Roubaram-lhe a sua fiel companheira e queixa-se, em voz baixa e sentida:

-São uns bandidos! O que faço sem ela…

Pela tardinha revejo o “Abatanado”, em alta velocidade, numa bicicleta pequena, muito pequenina, com um grande sorriso estampado e música que jorra do rádio em forma de tubo, que aperta no sovaco.

- Ela não é muito pequena para ti? - perguntam-lhe.

-É verdade… mas assim sinto-me grande! Tenho de lhe colocar um assento mais alto e fica tudo bem…

E o Abatanado torna a sorrir, usufruindo da sua grandeza, resultante do contraste entre o seu tamanho e o da sua nova bicicleta.

-Agora sou um homem grande! – e sorri feliz, o Rafael que todos conhecem com “Abatanado”.



Jorge C. Chora

 13/2/2018

domingo, 11 de fevereiro de 2018

ETERNA SEXTA-FEIRA SANTA




Ser católico recasado,

é estar no paraíso

e não aceder ao leite

nem ao mel,

privar-se do aveludado

que recompensa as

agruras da vida,

transformar a existência

numa eterna Sexta-Feira Santa,

jejuar o bom e o bombom,

ser condenado à castidade,

com um castigo mais que infernal,

sem qualquer esperança

de um dia chegar o domingo

e a festa pascal.



Jorge C. Chora
11/2/2018

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

DIÁLOGO MATINAL



Todas as manhãs, no café do bairro, primeiro entra a canadiana e só depois, muito depois, surge a respectiva dona. Trôpega, move-se com esforço. Estalam os ossos e quase sentimos as dores excruciantes que acompanham os passos que dá.

À medida que se locomove, mexe os lábios e não produz qualquer som. Optou por dizer palavras inaudíveis, queixas mudas: adivinham-se palavrões cabeludos, nada ofensivos porque não se ouvem, bastante comedidos porque nada proporcionais às enormes dores que tem.
Cumprimenta o senhor que se senta à mesa do canto do café:


-Bom dia …como passou a noite? - e faz um esgar, tocando nas pernas, na cabeça e no ombro.

Está lançada a conversa. Engatilha a história do que padeceu à noite.O cavalheiro vai assentindo com a cabeça e sorri. Não percebeu praticamente nada do que a senhora disse, embora saiba que ela se queixa das maleitas de que sofre. O monólogo tem certa duração: cerca de quinze minutos.

Aguenta de modo estóico o quarto de hora da praxe. O jornal aguarda a oportunidade de ser lido.
Na hora da despedida, a idosa senhora, sorri, quase feliz e confortada e despede-se:


-Amanhã também é dia! Cá nos encontraremos …tenha um bom dia.

-Bom dia minha senhora. Cá nos encontraremos…

E o jornal, cansado de esperar, quase se abre sozinho, esparramando-se por cima da chávena de café gelada.



Jorge C. Chora

7/2/2018