sábado, 11 de abril de 2020

AI QUE DESGRAÇA!


Cheira a bolo
na casa inteira,  
e o meu olfato se inteira,
de algo cujo aroma antecipa
ser digno de captura.
Do bolo me acerco e não resisto,
um dedo lhe vou espetar,
quando tive de parar:
O que vais fazer?
-Provar o bolo…
-Só o podes ver,
sem o comer…
Afinal, dupla tortura estou a sofrer!
Além de confinado,
estou envolto num doce aroma
de um bolo que é só para ver!
-Só logo…
E o logo nunca mais chega…

Jorge C. Chora

11/4/2020

quarta-feira, 8 de abril de 2020

AS MÁSCARAS



Obrigatórias se tornaram,
de todos os tamanhos
e feitios.
Com elas desfilam vampes e varinas
e é vê-las,
desde tecidos axadrezados,
até aos de barras e bolinhas.
Olha, ali vai uma,
igual às minhas cuecas!
Cala-te boca, que a minha,
da saia da minha mulher é feita!
Que sorte tenho eu, delas usarem fio dental!

      Jorge C. Chora
         8/4/2020

terça-feira, 7 de abril de 2020

CERTOS BEIJOS



Certos beijos são primícias
da arte de amar,
ágape de amantes,
degustação gourmet,
de excelsas saladas
de ostras e lingueirão,
com sabor a mar
em dias de amor
e tempos de reclusão.

Jorge C. Chora
7/4/2020


segunda-feira, 6 de abril de 2020

A PROFECIA DA CUCA



Desesperava a taberneira Antónia ao ver a sua casa deserta semanas a fio. Faltavam-lhe os clientes e o que mais gostava de ouvir: o tilintar das moedas a caírem na sua caixa registadora.
À porta viu o primeiro cliente e já passava do meio dia.

-O que é tu queres ó Cuca? -perguntou de modo desabrido.

-Bons modos e alguma simpatia…

Antónia arregalou os olhos e franziu na testa. Até o raio da Cuca se atrevia a falar-lhe assim, pensou.

-Como hei-de estar se o negócio está deste modo… -E apontava o espaço sem vivalma.

-Vou ajudar-te… - prometeu a Cuca.

Antónia arrepiou-se. A Cuca-Bruxa ia ajudá-la? Onde é que a coisa já ia, pensou.
E a Cuca falou assim:

-Basta que subas à pipa atrás do balcão e o primeiro homem que aqui entrar, vai salvar-te a ti ou ao teu negócio… - e dito isto, saiu.

Mal a Cuca acabara de sair, quando a maçã camoesa que Antónia tinha no cimo do pipo a aromatizar o vinho, lhe rolou aos pés. Subiu a um banco, e quando já nele estava empoleirada, o banco caiu.

Agora é que são elas…o raio da Cuca e das profecias…! -exclamou.

E quando estava a resvalar, sentiu-se levantada ao ar e aninhada ao colo de um verdadeiro urso, tão grande e peludo era o homem que a segurava.

-Mas o que está a fazer! - repreendeu Antónia, com a acrimónia habitual.

-A salvá-la minha senhora! Caso queira regressar ao pipo… -E fez menção de a recolocar no mesmo sítio.

Um súbito bem-estar apoderou-se de Antónia. Pôs-lhe a mão no peito e pediu-lhe desculpa, enquanto ele a colocava no chão, de modo suave.

-O que quer beber? - ofereceu Antónia à laia de agradecimento.

-Uma taça de vinho d’amor, do seu amor ao pipo que estava a abraçar…- brincou o senhor.

E quando ela se voltou, já o seu salvador desaparecera e à porta estava a Cuca que lhe perguntou:

-Agora que tens o vinho d´amor, tens de decidir se queres o tilintar das moedas na tua caixa ou o amor do teu salvador.

E a Antónia, com um ar emproado, sem sequer lhe dar troco, dirigiu-se ao exterior da taberna e escreveu no quadro negro:

                        TAÇA DE VINHO D’AMOR EM PROMOÇÃO – O,40

E Cuca sorriu e disse-lhe:

-Quem saúde tem e amor não quer, despreza o que mais lhe convém…

E na casa de Antónia, envolta em solidão, mau humor e ingratidão, nem a Cuca conseguiu que o dinheiro tornasse a tilintar.

Jorge C. Chora

   6/4/2020

sábado, 4 de abril de 2020

QUEM SABE DO ANTÓNIO TRAVESSO?


                                          
Os caixões do armazém da funerária eram depositados ao ar livre e ao sol, por três motivos: o primeiro, para que não ganhassem mofo; o segundo, para que a madeira que eventualmente ainda estivesse verde, secasse; o terceiro, para servirem de mostruário aos eventuais clientes.
Não contava a funerária, com um quarto aproveitamento, por parte do António, um jovem e travesso aldeão: dormia, todos os dias, a sesta num deles, aproveitando a ausência dos funcionários à hora do almoço.
Um dia, António viu Aurora, uma velha hortelã, que lhe fazia a vida negra, quando o apanhava a surripiar na sua horta, a aproximar-se do seu local da sesta. Colocou a tampa do seu féretro quase a tapá-lo e quando a senhora por ele passava, levantou a tampa e em voz cavernosa, chamou-a:

-D. Aurora, chegou a sua hora, deite-se aqui…

D. Aurora, desmaiou, como um passarinho fulminado…
A cena foi presenciada, por mero acaso, pelo encarregado do armazém e três funcionários, que tinham regressado mais cedo ao trabalho para vir buscar uma encomenda. Apressaram o passo, fecharam a tampa do caixão onde estava o brincalhão, exclamando, bem alto:

-Já estamos atrasados! Este defunto já devia estar no crematório!

Só trinta passos depois levantaram a tampa. Um cheiro nauseabundo, empestou o ar. O António, num salto de corsa, todo borrado, gritava enquanto fugia a sete pés:

-Ai minha mãezinha …ai minha mãezinha…

Ainda hoje ninguém sabe do paradeiro do António Travesso.
A D. Aurora passou a ir à missa todos os dias, para agradecer a Deus não a ter levado desta para melhor.
A agência, essa, nunca conseguiu despachar o caixão, tal o cheiro com que ficou, embora todos os anos o coloque em saldo.

Jorge C. Chora 

4/4/2020


sexta-feira, 3 de abril de 2020

À VIDA


Mesmo que a vida
nada te tenha dado,
no futuro algo te dará:
oferecer-te-á, quiçá,
aquilo que aos outros dás, deste e darás:
um sorriso e boa disposição.
Se com este dom foste agraciado,
à vida tens de agradecer,
o invejável condão,
de a todos poderes oferecer,
um sorriso e boa disposição.

Jorge C. Chora
3/4/2020

quarta-feira, 1 de abril de 2020

LOUVOR AO MAU TEMPO



 Chovam cobras e lagartos,
venham chuvas copiosas,
de trovões acompanhadas
e não faltem, as queridas
faíscas a iluminar os dias!
Assim, com verdadeira alegria, diremos:
Que bom é podermos estar em casa!
Estranha época esta,
de louvor aos negros dias
e já agora, sem tempo a perder,
vamos às varandas e peçamos:
envia-nos Senhor, uma chuvada daquelas
que, só Tu sabes, e por favor,
se não for pedir muito,
afoga o estupor do Covid.

JORGE C. CHORA
1/4/2020