sexta-feira, 9 de julho de 2021

POIS É !

Querer pão

não é crime,

sem o ganhar,

já pode ser.

Sem o ter

e a trabalhar,

é duplo crime

e não pode acontecer,

pois sem comer

ninguém trabalha

e quem trabalha quer comer.

Se não for assim,

como hão de comer,

os que comem

sem merecer?


Jorge C. Chora

9/07/2021



quarta-feira, 7 de julho de 2021

AMAR AO LUAR


Por onde andas ó luar?

Quero meu amor mirar,

os seus seios admirar,

acariciá-los com o meu olhar.


A sua silhueta quero ver,

recortada pelo luar,

abraçada pelo anoitecer

para melhor a amar.


Deixa-a, amiga lua,

sentir o meu olhar,

render-se ao meu desejo,

e seu pudor resguardar.


Jorge C. Chora

7/07/2021








domingo, 4 de julho de 2021

A SOCIEDADE

Eram três os sócios dedicados ao negócio da venda ambulante de jogos. O primeiro conseguia ver, mas mal andava; o segundo andava, mas mal via, e o terceiro andava depressa, mas ouvia mal. Juntos vendiam bilhetes de lotaria como pães quentes.

Num relance, ao longe, o primeiro identificava os interessados e gritava-lhes:

-Vamos já aí…

O segundo, passados uns breves minutos, para não deixar arrefecer a promessa, anunciava:

-Estamos a chegar…

E o terceiro, o ligeiro do grupo, ao chegar mais rápido do que os sócios assenhoreava-se da atenção dos eventuais compradores:

-Aqui estamos… - e tagarelava, dando tempo a que ao amigos chegassem.

E o jogo ia-se vendendo, à mistura com a conversa fiada, anedotas já com barbas e risota assegurada.

O trio tinha a vida assegurada até que um dia, insatisfeitos com os proventos divididos por todos, decidiram desfazer a sociedade e venderem cada um por si.

O que via bem identificava os potenciais clientes mas era coxo, quando lá chegava, já os compradores se tinham ido embora ou se estavam a levantar e nada lhe compravam. O segundo o que mal via, ao abordar os eventuais clientes, perguntavam-lhe muitas vezes:

- Mas quem é que te chamou? Não vês que estamos também a vender o mesmo que tu?

Quanto ao terceiro, coitado, brincavam com ele amiúde:

- Onde vais com tanta pressa? Vai correr para outro lado.

E quando finalmente se reuniam, na esplanada onde costumavam vender, para discutirem a reativação da parceria, arrepiaram-se ao ouvir uma voz que anunciava:

- Vamos já aí...

- Estamos a chegar… -disse uma segunda.

- Aqui estamos - referiu um magricela, junto deles, com uma grande quantidade de bilhetes de lotaria na mão.

E quando o escanzelado se preparava para contar as anedotas, o grupo berrou:

- Fora daqui!


Jorge C. Chora

4/07/2021






quinta-feira, 1 de julho de 2021

A ADOLESCENTE TRINTONA

 

Um dia destes, vi uma mota de grande cilindrada, com duas rodas dianteiras. Com três rodas, só conhecia este tipo de veículos em tamanho pequeno ou melhor dizendo, de pequena cilindrada, pois como se depreende, pouco sei sobre motas.

Parei a apreciá-la e dei comigo a pensar que o seu preço deveria, talvez, ser bem mais dispendioso do que as normais de duas rodas.

Anichada na mota estava uma jovem adolescente, com o capacete ao lado. Resolvi perguntar-lhe se a minha suposição em relação ao preço estaria correta, pois sei que a juventude é perita neste tipo

de transporte e pouco ou nada lhes escapa.

Sorriu e esclareceu-me de um modo sucinto, mostrando-me o seu detalhado conhecimento sobre o assunto.

Despedi-me e desejei-lhe uma espera breve pelo pai, pois à porta das finanças, sem quase ninguém

na repartição, deveria despachar-se depressa e livrar-se do calor que fazia.

Ela sorriu, bem humorada e corrigiu:

- Estou à espera do meu marido…

Olheia-a, indeciso, tentando perceber se a miúda brincava.

Ela percebeu a minha dúvida e resolveu esclarecer-me, dando uma pequena gargalhada:

- Olhe que eu tenho trinta anos…

Voltei a observá-la e achei, sem margem para dúvidas, que a gaiata acordara bem disposta e com vontade de brincar, mas enganei-me redondamente:

- Não tenho culpa de ter trinta anos…

Aí achei que o marido tinha como companhia uma eterna adolescente. Imaginei-o daí a uns anos, já velho, abraçado a uma mulher ainda menina e todos a pensarem:


-Está mesmo gágá! Este não se enxerga! Coitada da miúda...

Jorge C. Chora

1/ 07/2021


terça-feira, 29 de junho de 2021

A SEM-VERGONHA


Madalena era tímida ou melhor, muito tímida. Vestia-se de uma forma pouco ou nada apelativa, trajando vestidos largos, ocultando as suas formas femininas. Nunca tinha tido um namorado, por nunca ter conseguido manifestar o seu interesse por quem gostava. Envergonhava-se só de pensar nisso.

O tempo foi passando e o seu relógio biológico dando sinais cada vez mais intensos. Um dia apaixonou-se por um colega recém-chegado. Foram várias as colegas a quem João despertou o interesse.

Certo dia, Madalena escutou, por mero acaso, que a Filomena, uma sabidona, combinava com a sua amiga Eduarda, a única que conhecia o recém-chegado, levá-lo à loja de vestuário sob o pretexto de aquele lhe dar uma opinião. Filomena estaria num gabinete de provas e chamaria pela Eduarda e deixar-se-ia ver em trajes menores, atraindo a atenção do João.

Madalena decidiu que chegara o tempo de deixar-se de vergonhas ou ficaria para tia.

No gabinete de provas da loja, com um vestido previamente escolhido, mal ouviu a voz de Eduarda

chamou-a em voz alta:

- És tu Eduarda? Faz me um favor, dá-me a tua opinião!

E abriu a cortina, deixando a sua total e esplendorosa nudez à vista de ambos.

Boquiabertos perante a visão, viram Madalena pedir-lhes desculpa, abrir os braços e mostrar-se penalizada perante a situação, tornando a tapar-se parcialmente com a cortina, deixando os divinos seios só metade cobertos.

E foi nesta altura que se ouviu lá longe, a voz de Filomena chamando Eduarda:

- Dá-me uma ajuda…

E ela foi dar-lha mas sem João que, nunca mais deixou Madalena sozinha. Não era todos os dias que se podia estar com uma deusa!


Jorge C. Chora

29/06/2021

sábado, 26 de junho de 2021

SONHOS E DESEJOS

Os desejos são sonhos

pueris , de namorar

com aquela diva

tão bonita como a Marylin.

Já os sonhos, são desejos

de como cativá-la,

com um simples olhar,

tal como ela conseguia,

com um simples pestanejar,

um olá e um sorriso.

Jorge C. Chora

26/06/22021


quarta-feira, 23 de junho de 2021

O TRAPACEIRO


Era useiro e vezeiro em contrair e não pagar os empréstimos. Muito aflito com a falta de pagamento

por parte do trapaceiro, um velho de coração mole, arriscava-se a ficar sem água nem luz em pleno inverno, pois tinha emprestado o dinheiro a quem dele precisava.

Foi o aposentado ter com o devedor e recordou-lhe que lhe dera o dinheiro porque ele lhe prometera devolver-lho no fim da semana.

Não só não lhe pagou o que devia, como ainda teve a desfaçatez de o gozar:

- Quer que eu lhe devolva este fim de semana o dinheiro da água e da luz? Quem não tem dinheiro não tem vícios!

Não queria acreditar no que ouvira. Todos os conhecidos o tinham advertido do que ia acontecer ao emprestar dinheiro ao trapaceiro.

Triste com o que se estava a passar, o velho crente dava voltas à cabeça, para conseguir resolver o problema, que ele próprio tinha criado com a sua boa fé.

Encontrou por acaso um antigo vizinho a quem ajudara quando era um jovem problemático, com um currículo de alto lá com ele. Aníbal assim se chamava o jovem adulto, estranhou a tristeza do seu velho protetor

Inteirado dos motivos do amigo, procurou saber pormenores do aldrabão que o estava a entalar.

Após uma breve conversa, disse-lhe:

-O meu amigo não se preocupe. Amanhã mesmo, o mais tardar depois de amanhã, terá o seu dinheiro de volta.

- Agradeço-te Aníbal mas não quero que te preocupes comigo. Hei de resolver o assunto…

- Não se preocupe, não vou dar-lhe nenhuma sova, embora ele a mereça!


Nesse mesmo dia surgiu à porta do malandro, uma grande carrinha funerária. No vidro da frente existia um cartaz que dizia, em letras garrafais:


MESMO QUEM NÃO PAGA, TEM DIREITO

À ÚLTIMA VIAGEM NÃO É?


Ficou impressionado o trapaceiro, ao saber que o homem da funerária tinha perguntado por si,

referindo que as despesas das exéquias já estavam pagas por alguém que não sabia quem era.

No mesmo dia, os empréstimos foram pagos, com o respetivo pedido de desculpas pelo comportamento tido.

Ainda hoje o velho amigo julga que o trapaceiro se arrependeu do seu comportamento e se ele voltasse a pedir-lhe dinheiro emprestado, o faria com todo o gosto.

Aníbal nunca disse o que tinha realmente preparado, deixando que quem tanto o aturara, continuasse a acreditar na bondade do mundo!


Jorge C. Chora

23/06/ 2021