Era useiro e vezeiro em contrair e não pagar os empréstimos. Muito
aflito com a falta de pagamento
por parte do trapaceiro, um velho de coração mole, arriscava-se a
ficar sem água nem luz em pleno inverno, pois tinha emprestado o
dinheiro a quem dele precisava.
Foi o aposentado ter com o devedor e recordou-lhe que lhe dera o
dinheiro porque ele lhe prometera devolver-lho no fim da semana.
Não só não lhe pagou o que devia, como ainda teve a desfaçatez
de o gozar:
- Quer que eu lhe devolva este fim de semana o dinheiro da água e
da luz? Quem não tem dinheiro não tem vícios!
Não queria acreditar no que ouvira. Todos os conhecidos o tinham
advertido do que ia acontecer ao emprestar dinheiro ao trapaceiro.
Triste com o que se estava a passar, o velho crente dava voltas à
cabeça, para conseguir resolver o problema, que ele próprio tinha
criado com a sua boa fé.
Encontrou por acaso um antigo vizinho a quem ajudara quando era um
jovem problemático, com um currículo de alto lá com ele. Aníbal
assim se chamava o jovem adulto, estranhou a tristeza do seu velho
protetor
Inteirado dos motivos do amigo, procurou saber pormenores do aldrabão
que o estava a entalar.
Após uma breve conversa, disse-lhe:
-O meu amigo não se preocupe. Amanhã mesmo, o mais tardar depois de
amanhã, terá o seu dinheiro de volta.
- Agradeço-te Aníbal mas não quero que te preocupes comigo. Hei de
resolver o assunto…
- Não se preocupe, não vou dar-lhe nenhuma sova, embora ele a
mereça!
Nesse mesmo dia surgiu à porta do malandro, uma grande carrinha
funerária. No vidro da frente existia um cartaz que dizia, em letras
garrafais:
MESMO QUEM NÃO PAGA, TEM DIREITO
À ÚLTIMA VIAGEM NÃO É?
Ficou impressionado o trapaceiro, ao saber que o homem da funerária
tinha perguntado por si,
referindo que as despesas das exéquias já estavam pagas por alguém
que não sabia quem era.
No mesmo dia, os empréstimos foram pagos, com o respetivo pedido de
desculpas pelo comportamento tido.
Ainda hoje o velho amigo julga que o trapaceiro se arrependeu do seu
comportamento e se ele voltasse a pedir-lhe dinheiro emprestado, o
faria com todo o gosto.
Aníbal nunca disse o que tinha realmente preparado, deixando que
quem tanto o aturara, continuasse a acreditar na bondade do mundo!
Jorge C. Chora
23/06/ 2021