domingo, 9 de janeiro de 2022

LUA-SOL

 Não sou

nem sol nem lua,

ao contrário de ti,

meu amor,

à noite lua

e sol de dia,

uma Lua-Sol

no dia a dia.

Em certas ocasiões

invertes a situação,

brilhas à noite como o sol

e seduzes de dia como a lua.

 

     Jorge C. Chora

       9/01/2022

 

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

A CANETA AMUADA


A minha caneta anda tão amuada que há muito se escondeu. Não sei bem o que se passou, mas acho que tenho uma ideia.

Foi uma trabalhadora incansável: trabalhava de manhã, à tarde e à noite.

Escrevia a preto, pois recusava a tinta vermelha por achá-la penalizante. Já bastava assinalar os erros, ter de colocar os dedos na ferida para depois serem trabalhados e superados, sendo desnecessário agigantá-los a tinta vermelha. Escrevia também relatórios, avaliações, mensagens, recados e histórias.

E de repente, com a minha aposentadoria, passou unicamente a escrever crónicas, pequenas histórias e poesia. A intensidade de trabalho diminuiu, mas não desapareceu, embora a caneta se tivesse ressentido com a redução das tarefas. Com o tempo viu-se um tanto ou quanto marginalizada pelo computador. O inimigo foi ficando cada vez mais forte e ela, coitada, a ruborizar-se, a enfurecer-se, a pensar escapulir. Aguentou as ofensas até onde pode, exatamente até à maldita pandemia. Era usada fora de casa, nomeadamente nos cafés e com a epidemia, as idas a esses espaços reduziram-se ao mínimo. Sentiu-se mal, bastante mal, por deixar quase de ser utilizada. Um dia, sem eu perceber, resolveu alforriar-se sem que eu lhe tivesse passado a respetiva carta.

São muitos os dias em que me lembro dela, embora o computador, que a despreza, me segrede amiúde:

- Deixa-a em paz! Ela tem direito à reforma!

Estou em crer que ela se tenha cansado de semelhante protagonismo e irreverência, e se tenha escondido. Já me fartei de chamá-la, mas até hoje, ainda não se dignou a responder-me. Sinto de novo a sua falta, pois com abertura dos cafés, necessito dela para escrever nos guardanapos e tenho de o fazer com uma companheira sua, mas não é a mesma coisa.

Resta-me a saudade de uma velha companheira que acabou por me ser infiel!

Jorge C. Chora

5/o1/2022

sábado, 1 de janeiro de 2022

A MEIA SOLTEIRA


Ia lavar as meias,

o vento soprou,

uma meia suja voou,

a outra, sem par, ficou solteira,

só, sem eira nem beira.

Quem a achou,

se a não lavou,

e nunca a cheirou,

quando o fizer,

ou gosta de chulé

ou dá-lhe um pontapé,

e ela deixa de ser solteira,

volta a ter par, é lavada

e torna a ser calçada.

 

Jorge C. Chora

1/1/2022

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

COVERSAS CELESTIAIS

Júlio sentava-se à soleira da porta da traseira de sua casa e ficava a contemplar a sua horta.  O tempo estava seco e ele perscrutava o céu em busca de sinais de chuva. As alfaces bem precisavam dela, assim como os pepinos e os pimentos.

-Um pouco de água vinha mesmo a calhar… - desabafou em voz alta.

O vizinho do andar de cima, bem mais novo do que o Júlio, foi buscar um borrifador, estendeu o braço para fora da janela e pôs-se a borrifar a água bem em cima do Júlio.

- Obrigado, Senhor! Ouviste o meu pedido e vieste em meu socorro…agora pode ser que me envies uma samarra para o inverno, que bem preciso dela!

E o vizinho, de olhos arregalados, não se conteve e disse:

-Julgas que eu sou o Pai Natal?

E o velho contemplador da horta, como quem não quer a coisa e falasse para o além:

- Desceste de categoria Senhor?

- Como assim? – perguntou irritado o homem dos borrifos.

-Há bocado falava com Deus e agora passaste a Pai Natal?

-Raios partam o velho que julgava estar a falar com o Senhor…  -abespinhou-se o aguadeiro improvisado

Diz-lhe que sim, diz-lhe que sim, pensou Júlio para os seus botões, acabando por lhe dizer:

- Já que não me ofereces nada, ofereço-te eu umas barbas falsas de Pai Natal.

 

Jorge C. Chora

29/12/2021

domingo, 26 de dezembro de 2021

A ALDEIA DO EMAGRECIMENTO GARANTIDO


No trajeto entre aquela aldeia e o mar surge sempre, de supetão, um enorme cabrão. É cabrão por ser um bode grande, mas este é duas vezes cabrão pois comporta-se no sentido que lhe dão, de verdadeiro cabrão.

Não há quem não tema e não trema ao vê-lo investir, saído do sopé da montanha, como um aterrador monstro mítico.

Muitos foram e são os sustos de quem levou marradas por não terem conseguido fugir a tempo, julgando que a investida não lhes era destinada, mas para outros mais feios do que eles.

Os aldeãos, após muito refletirem sobre o destino a dar ao animal, resolveram, de modo sábio, aproveitar os ímpetos maléficos do cabrão.

Aos inimigos de algum aldeão, levam-no a passear para aquele trajeto e para o respetivo castigo: umas boas e belas marradas ao indesejável.

Mas o aproveitamento não se ficou por aqui. Decidiram, por unanimidade,

que ele deveria dar rendimento à aldeia. Mas como fazer?

Levantou-se o mais anafado dos habitantes e disse:

-Lembram-se de quantos quilos perdi quando tive o mau encontro com esse cabrão? Da corrida de 5 quilómetros até ao mar? Dos 1oo metros que tive de nadar com o estupor do bode à minha espera na praia?

Fez-se luz. A aldeia tornou-se numa estância de emagrecimento: todos os dias levavam o(os) candidato(os), ao fatídico encontro com o bode. Para não acontecer nada de mal eram acompanhados por um jipe, no caso de não conseguirem correr mais do que o cabrão!

À entrada da aldeia, passou a figurar um grande cartaz:

Emagrecimento garantido em tempo recorde

Se tiver dificuldade em emagrecer, já sabe: uma ida a esta aldeia e já está!

 

Jorge C. Chora

26/12/2021

sábado, 25 de dezembro de 2021

ESCREVER É RESPIRAR


Escrever por prazer,

e oferecer

a quem quiser ler,

momentos de lazer,

sem a ninguém obrigar

a pagar seja o que for,

a opinar sem querer,

ou a apreciar quando se detesta,

é uma liberdade sem preço.

Escrever é respirar,

um sentir difícil de ser asfixiado,

um oferecer continuado,

quer seja ou não pago.

 

      Jorge C. Chora

       25/12/2021

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

O PESADELO DE MARIA JOSÉ


Maria José

santa não é,

demónio também não,

mas anda furiosa

e tem pesadelos

com os maus-tratos

de alguns colegas.

Tem desejos inconfessáveis

de lhes enfiar um chouriço

pelo sim senhor.

Um amigo desaconselhou-a:

- Estragas um chouriço

e eles ainda julgam ser uma

prenda de Natal!

Recomendo-te, no mínimo,

um abacaxi!

E Maria José,

não é demónio

mas santa também não é,

pediu para sair mais cedo,

foi à mercearia e escolheu

alguns abacaxis:

- Quero os três maiores por favor!

       Jorge C. Chora

             23/12/2021