Não sou
nem sol nem lua,
ao contrário
de ti,
meu amor,
à noite lua
e sol de dia,
uma Lua-Sol
no dia a
dia.
Em certas
ocasiões
invertes a
situação,
brilhas à
noite como o sol
e seduzes de
dia como a lua.
Jorge C. Chora
9/01/2022
Não sou
nem sol nem lua,
ao contrário
de ti,
meu amor,
à noite lua
e sol de dia,
uma Lua-Sol
no dia a
dia.
Em certas
ocasiões
invertes a
situação,
brilhas à
noite como o sol
e seduzes de
dia como a lua.
Jorge C. Chora
9/01/2022
A minha
caneta anda tão amuada que há muito se escondeu. Não sei bem o que se passou,
mas acho que tenho uma ideia.
Foi uma
trabalhadora incansável: trabalhava de manhã, à tarde e à noite.
Escrevia a
preto, pois recusava a tinta vermelha por achá-la penalizante. Já bastava assinalar
os erros, ter de colocar os dedos na ferida para depois serem trabalhados e
superados, sendo desnecessário agigantá-los a tinta vermelha. Escrevia também
relatórios, avaliações, mensagens, recados e histórias.
E de repente,
com a minha aposentadoria, passou unicamente a escrever crónicas, pequenas
histórias e poesia. A intensidade de trabalho diminuiu, mas não desapareceu,
embora a caneta se tivesse ressentido com a redução das tarefas. Com o tempo
viu-se um tanto ou quanto marginalizada pelo computador. O inimigo foi ficando
cada vez mais forte e ela, coitada, a ruborizar-se, a enfurecer-se, a pensar
escapulir. Aguentou as ofensas até onde pode, exatamente até à maldita
pandemia. Era usada fora de casa, nomeadamente nos cafés e com a epidemia, as
idas a esses espaços reduziram-se ao mínimo. Sentiu-se mal, bastante mal, por
deixar quase de ser utilizada. Um dia, sem eu perceber, resolveu alforriar-se
sem que eu lhe tivesse passado a respetiva carta.
São muitos
os dias em que me lembro dela, embora o computador, que a despreza, me segrede
amiúde:
- Deixa-a em
paz! Ela tem direito à reforma!
Estou em
crer que ela se tenha cansado de semelhante protagonismo e irreverência, e se
tenha escondido. Já me fartei de chamá-la, mas até hoje, ainda não se dignou a
responder-me. Sinto de novo a sua falta, pois com abertura dos cafés, necessito
dela para escrever nos guardanapos e tenho de o fazer com uma companheira sua,
mas não é a mesma coisa.
Resta-me a
saudade de uma velha companheira que acabou por me ser infiel!
Jorge C.
Chora
5/o1/2022
Ia lavar as
meias,
o vento
soprou,
uma meia
suja voou,
a outra, sem
par, ficou solteira,
só, sem eira
nem beira.
Quem a achou,
se a não
lavou,
e nunca a
cheirou,
quando o
fizer,
ou gosta de
chulé
ou dá-lhe um
pontapé,
e ela deixa
de ser solteira,
volta a ter
par, é lavada
e torna a
ser calçada.
Jorge C.
Chora
1/1/2022
Júlio sentava-se à soleira da porta da traseira de sua casa e ficava a contemplar a sua horta. O tempo estava seco e ele perscrutava o céu em busca de sinais de chuva. As alfaces bem precisavam dela, assim como os pepinos e os pimentos.
-Um pouco de
água vinha mesmo a calhar… - desabafou em voz alta.
O vizinho do
andar de cima, bem mais novo do que o Júlio, foi buscar um borrifador, estendeu
o braço para fora da janela e pôs-se a borrifar a água bem em cima do Júlio.
- Obrigado,
Senhor! Ouviste o meu pedido e vieste em meu socorro…agora pode ser que me
envies uma samarra para o inverno, que bem preciso dela!
E o vizinho,
de olhos arregalados, não se conteve e disse:
-Julgas que
eu sou o Pai Natal?
E o velho
contemplador da horta, como quem não quer a coisa e falasse para o além:
- Desceste
de categoria Senhor?
- Como
assim? – perguntou irritado o homem dos borrifos.
-Há bocado
falava com Deus e agora passaste a Pai Natal?
-Raios
partam o velho que julgava estar a falar com o Senhor… -abespinhou-se o aguadeiro improvisado
Diz-lhe que
sim, diz-lhe que sim, pensou Júlio para os seus botões, acabando por lhe dizer:
- Já que não
me ofereces nada, ofereço-te eu umas barbas falsas de Pai Natal.
Jorge C.
Chora
29/12/2021
No trajeto
entre aquela aldeia e o mar surge sempre, de supetão, um enorme cabrão. É
cabrão por ser um bode grande, mas este é duas vezes cabrão pois comporta-se no
sentido que lhe dão, de verdadeiro cabrão.
Não há quem
não tema e não trema ao vê-lo investir, saído do sopé da montanha, como um
aterrador monstro mítico.
Muitos foram
e são os sustos de quem levou marradas por não terem conseguido fugir a tempo,
julgando que a investida não lhes era destinada, mas para outros mais feios do
que eles.
Os aldeãos,
após muito refletirem sobre o destino a dar ao animal, resolveram, de modo
sábio, aproveitar os ímpetos maléficos do cabrão.
Aos inimigos
de algum aldeão, levam-no a passear para aquele trajeto e para o respetivo
castigo: umas boas e belas marradas ao indesejável.
Mas o
aproveitamento não se ficou por aqui. Decidiram, por unanimidade,
que ele
deveria dar rendimento à aldeia. Mas como fazer?
Levantou-se
o mais anafado dos habitantes e disse:
-Lembram-se
de quantos quilos perdi quando tive o mau encontro com esse cabrão? Da corrida
de 5 quilómetros até ao mar? Dos 1oo metros que tive de nadar com o estupor do
bode à minha espera na praia?
Fez-se luz.
A aldeia tornou-se numa estância de emagrecimento: todos os dias levavam o(os)
candidato(os), ao fatídico encontro com o bode. Para não acontecer nada de mal
eram acompanhados por um jipe, no caso de não conseguirem correr mais do que o
cabrão!
À entrada da
aldeia, passou a figurar um grande cartaz:
Emagrecimento
garantido em tempo recorde
Se tiver
dificuldade em emagrecer, já sabe: uma ida a esta aldeia e já está!
Jorge C.
Chora
26/12/2021
Escrever por
prazer,
e oferecer
a quem
quiser ler,
momentos de
lazer,
sem a
ninguém obrigar
a pagar seja
o que for,
a opinar sem
querer,
ou a
apreciar quando se detesta,
é uma
liberdade sem preço.
Escrever é
respirar,
um sentir
difícil de ser asfixiado,
um oferecer
continuado,
quer seja ou
não pago.
Jorge
C. Chora
25/12/2021
Maria José
santa não é,
demónio
também não,
mas anda
furiosa
e tem
pesadelos
com os
maus-tratos
de alguns
colegas.
Tem desejos
inconfessáveis
de lhes
enfiar um chouriço
pelo sim
senhor.
Um amigo
desaconselhou-a:
- Estragas
um chouriço
e eles ainda
julgam ser uma
prenda de
Natal!
Recomendo-te,
no mínimo,
um abacaxi!
E Maria
José,
não é
demónio
mas santa
também não é,
pediu para
sair mais cedo,
foi à
mercearia e escolheu
alguns
abacaxis:
- Quero os três
maiores por favor!
Jorge C. Chora
23/12/2021