quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

FOI-SE O TEMPO...

Foi-se o tempo das pressas,

do agora devagar e depois depressa,

dos ais sentidos e repetidos,

dos amores incontidos,

das explosões gritadas

e das prazerosas sensações

da doce morte.

Foi-se o tempo das pressas,

tudo passou, exceto as saudades

do tempo dos ais sentidos e repetidos.

Jorge C. Chora

20/01/2022

domingo, 16 de janeiro de 2022

CHUCHA

 

 A Chucha já foi jovem

e por sinal bem bonita,

hoje não tem dentes

e brincam com ela:

Chucha Cachucha

Cachucha chucha.

Ela não leva a mal

e diz a quem a manda chuchar:

Agora chucho eu

logo chucharão vocês,

esperem pela vossa vez!

se conseguirem a velhos chegar,

sem dentes se calhar,

verão quão bom é poder chuchar!

 

       Jorge C. Chora

       16/01/2022

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

A CASA ALENTEJANA NA AMADORA

 

Quem da casa alentejana sai,

a ermida da Falagueira, em frente,

parece-lhe uma autêntica catedral:

o padre. um cardeal,

as aberturas, janelas papais,

onde o Papa dá as bênçãos 

aos fiéis e às multidões,

na praça de S, Pedro reunidas.

Quem da Casa Alentejana sai,

 tem garantida, uma viagem a Roma,

sem os incómodos dos aeroportos,

nem o dispêndio monetário

de uma viagem ao Vaticano

e com a garantia de ver o Papa!

E ao mesmo tempo, ter provado

 os melhores torresmos,

 acompanhados por uns vinhos à maneira.

 

Jorge C. Chora

13/01/2022

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

A AMADORA DE AGORA E A LISBOA D'OUTRORA

 

Tenho saudades de ir a Lisboa,

andar a pé, parar aqui e acolá,

beber um branco ou um tinto,

umas iscas no pão ou uma bifana;

passear à beira-rio, ver quem passa

e falar, com quem se desconhece

e se fica a conhecer ou nunca mais se vê,

bastando para isso, ser simpático e falador.

Pena é ser difícil realizar este desejo,

tão simples nos dias de ontem e tão

difícil nos de hoje, onde quase se evaporaram

as tascas, os alfarrabistas, a vontade de falar,

os espetáculos de rua, os pregões d’outrora,

a alegria e a bazófia comunicativa dos lisboetas!

Fico-me pela Amadora, onde ainda é possível

falar com quem passa, beber um copo e petiscar

em dezenas de casas abertas, num clima de liberdade,

com conhecidos e desconhecidos e ainda se podem fazer amigos.

Na Amadora, não passa o Tejo, o que faz toda a diferença,

mas há a Ribeira da Falagueira, onde nos podemos deliciar

com o verde das margens e a flora dos parques e em cada canto

da cidade, há artistas que nela habitam, mas que poucos os conhecem!

Ah! Quando na Amadora houver, galerias, alfarrabistas,

música a rodos, publicações e editoras locais, festivais de gastronomia, o que será de Lisboa? Por agora só há muita gente boa na nossa Amadora!

Jorge C. Chora

12/01/2022

domingo, 9 de janeiro de 2022

LUA-SOL

 Não sou

nem sol nem lua,

ao contrário de ti,

meu amor,

à noite lua

e sol de dia,

uma Lua-Sol

no dia a dia.

Em certas ocasiões

invertes a situação,

brilhas à noite como o sol

e seduzes de dia como a lua.

 

     Jorge C. Chora

       9/01/2022

 

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

A CANETA AMUADA


A minha caneta anda tão amuada que há muito se escondeu. Não sei bem o que se passou, mas acho que tenho uma ideia.

Foi uma trabalhadora incansável: trabalhava de manhã, à tarde e à noite.

Escrevia a preto, pois recusava a tinta vermelha por achá-la penalizante. Já bastava assinalar os erros, ter de colocar os dedos na ferida para depois serem trabalhados e superados, sendo desnecessário agigantá-los a tinta vermelha. Escrevia também relatórios, avaliações, mensagens, recados e histórias.

E de repente, com a minha aposentadoria, passou unicamente a escrever crónicas, pequenas histórias e poesia. A intensidade de trabalho diminuiu, mas não desapareceu, embora a caneta se tivesse ressentido com a redução das tarefas. Com o tempo viu-se um tanto ou quanto marginalizada pelo computador. O inimigo foi ficando cada vez mais forte e ela, coitada, a ruborizar-se, a enfurecer-se, a pensar escapulir. Aguentou as ofensas até onde pode, exatamente até à maldita pandemia. Era usada fora de casa, nomeadamente nos cafés e com a epidemia, as idas a esses espaços reduziram-se ao mínimo. Sentiu-se mal, bastante mal, por deixar quase de ser utilizada. Um dia, sem eu perceber, resolveu alforriar-se sem que eu lhe tivesse passado a respetiva carta.

São muitos os dias em que me lembro dela, embora o computador, que a despreza, me segrede amiúde:

- Deixa-a em paz! Ela tem direito à reforma!

Estou em crer que ela se tenha cansado de semelhante protagonismo e irreverência, e se tenha escondido. Já me fartei de chamá-la, mas até hoje, ainda não se dignou a responder-me. Sinto de novo a sua falta, pois com abertura dos cafés, necessito dela para escrever nos guardanapos e tenho de o fazer com uma companheira sua, mas não é a mesma coisa.

Resta-me a saudade de uma velha companheira que acabou por me ser infiel!

Jorge C. Chora

5/o1/2022

sábado, 1 de janeiro de 2022

A MEIA SOLTEIRA


Ia lavar as meias,

o vento soprou,

uma meia suja voou,

a outra, sem par, ficou solteira,

só, sem eira nem beira.

Quem a achou,

se a não lavou,

e nunca a cheirou,

quando o fizer,

ou gosta de chulé

ou dá-lhe um pontapé,

e ela deixa de ser solteira,

volta a ter par, é lavada

e torna a ser calçada.

 

Jorge C. Chora

1/1/2022