terça-feira, 11 de julho de 2023

O TEU OLHAR

 


O teu olhar é traiçoeiro,

mesmo que não queiras,

denuncia-te por inteiro,

o que sentes e o que desejas.

Abençoada seja tal traição,

poupa-me a uma confissão,

e também evita pedir-te perdão,

embora tenha sido algo cruel,

por não te ter colocado na mão,

um pedido, um beijo e um anel.

     JORGE C. CHORA

      11/7/2023

 

domingo, 9 de julho de 2023

UM PEDIDO EXTRORDINÁRIO


Creio querer-te,

sempre,

ao pé de mim.

Acreditas que te quero,

mas não crês,

no sempre

ao pé de ti.

- Como posso convencer-te?

-Pede a Deus, uma bolsa marsupial!


Jorge C. Chora

9/7/2023

sábado, 8 de julho de 2023

GOSTAR PODE SER

 

Gostar é, ou pode ser,

um amar pequeno:

é chama de uma vela,

de ventos resguardada,

cuidadosamente soprada,

que vai sendo acarinhada,

até a pira olímpica ser incendiada!

       Jorge C. Chora

      8/7/2023

sexta-feira, 7 de julho de 2023

UM AMOR INESPERADO

 

João pouco ou nunca sorria. Dizia sempre bom dia ou boa tarde e jamais boa noite, pois ninguém tinha memória de o ter visto à noite.

Ninguém sabia o que fazia, nem onde trabalhava. João era uma incógnita.

Também ninguém o vira fazer mal a alguém ou maltratar fosse quem fosse. Trazia sempre consigo uma viola, mas também ninguém o ouvira tocar.

Numa quarta-feira, Manuela chegou alvoroçada ao café, onde por vezes se realizavam espetáculos, com uma novidade:

- Querem saber a melhor? Vi o João esta manhã, a dar o seu lanche a um pedinte, ao pé da estação da C. P.

Ninguém comentou a situação.

Nessa mesma noite, houve um espetáculo. A meio apareceu João com a sua viola. Mal entrou, o concerto parou: duas cordas tinham-se partido e o artista não tinha como as substituir.

João subiu ao palco e emprestou-lhe a sua viola. O artista agradeceu e verificou que ela estava afinadíssima. O espetáculo continuou.

No fim, o artista convidou João a vir ao palco e a tocar algo do seu agrado.

Instado várias vezes a tocar, João acabou por ceder.

O que se ouviu foram temas desconhecidos, muito aplaudidos.

Madalena abria e fechava a boca. Ela era compositora e raramente ouvira temas tão bem cantados, tocados e compostos.

- De quem são essas canções?

- São minhas…

- Onde é que cantas?

- Só em casa, para minha mãe ouvir.

- Como assim?

- Ela só sossega quando as ouve. Ela sofre de demência...

Madalena deu a mão ao João, ajudou-o a descer do palco e perguntou-lhe:

- Posso acompanhar-te a casa?

- Claro que sim.

A meio do caminho ofereceu os seus lábios ao João, que os beijou com a delicadeza idêntica à das suas composições.

Passados alguns anos, ainda não regressou a sua casa e senta-se ao lado da sua sogra, a ouvir João a cantar, deixando-o acabar, para lhe oferecer os seus lábios.

Jorge C. Chora

7/7/2023

quarta-feira, 5 de julho de 2023

A FADISTA

 

A FADISTA

A minutos de entrar para cantar, Elsa, sem notar, rompeu as suas meias de seda pura bordada.

Conteve as lágrimas, há meses que não atuava e claro está, não recebia.

Tinha sido o namorado que as ofertara, antes de ter fugido com outra.

Agora, ficara sem nada, nem meias nem namorado.

Encheu-se de coragem e foi cantar. O que vale é que estava depilada,

mas a sua brancura imaculada, não se coadunava com o xaile e roupa clara.

Na primeira mesa sentava-se um homem grande, de bigode farfalhudo,

e ar de poucos amigos. À medida que cantava, o rosto do homem iluminava-se e via-se à légua que de tudo gostava: da cantora e do que ela cantava.

Elsa reparou no gigante e achou-o invulgar e simpático.

Quando acabou a atuação, ele convidou-a a vir para a sua mesa, beijou-lhe a mão e como havia um mar de gente, entre eles e a mesa, levou-a ao colo como se fosse uma pena e disse-lhe:

-De ao pé de mim já não sai.

Elsa achou-lhe graça e não é que nunca mais saiu!

Todas as noites que quis, cantou. O grandalhão era sócio da casa de fados

e antes de cada atuação, com a condição de nunca mais usar meias de seda bordada, beijava as alvas pernas e os pés à mulher que amava e com quem casara.

Jorge C. Chora

5/7/2023

domingo, 2 de julho de 2023

MULTIDÃO

 

Fujo da multidão,

pois um empurrão

pode dar confusão,

por vezes agressão.

Uma simples discussão,

seguida da acusação:

vê-se que és do F.C.P,

ou do Benfica…

pode dar chapada,

cabeça rachada,

uma caldeirada,

seguida de cacetada,

garrafada,

só terminada com a chegada

 e sérias bastonadas,

terminando tudo na esquadra,

com dezenas ou centenas

de patós, sem saber de nada,

menos os dois que começaram

o arraial de porrada!

Multidões? vão os senhores!

Jorge C. Chora

2/7/2023

sábado, 1 de julho de 2023

PARTE I E PARTE II


São partes de um só,

têm no pulso,

uma fita atada,

que a negro tem escrito,

na metade de cada lado:

Parte I; Parte II,

se nos acharem separados,

Juntem-nos à outra metade.

 

Jorge C. Chora

   1/7/2023