Amílcar e
Joana são rolas -turcas. Quando ele a viu pela primeira vez ficou encantado e disse
para consigo, que era ela a eleita do seu coração, mas era preciso namorá-la e
foi o que ele fez.
Bem na sua
frente, curvou-se de forma repetida, enquanto aumentava o seu tamanho, abrindo
as suas penas e a sua cauda em leque e ao mesmo tempo emitia o seu canto de
modo insistente e repetidamente.
Cativada a
atenção de Joana, passaram a ser inseparáveis e a ajudarem-se mutuamente.
Estavam sempre juntos, repousando num fio elétrico, numa conversa amorosa, um
bocado ruidosa, pois Amílcar era um grande conversador e Joana deliciava-se, com
as conversas do seu namorado.
Quando ele
se calava a Joana aproveitava para lhe segredar o amor que também por ele
sentia.
Resolveram
formar uma família depois de perceberem que não passavam um sem o outro. Foi
preciso construírem o seu ninho, ou seja, a casa para morarem e acolherem os
seus futuros filhos.
Ambos se
empenharam na construção, recolhendo penas, fios de lã e linhas, com os quais
fizeram o ninho- casa no alto de um pinheiro.
Com as suas asas entrelaçadas, procuravam nas
redondezas, pequenos frutos, sementes e rebentos vegetais para se alimentarem.
Amílcar dava
de modo delicado os rebentos mais frescos à sua Joana e ela retribuía-lhe o
carinho, oferecendo-lhe sementes e alguns cereais.
Chegada a
altura de terem filhos, os pais dividiam as suas tarefas: o pai chocava os ovos
de dia e Joana tomava o lugar de Amílcar durante a noite.
Criados os
filhos, Amílcar e Joana retomaram os seus lugares costumeiros no fio elétrico e
as suas conversas barulhentas, sempre abraçados e retribuindo os beijinhos um
do outro.
A sua vida
corria às mil maravilhas, entre passeios, recolha de alimentos e abraços, onde
a ternura e o entendimento entre ambos motivavam uma certa inveja por parte de
alguns pássaros.
O verão
aproximava-se e os seus receios aumentavam, pois nessa época abria a caça e era
necessário tomar muitas cautelas e estar de sobreaviso. Logo que ouviam tiros,
voavam para o seu ninho o mais depressa que conseguiam.
Certo dia o
azar bateu-lhes à porta. Foram passear e saíram da zona urbanizada, para um
campo aberto. Entretidos na conversa, não se aperceberam da presença de um
caçador que pé ante pé se aproximou, sem eles darem por isso.
Joana ouviu
um tiro e viu cair Amílcar. Olhou para o homem que matara o seu mais-que-tudo e
apercebeu-se de que não conseguia viver sem o seu amado. Deixou-se estar imóvel,
em vez de levantar voo e procurar abrigo. Como poderia viver sem ele,
questionou-se, enquanto o caçador com toda a calma apontou a arma e lhe deu um
tiro. Caiu morta ao lado do seu Amílcar.
O caçador
pendurou-os no cinto, onde já pendiam outros casais como
o Amílcar e
a sua Joana.
Jorge C. Chora,
27/6/26
