terça-feira, 24 de setembro de 2019

À MINHA DEUSA



Deusa d’ouro feita,
se deusa não fosses,
quem mais poderia sê-lo,
senão tu,
senhora minha,
de pura alma,
d’ouro feita?

JORGE C. CHORA
24/9/19


domingo, 22 de setembro de 2019

A DONA E OS FÓSFOROS


A dona estremece,
perdeu os fósforos,
tem calafrios,
e ela sem lume
com frio fica.
Busca e rebusca,
mas quanto a fumegar,
nem pensar,
só quando os encontrar.
Ei-la a acalmar,
está a fumegar,
após insana refrega
encontrou os fósforos
na sua carteira,
idêntica a um baú,
semelhante ao
de todas as donas.
Sorri e atira-os
de novo para a confusão
e diz:
- Enquanto te procuro,
evito fumar!

Jorge C. Chora
    18/9/19

sábado, 14 de setembro de 2019

OS DONOS DO BALANÇÉ


Seis jovens surgiram no parque, transportando uma tábua.  Acercaram-se do balancé, encaixaram a tábua no aparelho. Sentaram-se, um em cada topo e deram início ao balancear, para cima e para baixo.

Os dois primeiros foram substituídos pelos dois seguintes e quando se fartaram, deram lugar ao par sobrante. Cansados do usufruto do aparelho, retiraram a tábua, colocaram-na debaixo do braço e, abandonaram o parque sob o olhar espantado dos que tinham formado fila para andar naquele aparelho e ficaram a ver navios.

Tantas vezes viu o velho António suceder o esquema, que à terceira semana, colocou, à porta do parque, uma tábua sua, que encaixava no balancé, com os seguintes dizeres:

        ALUGA-SE UMA TÁBUA DE BALANCÉ PARA ANDAR NESTE PARQUE. SÓ UM EURO.

No dia seguinte, os seis transportadores da tábua, colocaram outro anúncio. que rezava assim:

        A NOSSA TÁBUA PARA ANDAREM NO BANÇÉ. CUSTA SÓ 50 CÊNTIMOS.

Dois dias depois havia um só anúncio:

        O ALUGUER DA TÁBUA PARA ANDAREM NO BALANCÉ CUSTA SÓ UM EURO E CINQUENTA.

Ao fim do dia, os seis larápios originais passavam em casa do velho e sabido trapaceiro e recebiam um euro por cada aluguer, ficando ele com os restantes cinquenta cêntimos.

O negócio é tão lucrativo que António e os seus parceiros, estão a pensar em legalizá-lo no âmbito da complementaridade dos serviços públicos.

Jorge C. Chora
14/9/19

terça-feira, 10 de setembro de 2019

O CALOR DAS SUAS MÃOS




Os afagos
das suas mãos saídos,
não são grandes nem pequenos,
são bênçãos divinas,
prodigalizadas um ao outro,
do tamanho do amor,
por ambos sentido e merecido.

Jorge C. Chora
10/9/19

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

BEIJOS COM REMETENTE




Na palma da minha
mão
está o beijo
por ti enviado,
vou juntar o meu
ao teu,
soprá-lo
e esperar
pela retribuição.
Criarei
um vai e vem
de sopros e beijos
e chegará o dia de,
em vez de o soprar,
poder
dar-to na palma da tua mão.



Jorge C. Chora
       4/9/19

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

SINA DE EMIGRANTES



Regressar à terra
onde deles
saudades têm,
tantas quanto
eles sentem,
é sina de emigrantes,
de seres amados e amantes,
das gentes e das terras
onde deles saudades sentem,
tantas quantos eles têm.


Jorge C. Chora
   2/9/19


sábado, 31 de agosto de 2019

O COPO DO SAPATEIRO



Colocou duas meias solas e os segundos pareceram-lhe minutos e estes assemelharam-se a horas: o tempo demorava a passar. A última hora de trabalho estava a ser insuportável.
Imaginou os compinchas, abancados na taberna a dessedentarem-se. Em quantas rodadas já iriam?  Pelo menos quatro, talvez mais, calculou.

A sua agitação ia crescendo. Agora estariam a fazer uma pausa e a comer uns nacos de pão, com umas lascas de presunto. O sapateiro, sem querer, babou-se. Maldita hora que não passava!

Pegou no relógio com receio de que ele se tivesse avariado. Alarme falso. Trabalhava e ouvia-se bem, após o cessar das marteladas nas meias solas, o tique-taque vagaroso dos segundos.

Mal soou a hora de saída, levantou-se e, numa correria desenfreada, dirigiu-se ao armário perto da porta e foi buscar um grande copo.

Ao chegar à taberna, gritou logo à entrada:

-Em que rodada vão?

Apurado o número, ordenou ao compadre taberneiro:

-Enche-o de modo a recuperar o atraso que tenho.

Ao acabarem o convívio, o sapateiro pediu ao compadre, que lhe guardasse o copo recuperador e procedesse, de futuro, como tinha feito, de modo a que ele não perdesse as rodadas.

A partir deste histórico dia, nunca mais o sapateiro se preocupou com o ritmo das horas, minutos e segundos do seu vagaroso relógio.

Jorge C. Chora
31/8/19