Chegaram à velhice sem cheta. Em abono da verdade nunca a tiveram. Melhor dizendo, iam tendo mas por pouco tempo, pois derretiam-na em farras.
Com um cadastro recheado de malfeitorias, o tempo que passaram engavetados foi encarado por “Vou Tar” e” Cointreau” como uma espécie de retiro espiritual entre iguais, uma oportunidade para aprender novas patifarias.
“Vou Tar” e” Cointreau” eram alcunhas atribuídas pelas práticas de cada um. O primeiro nunca dissera” vou estar aqui ou acolá”, limitando-se a abreviar; o segundo, desde que provara, numa festa de casamento, onde fora sem ser convidado, um cálice de cointreau, nunca mais quisera outra bebida senão essa.
Ambos eram dados a infindáveis discussões sobre o que se devia fazer ao dinheiro dos outros:
- Agora que estamos em crise, todos os que têm dinheiro a prazo, devem levantá-lo e distribuí-lo equitativamente por quem, como nós, nada tem. Ao governo deve competir assegurar que esse dinheiro chegue aos nossos bolsos.
-Não está mal visto não… -Junto tostões há quarenta anos e agora tinha de vos sustentar -insurgiu-se o”Labuta”.
-Ainda ficas com a tua casa e aquelas territas na aldeia. Bem podes pagar mais uns impostos… -alvitraram os dois sanguessugas.
-Mais ainda? Se calhar também querem que volte a comprar o que é já meu e me custou tanto sacrifício… - revoltou-se.
-Não era má ideia! Era uma forma de partilhar … - concordaram entusiasmados, antecipando o prazer da posse do que não lhes pertencia.
-E se vocês fossem atrás das fortunas duvidosas ou dos que são mesmo muito ricos! - desabafou o “Labuta”.
-Julgas que somos parvos? Com esses nada conseguimos! Ainda éramos capazes de ficar sem o pouco que arranjámos à custa de papalvos como tu! -exclamaram, um tanto fartos da ingenuidade do aforrador.
“Labuta” calou-se. Não estava para se aborrecer ainda mais. Um berro enorme assustou--o:
-Então esse cointreau nunca mais vem?
-E ponho na conta de quem? – gritou o dono no interior do estabelecimento.
-Na do “Labuta” claro!- berraram “Vou Tar” e” Cointreau”.
Jorge C. Chora
quarta-feira, 14 de março de 2012
quarta-feira, 7 de março de 2012
A Praça dos amores
Na praça do” sou todo teu”,
cachos de beijos
subiram ao céu,
entre sussurros de
sou toda tua,
serás todo meu.
Nessa praça tiveram lugar,
os amores de Bela,
os aís de Catarina,
as promessas e os desejos de Isabel:
Sou toda tua,
serás todo meu.
Cachos de beijos
sobem ao céu,
entre sussurros
de amor, promessas
que se ouvem,
e se renovam:
Sou toda tua, sou todo teu.
Ainda é a praça do” sou todo teu”.
Jorge C. Chora
cachos de beijos
subiram ao céu,
entre sussurros de
sou toda tua,
serás todo meu.
Nessa praça tiveram lugar,
os amores de Bela,
os aís de Catarina,
as promessas e os desejos de Isabel:
Sou toda tua,
serás todo meu.
Cachos de beijos
sobem ao céu,
entre sussurros
de amor, promessas
que se ouvem,
e se renovam:
Sou toda tua, sou todo teu.
Ainda é a praça do” sou todo teu”.
Jorge C. Chora
domingo, 4 de março de 2012
A ranhosa
No meio da praça a menina estremecia. As lágrimas corriam-lhe por ambas as faces. Ao princípio ela ainda as tentou limpar mas depois desistiu. As pessoas pararam.
-O que te aconteceu Isabel?
E a menina redobrou as lágrimas e o choro. Uma aflição contagiante começou a apoderar-se dos que presenciavam o sofrimento da gaiata.
-O que tens Isabel? Diz-nos, por favor…
-Perdi o dinheiro que os meus pais me deram para o leite. Coloquei-o em cima da cadeira enquanto me assoava. Quando acabei já lá não estava! Eram dois euros. Agora não posso levar-lhes o leite e fiquei sem o dinheiro. A culpa é minha… como é que isto me aconteceu? Eles não vão confiar mais em mim!
E na praça, os avôs e as avós que viram confiscadas partes significativas das suas reformas, que percebiam perfeitamente a sensação de perda e de revolta,
exclamam comovidos:
-Ah como era bom que os grandes tivessem a responsabilidade das crianças!
Num canto da taberna, uma velha ébria retira os dois euros que escondera no bolso e ordena:
-Mais um copito de aguardente e isso depressa, que o dinheirinho não abunda …donde este veio não virá mais nenhum… - e vira-se para a criança que entretanto se aproximara e choramingava ao pé de si – desanda daqui ranhozita… o prejuízo duns é o lucro doutros…
Jorge C. chora
-O que te aconteceu Isabel?
E a menina redobrou as lágrimas e o choro. Uma aflição contagiante começou a apoderar-se dos que presenciavam o sofrimento da gaiata.
-O que tens Isabel? Diz-nos, por favor…
-Perdi o dinheiro que os meus pais me deram para o leite. Coloquei-o em cima da cadeira enquanto me assoava. Quando acabei já lá não estava! Eram dois euros. Agora não posso levar-lhes o leite e fiquei sem o dinheiro. A culpa é minha… como é que isto me aconteceu? Eles não vão confiar mais em mim!
E na praça, os avôs e as avós que viram confiscadas partes significativas das suas reformas, que percebiam perfeitamente a sensação de perda e de revolta,
exclamam comovidos:
-Ah como era bom que os grandes tivessem a responsabilidade das crianças!
Num canto da taberna, uma velha ébria retira os dois euros que escondera no bolso e ordena:
-Mais um copito de aguardente e isso depressa, que o dinheirinho não abunda …donde este veio não virá mais nenhum… - e vira-se para a criança que entretanto se aproximara e choramingava ao pé de si – desanda daqui ranhozita… o prejuízo duns é o lucro doutros…
Jorge C. chora
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
A máquina que adorava ser "mademoiselle"
Com maus modos abriu a carteira. Retirou algum dinheiro com uma violência fora de vulgar. Aproximou-se da máquina de tabaco e introduziu uma, duas, três moedas e à quarta, quando atingiu o preço do maço pretendido, carregou no respectivo botão. A máquina não deu qualquer sinal. Repetiu o gesto e nada. Furioso, gritou em direcção ao balcão:
-A máquina está ligada?
-Estar está… ela talvez não goste das moedas que está a utilizar…não serão, quiçá, as que ela está habituada… - respondeu-lhe o proprietário do café.
-Está a insinuar, por acaso, que o meu dinheiro é falso? – abespinhou-se o utente.
-Longe disso. É só um momento – e levantou-se de modo calmo e em duas grandes e vagarosas passadas, cobriu o espaço que o separava da máquina.
Abriu-a e mostrou ao senhor as moedas que este tinha metido: três moedas de euro e uma de um dólar.
- Ainda não está habituada a dólares…
O cliente rendeu-se à evidência:
-Mil perdões…
Abriu de novo a carteira e retirou outra moeda, confirmando que era de um euro. Dirigiu-se, à máquina e, num ápice, colocou as moedas de rajada e carregou no botão. Não houve qualquer reacção.
-E agora o que é que se passa?
-É que ela não está habituada à brusquidão… -referiu quase a medo, com receio de ferir a susceptibilidade do estranho cliente.
-Homessa…
-Empresta-me as suas moedas?
-Claro.
O dono do estabelecimento aproximou-se, afagou-a e foi colocando com delicadeza as moedas de euro e falando com ela:
- A mademoiselle queira perdoar a forma um tanto rude como foi tratada…
E os mecanismos funcionaram às mil maravilhas, havendo quem tenha ouvido, de modo muito claro, a máquina responder:
-Merci mon chéri…
-É uma dengosa… -comentou o utente, despeitado com a atenção que a porcaria da máquina merecia por parte da clientela e do dono.
-Não ligues mademoiselle… é o ressentimento e a inveja a falarem. Coisa de humanos… - consolou-a o proprietário.
Jorge C . Chora
-A máquina está ligada?
-Estar está… ela talvez não goste das moedas que está a utilizar…não serão, quiçá, as que ela está habituada… - respondeu-lhe o proprietário do café.
-Está a insinuar, por acaso, que o meu dinheiro é falso? – abespinhou-se o utente.
-Longe disso. É só um momento – e levantou-se de modo calmo e em duas grandes e vagarosas passadas, cobriu o espaço que o separava da máquina.
Abriu-a e mostrou ao senhor as moedas que este tinha metido: três moedas de euro e uma de um dólar.
- Ainda não está habituada a dólares…
O cliente rendeu-se à evidência:
-Mil perdões…
Abriu de novo a carteira e retirou outra moeda, confirmando que era de um euro. Dirigiu-se, à máquina e, num ápice, colocou as moedas de rajada e carregou no botão. Não houve qualquer reacção.
-E agora o que é que se passa?
-É que ela não está habituada à brusquidão… -referiu quase a medo, com receio de ferir a susceptibilidade do estranho cliente.
-Homessa…
-Empresta-me as suas moedas?
-Claro.
O dono do estabelecimento aproximou-se, afagou-a e foi colocando com delicadeza as moedas de euro e falando com ela:
- A mademoiselle queira perdoar a forma um tanto rude como foi tratada…
E os mecanismos funcionaram às mil maravilhas, havendo quem tenha ouvido, de modo muito claro, a máquina responder:
-Merci mon chéri…
-É uma dengosa… -comentou o utente, despeitado com a atenção que a porcaria da máquina merecia por parte da clientela e do dono.
-Não ligues mademoiselle… é o ressentimento e a inveja a falarem. Coisa de humanos… - consolou-a o proprietário.
Jorge C . Chora
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
A surpresa
Numa aldeia, perdida na montanha, vivia um menino diferente dos outros: era muito gordo e movia-se muito devagar. Todos os dias ia à escola. Descia muito lentamente a montanha e demorava três vezes mais tempo do que os outros meninos a descer até ao vale. Chamava-se Santiago.
Um dia, os colegas que viviam na montanha foram atrás dele, escondidos, para verem o que ele fazia durante o caminho. A primeira paragem que Santiago fez, foi junto a uma pequena rocha. Sentou-se, abriu o capote e foi tirando algumas cenouras dos bolsos interiores. Esperou uns dez minutos, em silêncio, e foi mordiscando a cenoura mais pequenina que tirara.
-Como é que ele não havia de ser gordo! Até pára para comer mal saiu de casa! – bichanaram os colegas acocorados.
Na frente de Santiago surgiu um velho coelho, com uma voz trémula que lhe estendeu a pata e o cumprimentou:
-Bom dia meu bom amigo. Desculpa-me o atraso mas hoje tenho uma grande dor numa perna e …
-Estás desculpado. Trago-te umas cenouras bem tenras. Espero que tu e a tua mulher as consigam comer.
-Muito obrigado. Que Deus te pague … - e o velho coelho afastou-se, a custo, carregando a comida que Santiago lhe trouxera.
Levantou-se e seguiu, sem que os colegas se tivessem dado conta do que se passara, pois só conseguiam ver as costas de Santiago. Um bocado mais abaixo tornou a sentar-se. Tirou do capote um frasco de água oxigenada, algodão e uma ligadura e fez um curativo a um jovem corvo que estava numa moita à sua espera.
Atrás dele, espreitando, escondidos, sem nada conseguirem ver, os colegas lançam-se a adivinhar:
-Até esconde comida para o caminho de regresso!
E as paragens foram-se sucedendo junto a umas ovelhas, a uns estranhos pássaros e a uma cabra.
A maior surpresa dos colegas foi quando Santiago colheu flores e as guardou no capote.~
-A fome é tanta que vai comer flores! - comentaram.
Ao chegar à escola os colegas apressaram-se a divulgar a sua verdade aos outros:
-E traz no capote as flores que há-de comer ao lanche. Imaginem!
Quando Santiago chegou ao pátio tinha à sua espera todos os meninos. Olhavam-no com os olhos esbugalhados e um ar trocista.
No alto das escadas, quando Matilde viu Santiago, gritou-lhe bem alto:
-Sabes que dia é hoje?
-Claro Matilde. É dia 14 de Fevereiro…não me esqueci de ti - e abriu totalmente o capote, deixando o chão forrado de flores.
Jorge C. Chora
Um dia, os colegas que viviam na montanha foram atrás dele, escondidos, para verem o que ele fazia durante o caminho. A primeira paragem que Santiago fez, foi junto a uma pequena rocha. Sentou-se, abriu o capote e foi tirando algumas cenouras dos bolsos interiores. Esperou uns dez minutos, em silêncio, e foi mordiscando a cenoura mais pequenina que tirara.
-Como é que ele não havia de ser gordo! Até pára para comer mal saiu de casa! – bichanaram os colegas acocorados.
Na frente de Santiago surgiu um velho coelho, com uma voz trémula que lhe estendeu a pata e o cumprimentou:
-Bom dia meu bom amigo. Desculpa-me o atraso mas hoje tenho uma grande dor numa perna e …
-Estás desculpado. Trago-te umas cenouras bem tenras. Espero que tu e a tua mulher as consigam comer.
-Muito obrigado. Que Deus te pague … - e o velho coelho afastou-se, a custo, carregando a comida que Santiago lhe trouxera.
Levantou-se e seguiu, sem que os colegas se tivessem dado conta do que se passara, pois só conseguiam ver as costas de Santiago. Um bocado mais abaixo tornou a sentar-se. Tirou do capote um frasco de água oxigenada, algodão e uma ligadura e fez um curativo a um jovem corvo que estava numa moita à sua espera.
Atrás dele, espreitando, escondidos, sem nada conseguirem ver, os colegas lançam-se a adivinhar:
-Até esconde comida para o caminho de regresso!
E as paragens foram-se sucedendo junto a umas ovelhas, a uns estranhos pássaros e a uma cabra.
A maior surpresa dos colegas foi quando Santiago colheu flores e as guardou no capote.~
-A fome é tanta que vai comer flores! - comentaram.
Ao chegar à escola os colegas apressaram-se a divulgar a sua verdade aos outros:
-E traz no capote as flores que há-de comer ao lanche. Imaginem!
Quando Santiago chegou ao pátio tinha à sua espera todos os meninos. Olhavam-no com os olhos esbugalhados e um ar trocista.
No alto das escadas, quando Matilde viu Santiago, gritou-lhe bem alto:
-Sabes que dia é hoje?
-Claro Matilde. É dia 14 de Fevereiro…não me esqueci de ti - e abriu totalmente o capote, deixando o chão forrado de flores.
Jorge C. Chora
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
O gesto
A tesoura da poda em vez de cortar, triturava os ramos, mesmo os mais pequenos. A dona olhou-a e decidiu mandá-la afiar. Na primeira oportunidade dirigiu-se a uma pequena oficina que ostentava um grande cartaz publicitando o serviço pretendido.
-Bom dia. Quanto é que custa afiar uma tesoura? - e separou as mãos, tentando exemplificar o tamanho da tesoura.
-Três euros.
- Ela é assim… -e corrigiu o tamanho, juntando mais as mãos.
-O profissional olhou de novo e apreçou:
-Três euros e meio…
A senhora voltou à carga, esforçando-se por mostrar o tamanho certo do pequeno objecto. Diminuiu, com a máxima precisão, a distância entre mãos. Mal acabara de exemplificar quando um novo preço foi adiantado:
-Quatro euros…
-Mas então, quanto menor é a tesoura mais caro fica o trabalho?
O homem, com um sorriso manhoso e com uma pronúncia sibilante sentencia:
-E é para quem quer!
E a jovem senhora, junta os tacões dos seus pequenos sapatos, coloca-se em bicos dos pés, faz o gesto do Zé Povinho e atira:
- O Tanas!
Jorge C. Chora
-Bom dia. Quanto é que custa afiar uma tesoura? - e separou as mãos, tentando exemplificar o tamanho da tesoura.
-Três euros.
- Ela é assim… -e corrigiu o tamanho, juntando mais as mãos.
-O profissional olhou de novo e apreçou:
-Três euros e meio…
A senhora voltou à carga, esforçando-se por mostrar o tamanho certo do pequeno objecto. Diminuiu, com a máxima precisão, a distância entre mãos. Mal acabara de exemplificar quando um novo preço foi adiantado:
-Quatro euros…
-Mas então, quanto menor é a tesoura mais caro fica o trabalho?
O homem, com um sorriso manhoso e com uma pronúncia sibilante sentencia:
-E é para quem quer!
E a jovem senhora, junta os tacões dos seus pequenos sapatos, coloca-se em bicos dos pés, faz o gesto do Zé Povinho e atira:
- O Tanas!
Jorge C. Chora
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
O telefonema
Quis telefonar e não consegui:
o fio do telefone tinha sido cortado.
Fui a outra cabine e também não resultou:
a caixa onde se colocavam as moedas desaparecera.
À terceira onde fui, tinha o telefone, o fio e a caixa,
mas estava avariada.
Quando finalmente encontrei uma a funcionar,
esqueci-me por que motivo queria telefonar.
Jorge C. Chora
o fio do telefone tinha sido cortado.
Fui a outra cabine e também não resultou:
a caixa onde se colocavam as moedas desaparecera.
À terceira onde fui, tinha o telefone, o fio e a caixa,
mas estava avariada.
Quando finalmente encontrei uma a funcionar,
esqueci-me por que motivo queria telefonar.
Jorge C. Chora
Subscrever:
Mensagens (Atom)
