Durante três dias consecutivos, na hora de pagar o café da manhã, o cliente estendia-lhe uma nota de cinquenta euros. O senhor do café desculpava-se:
-Ainda é muito cedo. Desculpe-me, mas não tenho troco. Paga para a próxima.
Ao quarto dia, mal o cliente acabou de tomar a bica, o proprietário esboçou um enorme sorriso e cumprimentou-o:
- Bom dia! Hoje já posso servi-lo. Tive o cuidado de ter o troco para a sua nota…
-Oh! Muitíssimo obrigado. É uma gentileza que agradeço de todo o coração… -e, apresenta-lhe uma nota de quinhentos euros, que o força a oferecer-lhe o quarto café.
No dia seguinte, aguardou ansioso a chegada do homem das notas grandes. Tinha tido o cuidado de ter trocos para todas as situações. Ao meio-dia ainda aguardava a sua chegada. Nunca mais lá apareceu nem deu notícias.
Dois anos depois, viu-o entrar e reconheceu-o:
-Então por onde tem andado?
-A arranjar dinheiro trocado para lhe facilitar os trocos – e despeja um saco cheio de cêntimos em cima do balcão, ordenando – pague-se do que lhe devo e dê-me mais uma bica, um bolo e um maço de tabaco!
Nesse momento entraram no estabelecimento os homens da drogaria e o do talho, acompanhados pelo merceeiro que ao verem o monte de moedinhas exclamaram:
-Que jeito nos davam uns troquinhos…
-Se me ajudassem a contá-lo…tenho o café cheio – propôs o dono do café, enquanto continuava a atender.
Logo ali o talhante procedeu à divisão dos cêntimos em quatro montes, distribuindo um a cada um, incluindo o freguês a quem pertencia o saco, com uma recomendação:
-Isso bem contado!
Feitas as contagens e trocados os cêntimos por notas, o dono do café ficou de imediato com uma delas que, por mero acaso, correspondia à dívida total do forasteiro.
Em frente ao cavalheiro que trouxera os cêntimos, sobejou o seu respectivo monte, que a ninguém interessou, por já terem trocos suficientes.
Furioso e irritado com a tarefa que acabara de concluir e por ter de ficar de novo com muitas moedinhas, ainda teve de agradecer o convite que lhe foi dirigido pelo dono do café:
-Vai agora um cafezito?
Jorge C. Chora
terça-feira, 1 de maio de 2012
sexta-feira, 13 de abril de 2012
A Beijoqueira
Criava cobras como passatempo. Amava-as. Eram os animais com quem mais se identificava. Notou que uma delas necessitava de cuidados veterinários. Apressada, colocou-a na mala e saiu a correr. Ao dobrar a primeira esquina sentiu algo frio na sua garganta. Era um assalto e a frialdade devia-se a uma faca encostada ao seu pescoço:
-Passa para cá o dinheiro…
-Tenho-o aqui na mala…mas estou tão nervosa que não vou conseguir encontrá-lo… - e,disfarçando um sorriso, abriu o fecho, deixando-a entreaberta.
O larápio enfiou de modo violento a mão na carteira. A rapidez com que a introduziu igualou o modo como a retirou. A cobra abocanhou-lhe a mão e ficou pendurada e quanto mais ele a sacudia mais ela se firmava. A senhora advertiu-o:
-Esteja quieto senão ela não o larga. Chame-a docemente de querida e afague-lhe a cabeça …pode ser que desista…Vou telefonar para o 112 porque a “Beijoqueira” é venenosa…
Ao chegar ao hospital, o amigo do alheio, fez questão de dizer à polícia que tinha sido alvo de um atentado e, caso sobrevivesse, iria colocar um processo à agressora.
O jovem agente de serviço, desabafou, em voz baixa:
-Que Deus não o permita…
-Olhe que eu processo-o por cumplicidade… – ameaçou-o raivoso o abocanhado.
A dona da cobra, que se dirigira ao hospital para recuperar a sua “Beijoqueira”, admoestou-o com uma voz de trovão:
-Devia aproveitar o pouco tempo que lhe resta para se arrepender e pedir perdão ao Criador… e, muito à socapa, com um ar penoso, dirigindo-se ao policial – infelizmente a cobra não é venenosa…
Jorge C. Chora
-Passa para cá o dinheiro…
-Tenho-o aqui na mala…mas estou tão nervosa que não vou conseguir encontrá-lo… - e,disfarçando um sorriso, abriu o fecho, deixando-a entreaberta.
O larápio enfiou de modo violento a mão na carteira. A rapidez com que a introduziu igualou o modo como a retirou. A cobra abocanhou-lhe a mão e ficou pendurada e quanto mais ele a sacudia mais ela se firmava. A senhora advertiu-o:
-Esteja quieto senão ela não o larga. Chame-a docemente de querida e afague-lhe a cabeça …pode ser que desista…Vou telefonar para o 112 porque a “Beijoqueira” é venenosa…
Ao chegar ao hospital, o amigo do alheio, fez questão de dizer à polícia que tinha sido alvo de um atentado e, caso sobrevivesse, iria colocar um processo à agressora.
O jovem agente de serviço, desabafou, em voz baixa:
-Que Deus não o permita…
-Olhe que eu processo-o por cumplicidade… – ameaçou-o raivoso o abocanhado.
A dona da cobra, que se dirigira ao hospital para recuperar a sua “Beijoqueira”, admoestou-o com uma voz de trovão:
-Devia aproveitar o pouco tempo que lhe resta para se arrepender e pedir perdão ao Criador… e, muito à socapa, com um ar penoso, dirigindo-se ao policial – infelizmente a cobra não é venenosa…
Jorge C. Chora
quarta-feira, 4 de abril de 2012
A fila prioritária
Fez as compras que tinha a fazer e dirigiu-se à caixa para as pagar. Quando se preparava para as colocar no pequeno balcão, ouviu atrás de si uma voz rouca:
-Peço-lhe perdão mas, se me deixasse passar à sua frente, ficava-lhe muito agradecida.
Olhou e viu uma idosa apoiada numa canadiana. Sorriu, ajudou-a a colocar os produtos e inclusive a colocá-los nos sacos. Mal acabara de praticar a sua acção cívica quando surgiu uma senhora grávida. Cedeu de imediato a passagem.
Sentiu-se ainda obrigada a ceder a primazia a mais duas pessoas: uma que transportava uma criança ao colo e a outra que trazia uma bebé no carrinho que dormia o sono dos justos.
Quando, por fim, julgou chegado o momento de ser atendida, apareceu-lhe, afogueada, uma jovem e elegante senhora que anunciou, plena de requebros
snobs:
-Estou grávida de um mês…
Ao ouvir esta declaração deu uma gargalhada sonora e disse:
-Minha querida, acabei mesmo há bocado de fazer amor e estou mesmo convicta, de que engravidei. Terá de esperar pela sua vez. Ah! Antes que me esqueça…Parabéns!
Nesse preciso momento a funcionária da caixa levanta-se, deixando ver uma barriga que denotava estar no fim do tempo e, muito aflita, interrompe o diálogo:
-Mil perdões mas tenho de ir já para a maternidade…
Jorge C. Chora
-Peço-lhe perdão mas, se me deixasse passar à sua frente, ficava-lhe muito agradecida.
Olhou e viu uma idosa apoiada numa canadiana. Sorriu, ajudou-a a colocar os produtos e inclusive a colocá-los nos sacos. Mal acabara de praticar a sua acção cívica quando surgiu uma senhora grávida. Cedeu de imediato a passagem.
Sentiu-se ainda obrigada a ceder a primazia a mais duas pessoas: uma que transportava uma criança ao colo e a outra que trazia uma bebé no carrinho que dormia o sono dos justos.
Quando, por fim, julgou chegado o momento de ser atendida, apareceu-lhe, afogueada, uma jovem e elegante senhora que anunciou, plena de requebros
snobs:
-Estou grávida de um mês…
Ao ouvir esta declaração deu uma gargalhada sonora e disse:
-Minha querida, acabei mesmo há bocado de fazer amor e estou mesmo convicta, de que engravidei. Terá de esperar pela sua vez. Ah! Antes que me esqueça…Parabéns!
Nesse preciso momento a funcionária da caixa levanta-se, deixando ver uma barriga que denotava estar no fim do tempo e, muito aflita, interrompe o diálogo:
-Mil perdões mas tenho de ir já para a maternidade…
Jorge C. Chora
quarta-feira, 14 de março de 2012
As manhas de "Vou Tar" e "Cointreau"
Chegaram à velhice sem cheta. Em abono da verdade nunca a tiveram. Melhor dizendo, iam tendo mas por pouco tempo, pois derretiam-na em farras.
Com um cadastro recheado de malfeitorias, o tempo que passaram engavetados foi encarado por “Vou Tar” e” Cointreau” como uma espécie de retiro espiritual entre iguais, uma oportunidade para aprender novas patifarias.
“Vou Tar” e” Cointreau” eram alcunhas atribuídas pelas práticas de cada um. O primeiro nunca dissera” vou estar aqui ou acolá”, limitando-se a abreviar; o segundo, desde que provara, numa festa de casamento, onde fora sem ser convidado, um cálice de cointreau, nunca mais quisera outra bebida senão essa.
Ambos eram dados a infindáveis discussões sobre o que se devia fazer ao dinheiro dos outros:
- Agora que estamos em crise, todos os que têm dinheiro a prazo, devem levantá-lo e distribuí-lo equitativamente por quem, como nós, nada tem. Ao governo deve competir assegurar que esse dinheiro chegue aos nossos bolsos.
-Não está mal visto não… -Junto tostões há quarenta anos e agora tinha de vos sustentar -insurgiu-se o”Labuta”.
-Ainda ficas com a tua casa e aquelas territas na aldeia. Bem podes pagar mais uns impostos… -alvitraram os dois sanguessugas.
-Mais ainda? Se calhar também querem que volte a comprar o que é já meu e me custou tanto sacrifício… - revoltou-se.
-Não era má ideia! Era uma forma de partilhar … - concordaram entusiasmados, antecipando o prazer da posse do que não lhes pertencia.
-E se vocês fossem atrás das fortunas duvidosas ou dos que são mesmo muito ricos! - desabafou o “Labuta”.
-Julgas que somos parvos? Com esses nada conseguimos! Ainda éramos capazes de ficar sem o pouco que arranjámos à custa de papalvos como tu! -exclamaram, um tanto fartos da ingenuidade do aforrador.
“Labuta” calou-se. Não estava para se aborrecer ainda mais. Um berro enorme assustou--o:
-Então esse cointreau nunca mais vem?
-E ponho na conta de quem? – gritou o dono no interior do estabelecimento.
-Na do “Labuta” claro!- berraram “Vou Tar” e” Cointreau”.
Jorge C. Chora
Com um cadastro recheado de malfeitorias, o tempo que passaram engavetados foi encarado por “Vou Tar” e” Cointreau” como uma espécie de retiro espiritual entre iguais, uma oportunidade para aprender novas patifarias.
“Vou Tar” e” Cointreau” eram alcunhas atribuídas pelas práticas de cada um. O primeiro nunca dissera” vou estar aqui ou acolá”, limitando-se a abreviar; o segundo, desde que provara, numa festa de casamento, onde fora sem ser convidado, um cálice de cointreau, nunca mais quisera outra bebida senão essa.
Ambos eram dados a infindáveis discussões sobre o que se devia fazer ao dinheiro dos outros:
- Agora que estamos em crise, todos os que têm dinheiro a prazo, devem levantá-lo e distribuí-lo equitativamente por quem, como nós, nada tem. Ao governo deve competir assegurar que esse dinheiro chegue aos nossos bolsos.
-Não está mal visto não… -Junto tostões há quarenta anos e agora tinha de vos sustentar -insurgiu-se o”Labuta”.
-Ainda ficas com a tua casa e aquelas territas na aldeia. Bem podes pagar mais uns impostos… -alvitraram os dois sanguessugas.
-Mais ainda? Se calhar também querem que volte a comprar o que é já meu e me custou tanto sacrifício… - revoltou-se.
-Não era má ideia! Era uma forma de partilhar … - concordaram entusiasmados, antecipando o prazer da posse do que não lhes pertencia.
-E se vocês fossem atrás das fortunas duvidosas ou dos que são mesmo muito ricos! - desabafou o “Labuta”.
-Julgas que somos parvos? Com esses nada conseguimos! Ainda éramos capazes de ficar sem o pouco que arranjámos à custa de papalvos como tu! -exclamaram, um tanto fartos da ingenuidade do aforrador.
“Labuta” calou-se. Não estava para se aborrecer ainda mais. Um berro enorme assustou--o:
-Então esse cointreau nunca mais vem?
-E ponho na conta de quem? – gritou o dono no interior do estabelecimento.
-Na do “Labuta” claro!- berraram “Vou Tar” e” Cointreau”.
Jorge C. Chora
quarta-feira, 7 de março de 2012
A Praça dos amores
Na praça do” sou todo teu”,
cachos de beijos
subiram ao céu,
entre sussurros de
sou toda tua,
serás todo meu.
Nessa praça tiveram lugar,
os amores de Bela,
os aís de Catarina,
as promessas e os desejos de Isabel:
Sou toda tua,
serás todo meu.
Cachos de beijos
sobem ao céu,
entre sussurros
de amor, promessas
que se ouvem,
e se renovam:
Sou toda tua, sou todo teu.
Ainda é a praça do” sou todo teu”.
Jorge C. Chora
cachos de beijos
subiram ao céu,
entre sussurros de
sou toda tua,
serás todo meu.
Nessa praça tiveram lugar,
os amores de Bela,
os aís de Catarina,
as promessas e os desejos de Isabel:
Sou toda tua,
serás todo meu.
Cachos de beijos
sobem ao céu,
entre sussurros
de amor, promessas
que se ouvem,
e se renovam:
Sou toda tua, sou todo teu.
Ainda é a praça do” sou todo teu”.
Jorge C. Chora
domingo, 4 de março de 2012
A ranhosa
No meio da praça a menina estremecia. As lágrimas corriam-lhe por ambas as faces. Ao princípio ela ainda as tentou limpar mas depois desistiu. As pessoas pararam.
-O que te aconteceu Isabel?
E a menina redobrou as lágrimas e o choro. Uma aflição contagiante começou a apoderar-se dos que presenciavam o sofrimento da gaiata.
-O que tens Isabel? Diz-nos, por favor…
-Perdi o dinheiro que os meus pais me deram para o leite. Coloquei-o em cima da cadeira enquanto me assoava. Quando acabei já lá não estava! Eram dois euros. Agora não posso levar-lhes o leite e fiquei sem o dinheiro. A culpa é minha… como é que isto me aconteceu? Eles não vão confiar mais em mim!
E na praça, os avôs e as avós que viram confiscadas partes significativas das suas reformas, que percebiam perfeitamente a sensação de perda e de revolta,
exclamam comovidos:
-Ah como era bom que os grandes tivessem a responsabilidade das crianças!
Num canto da taberna, uma velha ébria retira os dois euros que escondera no bolso e ordena:
-Mais um copito de aguardente e isso depressa, que o dinheirinho não abunda …donde este veio não virá mais nenhum… - e vira-se para a criança que entretanto se aproximara e choramingava ao pé de si – desanda daqui ranhozita… o prejuízo duns é o lucro doutros…
Jorge C. chora
-O que te aconteceu Isabel?
E a menina redobrou as lágrimas e o choro. Uma aflição contagiante começou a apoderar-se dos que presenciavam o sofrimento da gaiata.
-O que tens Isabel? Diz-nos, por favor…
-Perdi o dinheiro que os meus pais me deram para o leite. Coloquei-o em cima da cadeira enquanto me assoava. Quando acabei já lá não estava! Eram dois euros. Agora não posso levar-lhes o leite e fiquei sem o dinheiro. A culpa é minha… como é que isto me aconteceu? Eles não vão confiar mais em mim!
E na praça, os avôs e as avós que viram confiscadas partes significativas das suas reformas, que percebiam perfeitamente a sensação de perda e de revolta,
exclamam comovidos:
-Ah como era bom que os grandes tivessem a responsabilidade das crianças!
Num canto da taberna, uma velha ébria retira os dois euros que escondera no bolso e ordena:
-Mais um copito de aguardente e isso depressa, que o dinheirinho não abunda …donde este veio não virá mais nenhum… - e vira-se para a criança que entretanto se aproximara e choramingava ao pé de si – desanda daqui ranhozita… o prejuízo duns é o lucro doutros…
Jorge C. chora
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
A máquina que adorava ser "mademoiselle"
Com maus modos abriu a carteira. Retirou algum dinheiro com uma violência fora de vulgar. Aproximou-se da máquina de tabaco e introduziu uma, duas, três moedas e à quarta, quando atingiu o preço do maço pretendido, carregou no respectivo botão. A máquina não deu qualquer sinal. Repetiu o gesto e nada. Furioso, gritou em direcção ao balcão:
-A máquina está ligada?
-Estar está… ela talvez não goste das moedas que está a utilizar…não serão, quiçá, as que ela está habituada… - respondeu-lhe o proprietário do café.
-Está a insinuar, por acaso, que o meu dinheiro é falso? – abespinhou-se o utente.
-Longe disso. É só um momento – e levantou-se de modo calmo e em duas grandes e vagarosas passadas, cobriu o espaço que o separava da máquina.
Abriu-a e mostrou ao senhor as moedas que este tinha metido: três moedas de euro e uma de um dólar.
- Ainda não está habituada a dólares…
O cliente rendeu-se à evidência:
-Mil perdões…
Abriu de novo a carteira e retirou outra moeda, confirmando que era de um euro. Dirigiu-se, à máquina e, num ápice, colocou as moedas de rajada e carregou no botão. Não houve qualquer reacção.
-E agora o que é que se passa?
-É que ela não está habituada à brusquidão… -referiu quase a medo, com receio de ferir a susceptibilidade do estranho cliente.
-Homessa…
-Empresta-me as suas moedas?
-Claro.
O dono do estabelecimento aproximou-se, afagou-a e foi colocando com delicadeza as moedas de euro e falando com ela:
- A mademoiselle queira perdoar a forma um tanto rude como foi tratada…
E os mecanismos funcionaram às mil maravilhas, havendo quem tenha ouvido, de modo muito claro, a máquina responder:
-Merci mon chéri…
-É uma dengosa… -comentou o utente, despeitado com a atenção que a porcaria da máquina merecia por parte da clientela e do dono.
-Não ligues mademoiselle… é o ressentimento e a inveja a falarem. Coisa de humanos… - consolou-a o proprietário.
Jorge C . Chora
-A máquina está ligada?
-Estar está… ela talvez não goste das moedas que está a utilizar…não serão, quiçá, as que ela está habituada… - respondeu-lhe o proprietário do café.
-Está a insinuar, por acaso, que o meu dinheiro é falso? – abespinhou-se o utente.
-Longe disso. É só um momento – e levantou-se de modo calmo e em duas grandes e vagarosas passadas, cobriu o espaço que o separava da máquina.
Abriu-a e mostrou ao senhor as moedas que este tinha metido: três moedas de euro e uma de um dólar.
- Ainda não está habituada a dólares…
O cliente rendeu-se à evidência:
-Mil perdões…
Abriu de novo a carteira e retirou outra moeda, confirmando que era de um euro. Dirigiu-se, à máquina e, num ápice, colocou as moedas de rajada e carregou no botão. Não houve qualquer reacção.
-E agora o que é que se passa?
-É que ela não está habituada à brusquidão… -referiu quase a medo, com receio de ferir a susceptibilidade do estranho cliente.
-Homessa…
-Empresta-me as suas moedas?
-Claro.
O dono do estabelecimento aproximou-se, afagou-a e foi colocando com delicadeza as moedas de euro e falando com ela:
- A mademoiselle queira perdoar a forma um tanto rude como foi tratada…
E os mecanismos funcionaram às mil maravilhas, havendo quem tenha ouvido, de modo muito claro, a máquina responder:
-Merci mon chéri…
-É uma dengosa… -comentou o utente, despeitado com a atenção que a porcaria da máquina merecia por parte da clientela e do dono.
-Não ligues mademoiselle… é o ressentimento e a inveja a falarem. Coisa de humanos… - consolou-a o proprietário.
Jorge C . Chora
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