terça-feira, 12 de maio de 2015

ESTA GENTE COMPRA TUDO!


De dedo em riste e cachucho a brilhar no dedo, entrou na sapataria e comprou umas botas de couro de cano alto. Logo a seguir, entrou noutra e pagou um cachecol. Entretanto, ao observar uma série de compradores transportando pequenos sacos, não se conteve e exclamou:

-Esta gente compra tudo!

Palavras não eram ditas e adquiriu um enorme casaco. Depois de o mirar e remirar achou que ele ficava bem com uma pulseira que vira no início da sua incursão aquisitiva. Não ficou a remoer a decisão: trouxe-a.

Enquanto a vendedora a auxiliava a colocar a pulseira, escandalizou-se com duas ou três pessoas que escolhiam peças da ourivesaria:

-Esta gente compra tudo!

Enquanto caminhava ao longo dos compridos corredores do centro comercial sentiu fome. Reparou nos restaurantes desertos e resmungou:

-Compram tudo e depois não têm dinheiro para comer!

Ao passar por um pequeno espaço de comida rápida, acercou-se do balcão e pediu:

-Um cachorro, daqueles da promoção, e um copo de água…

Enquanto comia, congratulava-se por estar a poupar dinheiro e ser diferente da gentalha que comprava tudo.

-Que gente… compram tudo e nada poupam!

À saída, viu um apito metálico exposto numa montra de desporto e não resistiu.

-Não podia deixá-lo escapar… - suspirou, encantada, apitando três vezes, antes de repetir – Esta gente compra tudo!

Jorge C. Chora



segunda-feira, 4 de maio de 2015

D. BRAZIA E A DESPACHADA BARBEIRA

        
D.Brazia foi internada na véspera de uma operação . Na manhã seguinte recebeu a visita da barbeira. Surpreendida viu-a colocar os seus instrumentos de trabalho na sua cabeceira.

-Ora bom dia! Vamos a isso? – perguntou, sorridente.

A doente encolheu-se e quase a medo perguntou:

-A isso? Não sei ao que se refere!

-Aos pelinhos…

D.Brazia gagejou:

-Não estou a perceber…

-Ah! Será que já está depilada?- questionou a barbeira, quase pedindo desculpa.

-Não, não …eu vou ser operada à tiróide…

A barbeira olhou para a doente e estremeceu a rir:

-Ainda bem que me disse! Julgava que ia ser operada às partes baixas …

-Não …é à tiróide – repetiu.

-Bom, já que aqui estou, não quer aproveitar? – perguntou a barbeira, antes de arrumar o material de trabalho e sair.

A partir desse dia D.Brazia passou a ter pesadelos, sonhando que se transformava em franga, perseguida pela sorridente barbeira, de tesoura e máquina em punho e que lhe gritava:

-Tem mesmo de ser, não pode ir assim para a operação!

Jorge C. Chora




domingo, 3 de maio de 2015

MARIA


No país das Marias
tenho a sorte de
uma delas “ser minha”.
A doce Maria, de cujas
acções quem a rodeia só
beneficia, sem alarde
e gritaria, antes pelo sussurro
e carinho,                   
em que a sua entrega e apoio,
 são carícias
aos olhos de quem vê e,
por vezes, nem sequer
se apercebe que aquele amor
é inabalável porque, simplesmente,
é o da “minha” Maria.


Jorge C. Chora

sábado, 25 de abril de 2015

25 DE ABRIL


Numa primavera
já longínqua,
escutou-se um grito
que rompeu o medo,
rasgou horizontes
e criou a esperança:
Viva a liberdade!
Tudo isso floresceu,
adubado pela alegria de um povo,
que fez do cravo o símbolo
dos seus anseios,
e que hoje, depois de tantas desilusões,
ainda quer acreditar, que em democracia,
é sempre possível defender
e viver em liberdade!


Jorge C. Chora

quarta-feira, 22 de abril de 2015

A DANÇA DO APERTA-APERTA


O meu cinto já teve três furos,
e passou a  ter cinco,
dois atrás e  três à frente.
Com o tempo fizeram-lhe
mais três e deixaram os outros cinco,
que ficaram de novo à frente,
e no total somaram oito!
Mal vai esta dança do aperta -aperta,
oxalá não sejam precisos mais,
porque quando as promessas
do alarga -alarga se concretizarem,
oito furos avançar, dará direito
a morrer de uma barrigada!
Enquanto isto não acontece,
cantemos, mão na mão, esta canção:
Ora aperta ora alarga,
é uma canção engraçada,
da quql só conhecemos o sentido
do aperta-aperta, dois passos para trás,
mais outro e ainda outro,
e quando dermos por nós,
no palco só estarão os que sempre dançaram
o alarga-alarga,  todos os anos,
no princípio, no meio ou no fim,
com prémios mensais, quinzenais,
semanais e, quiçá, também diários,
pelo q’outros fizeram e eles aproveitaram.


Jorge C. Chora.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

EM TODA A PARTE TE VEJO!



Vejo-te em todos
os lados:
não há canto,recanto,
cidade ou local
onde te não veja,
pois,  em todos os lados  sinto
a tua presença, meu amor.
Nenhum lugar me é estranho, pois,
em todos te vejo,
mesmo  que  nunca lá tenhas estado,
ou venhas a estar.
Por isso, meu amor,
nenhuma  terra me estranha,
porque todas têm um pouco de ti.


Jorge C. Chora

sexta-feira, 17 de abril de 2015

A CAIXA DE CHOCOLATES

                                                                                                             
Nunca recebera nada de ninguém, excepto da sua própria família. Surpreendeu-se quando o vizinho lhe trouxe uma grande caixa de chocolates. Primeiro recusou. Perante a insistência, não teve outro remédio senão aceitar, mas quis saber o motivo da oferta:

-A que se deve o presente?

-Olhe…eu não gosto de chocolate…preciso de saber se ele é bom ou não, para aproveitar uma promoção para os meus filhos. É uma surpresa…

Agradeceu a oferta e comprometeu-se a dar-lhe, no dia seguinte, o seu parecer. Só estranhou o facto do outro não ter filhos e ter falado neles.

Na manhã seguinte, ainda não eram 9h, quando lhe bateram à porta. Era o vizinho que lhe ofertara os chocolates.

-Então os chocolates estavam bons? Desculpe…queria perguntar se eram bons!

O homem que os tinha provado e passara a noite com dores de barriga e na casa de banho, percebeu que tinha servido de cobaia. Julgara que a indisposição se devera ao marisco que comera. Agora tinha a certeza de que o marisco não tivera culpa nenhuma. Sorriu ao vizinho e disse-lhe:

-Pode comê-los à vontade. Estão óptimos e são muito saborosos.

Um dia depois, no café, contou a dois moradores o que se passara com os chocolates que o vizinho lhe dera .Os moradores riram-se e contaram-lhe que ele tinha por hábito fazer isso quando não sabia se os produtos estavam bons. Dava-os a provar a alguém e só depois de se certificar que ninguém morrera e estava tudo bem, é que os consumia.

Uma hora depois da conversa, entrou o senhor das ofertas. Vinha esbranquiçado, enfraquecido, mal podendo andar.

-O que se passa consigo? - perguntaram-lhe os presentes.

Virou-se para a cobaia, muitíssimo aborrecido, e murmurou:

-O senhor tem intestinos de aço! Comi as outras caixas que tinha em casa e só não morri por acaso! Nunca mais lhe dou a provar seja o que for!

-Tem graça, não senti nada… mas mesmo nada! - respondeu-lhe - contendo o riso e as dores de barriga que o piolhoso lhe pregara.

 Jorge C. Chora