sábado, 12 de dezembro de 2015

O RITUAL DOS CUMPRIMENTOS DIÁRIOS ENTRE MANEL E ALFREDO


-Bom dia camarada! –  cumprimenta Manel num tom de voz que ecoa no café de Alfredo.

A resposta de Alfredo não se faz tardar:

-Vai marrar com um comboio!

 Ser chamado de camarada provoca-lhe alergia. Alfredo teme o dia em que os pêlos do corpo lhe caiam todos com semelhante tratamento.

Manel não desarma:

-Vá lá, despacha-te… e com bons modos…o trabalho dá saúde…

-Se é assim por que estão os hospitais cheios de trabalhadores!? Tem calma… -responde-lhe Alfredo.
-Pouca conversa…despacha-te… -insiste Manel.

Consumidos e pagos os produtos solicitados, despede-se:

-Olha Alfredo. não te vás embora que eu ainda volto…

-Hum… -resmunga Alfredo., condenado a ficar no café até às 2oh, mas não diz mais nada, não vá  Manel dar-lhe mais da avinagrada música matinal.

E sabem que mais? Manel vai várias vezes por dia ao café e sempre que entra diz:

-Camarada…

Hoje vi e ouvi alguém, sem ser o Manel, entrar no café e dizer- lhe:

-Bom dia camarada…

É caso para ter pena  …mas penas têm as galinhas… e Alfredo sabe bicar… e bem…

Jorge C. Chora


MEMÓRIAS DE LM


Nos idos de sessenta, ou no ano de setenta , a fama de Ravi Shankar estava em alta em LM. Vem isto a propósito de um filme que vi, em que ele e outros convidados, demonstravam o domínio instrumental do sitar e da música indiana.

O filme passou no velho cinema Scala, cuja centralidade fazia esquecer a sua antiguidade e uma certa falta de conforto, se comparado com o de outras salas existentes na cidade.

O espectáculo foi longo, demasiado longo para os meus dezassete ou dezoito anos. Embalado pela música, pelo calor e pela inactividade forçada, acabei por ir cabeceando,  e logo a seguir adormecendo por breves períodos. Quando acordava, olhava ao meu redor: não era o único que dormia. Relaxei e deixei-me ir na onda, acompanhado pelos dois espectadores que me ladeavam.
À saída vi um dos senhores, que me tinha acompanhado no abraço a Morfeu, comentar:

-Que espectáculo magnífico! Um tributo a Euterpe!

E um senhor indiano que ainda vinha meio a dormir e os conhecia, corrigiu:

-Um tributo a Sarasvati, que essa é que é a deusa da música …

Atravessei a rua, sentei-me na esplanada do Continental e bebi duas imperiais: uma em homenagem a Euterpe e outra a Sarasvati.

E se mais deusas houvesse, mais “Laurentinas”  tinham marchado…


Jorge C. Chora

O NOVO SINBAD



Há uns anos, quando me dirigia a um dos cafés do bairro, uma idosa pediu-me ajuda para atravessar a passadeira de peões. Prontifiquei-me a ajudá-la.

Com uma força inesperada, prendeu o seu braço ossudo ao meu, apertando-o como se estivesse a afogar-se.

Atravessada a estrada, desejei-lhe um bom dia e despedi-me:

-Minha senhora, já cá está sã e salva deste lado...

-Salva estou… quanto ao sã, quem me dera estar…

A senhora continuava a pressionar-me o braço, sem dar qualquer sinal de abrandamento e disse-me:

-Caro jovem, agradeço a sua simpatia e peço-lhe que me leve até à esquina… -e apontava-me a casa bem ao fim da rua.

A ver as horas de entrada ao serviço a aproximarem-se, sorri um pouco encavacado e, com vergonha de dizer não, segui até à esquina indicada.

É claro que os leitores já adivinharam que o meu tormento não chegara ao fim.

-Para dizer a verdade, meu dilecto amigo, eu vou ao Centro de Saúde…se não se importasse de me acompanhar …

Não acreditei no que ouvia. O Centro ainda era bem longe do local onde nos encontrávamos. Pensei em mim como num novo Sinbad, escravizado pelo velho que se encavalitara em torno do seu pescoço e o dominava com as pernas, transformadas em galhos secos que o asfixiavam. Recordei a artimanha do marinheiro para se libertar do jugo: embebedar o velho…

De modo quase inconsciente, avaliei a propensão para a pinga por parte da idosa e não vi sinais de vermelhidão na ponta do nariz, nem cheiro a álcool. O único cheiro que ela exalava era a pó de arroz…

Estava eu nesta indecisão quando passou uma vizinha que me libertou:

-Ora venha daí Dona…vai para o Centro de Saúde não é…continua a saber escolher quem lhe apara os golpes…

E as duas senhoras seguiram, uma pendurada na outra, para o mesmo destino.

Jorge C. Chora


A GATA DOUTORA

                                               
Tenho uma gata pequena, amarela e mimosa. De acordo com um médico ucraniano que por acaso a viu, estes gatos, na sua terra, são designados como gatos doutores: não saem de perto dos doentes.
Quando ele me deu a informação não a contestei, pois foi exactamente isso que aconteceu em relação aos últimos tempos de vida da minha sogra. A gata não a deixava, mas na altura não estranhei, já que ela gostava de gatos. Nos seus últimos dias, já perto dos 97 anos, acamada, tinha a companhia permanente da Bli, assim se chama a minha amarelinha.

Vem isto a propósito de nos últimos tempos ter andado adoentado. Consultados os médicos e realizados os exames prescritos, foram unânimes no diagnóstico: necessidade urgente de um pacemaker, sob pena de poder suceder-me algo que eu espero só aconteça daqui a alguns anos.
E não é que a gata, que sempre gostou de estar ao meu colo, passou a andar dia e noite atrás de mim e por mais voltas que eu desse nunca me largava! Cheguei a enxotá-la:

-Vai agourar para outro lado! –E ela, ouvidos moucos, vinha roçar-se, ronronar com o dobro de intensidade, embrulhar-se nas minhas pernas, mesmo quando eu voltava à carga -  Ó Bli, larga-me que eu não tenciono ir desta para melhor!

E não é que, já com o pacemaker implantado e de regresso a casa, ela não me liga nenhuma! Deus seja louvado!

Jorge C. Chora



quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

OS PRÍNCIPES EXISTEM?


 O Mundo está cheio
de pequenos príncipes
e princesas!
Não dos de fantasia,
dos de cabeças coroadas,
mas dos verdadeiros,
dos de carne e osso,
daqueles que nos lambuzam de chocolate
e nos deixam nas faces
as marcas dos seus beijos.

Jorge C. Chora

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

AO SABOR DAS MARÉS


Rabisquei na areia da praia,
ao ritmo das marés,
uns versos a pensar em ti.
Vieram as gaivotas e
com os seus bailados,
teceram-lhes uma moldura
feita de pegadas entrelaçadas
como se os quisessem preservar.
Veio o mar e levou-os.
Perante a minha tristeza
murmurou e disse:
Sossega, as tuas palavras
não se perderam,
embalo-as no meu seio
e todos os dias as ofereço,
como almofadas falantes,
aos que se amam por esses areais.


Jorge C. Chora




Jorge C. Chora