sexta-feira, 7 de outubro de 2016

UM BEIJO E UMA FLOR


Olhar as gerberas
causa-lhes um certo ciúme,
arregala-lhes os olhos
desperta-lhes o desejo
de recebê-las por parte
de quem,
até ao momento, lhes deu
uma mão cheia de arrelias
e a outra, repleta só de promessas
incumpridas.

Uma flor para a Guida,
outra para a Helena,
e ainda outra para a Joana,
havendo também para
a Mafalda, a Luísa
e para todas as mulheres
que amam.

Uma flor e um beijo
que elas, afinal,
 ciumentas ou não,
também merecem,
enquanto esperam
que as promessas
um dia se cumpram
e recebam de quem amam
um simples ramo de gerberas.


Jorge C. Chora

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

"RÁRES" E O PRESIDENTE DOURADO

                                           
Foi hoje aberto ao público o MAAT e muitos milhares de cidadãos quiseram visitá-lo, tal como eu.
O Prof. Marcelo Rebelo de Sousa também lá foi. Circulou entre a multidão, deixou-se fotografar com vários anónimos, apertou a mão a muitos dos que o quiseram cumprimentar.

Subindo a rampa exterior, que dá acesso ao topo do edifício, o Presidente da República, acompanhado de uma pequena comitiva, alguns deles militares da marinha, atraiu a atenção de Ráres, encavalitado aos ombros de seu pai.

Ráres é uma criança romena, e o pai um operário que trabalhou na construção do museu. Excitado por saber que naquele grupo que subia vinha o Presidente, apontou o reluzente oficial de marinha, fardado de branco, com os seus galões dourados e não teve a menor dúvida:

- É aquele senhor, não é pai?

E quando o progenitor lhe disse que não e lhe indicou quem era, calou-se e percebeu-se uma
desilusão: afinal nem sempre os que brilham ao sol são os que mandam em todos!

Jorge C. Chora


segunda-feira, 3 de outubro de 2016

O FADO CACAREJADO

                                                      

Na feira de antiguidades, um senhor de grandes bigodes, examinava os objectos da banca onde se encontrava, com um detalhe e uma morosidade exasperante.

O vendedor, de modo educado, ia respondendo às questões, a um ritmo frenético, que o cliente lhe ia pondo, da melhor maneira que lhe era possível.

Depois de mexer, remexer e examinar praticamente tudo o que havia, pegou numa pequena estatueta metálica, representando um galo. Deu-lhe o mesmo tratamento que tinha dispensado às peças anteriores, com a particularidade de a encostar ao ouvido, primeiro o esquerdo e a seguir o outro.

-A peça é portuguesa?

-Sim. Comprei-a como tal...

E o senhor, tornou a encosta-la às orelhas e a sacudi-la com um ar de caso.

-Pois olhe, se eu descubro que ele canta em chinês, pode ter a certeza que venho cá devolvê-lo…  - advertiu o comprador.

- E se ele por acaso cantar em japonês ou em tailandês? -perguntou divertido o vendedor.

-Nada feito…se ele cantar, só aceito em português legítimo, de preferência em ritmo de fado cacarejado!

Nestas feiras aparece cada maduro!


Jorge C. Chora

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O ROLÃO CU DE PAVÃO



Rolão cheira mal que tresanda. Como assim? perguntarão, querendo saber com exactidão o fedor que ele exala. Não é fácil descrevê-lo porque não há palavras que possam igualar a repugnância sentida, com o mesmo grau de intensidade em relação à experiência olfactiva. Direi que, o odor faz lembrar palha velha, embebida em urina e fezes de animais ou seja, o Rolão fede a estrebaria, embora se possa encharcar em jasmim ou outra essência qualquer.

De estrebaria é também o seu comportamento. Rolão pavoneia-se, usa o você em vez do senhor(a), gaba-se, não cessa de gabar-se do que fez com esta e com aquela, dando pormenores sórdidos, sabe-se lá se reais se imaginários, capazes de demolir a reputação mais sólida, sejam elas solteiras, viúvas ou casadas. Todas sem excepção, diz, suspiram por ele, emitem sinais de enorme interesse que ele, tal qual antena de TV, capta antecipadamente e sabe o momento em que elas se entregarão e o modo como o farão.

Rolão é feio como os dias de tempestade, branco que nem uma osga, lanzudo como uma ovelha de pêlo seboso e escorrido. Dotado de umas beiças finas que formam uma espécie de beiral das cloacas, por elas escorrem as aleivosias e a torrente orgásmica e leitosa da maledicência, também em relação a eles, quando jura a pés juntos e divulga, destilando velhacaria, que o gajo é, de fonte segura, um homossexual conhecido de todos, mas só ele tem essa informação: não diga a ninguém…

Rolão agarra-se como as lapas, não desgruda de quem lhe interessa, esfrega o ego a quem pretende sugar alguma coisa, até ao momento em que consegue concretizar a transfusão.

Rolão pavoneia-se, só dá as costas, mostra o rabo que julga ser de pavão mas é, de facto, um cu de pavão sem penas.

Quantos Rolões, cus de pavão, conhece Vª Exª? Está rodeado deles? É natural…é o que mais há!
São de facto muito, mas muito aborrecidos, e acima de tudo, infinitamente repetitivos…e cansativos.

Sacuda-os!


Jorge C. Chora

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

O GALO DESTRAMBELHADO

                 

Suspeito que o meu vizinho capou o galo que tem na capoeira. Este anda furioso com a perda sofrida e há quem diga que o animal até muda de cor pois, umas vezes está vermelho, outras rôxo e ainda, no auge da raiva, negro que nem um tição.

E o estupor do bicho reclama, sem atender nem à hora nem ao dia, seja de trabalho ou de descanso, num estilo roufenho e dolente, numa toada mourisca que ninguém percebe, mas que se sente ser de lamento e revolta,  por lhe terem tirado aquilo que o fazia ser um grande galo.

Canta de manhãzinha, mesmo antes da hora prima, segue-se a cantoria todo o dia, mesmo após as completas, emitindo aquele som desqualificado, de galo capado, de político que ninguém ouve.
Pior, mas muito pior, do que o seu cantar, é o coro de carpideiras que o acompanham. Escutem! Ouçam:

-Estamos fracas…estamos fracas…estamos fracas…

E o galo, convencido  que deve ser ouvido, levanta a crista e canta a propósito de tudo e de nada, aproveitando todas as oportunidades, tornando-se insuportável.

Se alguém tivesse o condão de fazer o destrambelhado retroceder até voltar a estar no ovo, estou certo de que todos os que o ouvem o impediam de ser chocado. Melhor ainda, penso que surgiriam os adeptos dos que o estatelariam no chão e procederiam como Pombal, salgando o solo, garantindo que o malvado galaró não deixaria semente.

Por mim, que não advogo soluções tão radicais, pagar-lhe-ia uma operação estética que lhe reimplantasse os ditos e fizesse com que ele abandonasse o estatuto de “castrati” desafinado.


Jorge C. Chora

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

VÓVÓ

        

A vóvó está na cozinha
a fazer o almoço e a
adiantar o jantar.
Onde está o vôvô?
No quarto a fazer ó ó
e a ressonar.

Na cozinha faz a sopa,
tempera o peixe,
corta a carne,
prepara a fruta e o doce,
 e como tem
o outro braço livre,
segura a neta ao colo.
Onde está o vôvô?
No quarto a fazer ó ó
e a ressonar.

São horas de acordar vôvô,
com amor e suavidade,
atirando beijos para o ar,
como só vóvó sabe,
com sonoros chuac…
chuac…chuac

E quando vôvô acorda
logo pergunta:
O que há para jantar querida vóvó?
Doce de ressono
e bife de ó ó
querido vôvô.
E logo a seguir
serve-lhe um prato
delicioso e a transbordar.

À noite tudo sossega
e vóvó pode finalmente
ter paz para trabalhar
nas suas investigações.
E vôvô?
No quarto a fazer ó ó
e a ressonar.
De vez em quando acorda
e pergunta:
Quando é que vens deitar-te doce vóvó?


Jorge C. Chora

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

E SE LESSE AOS MAIS PEQUENOS?/O LOBO TREME-TREME


Com a sua voz rouca e de fazer arrepiar, mostrava a sua boa disposição, cantarolando esperançado:

- A seguir a uma, irá outra, ovelhas não me faltarão e fartar-me-ei, por mais alambazado que eu possa ser. Elas farão fila para que eu me possa saciar, só temo que me possa fartar…

E o grande lobo Treme-Treme caminhava dançando até ao local onde espreitava o enorme, fértil e verdejante vale, onde nem um rio faltava. Os olhos abriam-se-lhe de cobiça e salivava ao ver as inúmeras ovelhas que lá pastavam.

“Mas eu nunca, mas nunca, me poderei fartar” pensava, tremendo de ansiedade, antecipando o dia em que iria ferrar o dente naquela tenra carne.

Sabia que os rebanhos ali presentes eram constituídos por dez famílias e obedeciam aos dez carneiros mais velhos de cada uma delas.

Raro era o dia em que não pensava no modo de ficar com essas terras e alimentar-se à custa do rebanho.

Decidiu arranjar um modo de fazer amizade com os chefes. A oportunidade surgiu quando um dos cordeirinhos escapou à vigilância dos pais e saiu do vale. Apressou-se a segui-lo e a recuperá-lo. Guardou-o durante dois dias e ao terceiro, apresentou-se no vale.

Os dez chefes, logo que o viram, fizeram um círculo amplo, baixaram as cabeças e apontaram-lhe os grandes cornos, de forma a cercá-lo e a fazer-lhe frente.

- Venho em paz. Trago-vos um membro da vossa família que encontrei perdido na floresta…

Um dos carneiros, o que parecia ter maior ascendente no grupo, aproximou-se, acolheu os recém-chegados e enquanto agradecia ao lobo a sua acção, enviou o pequeno para ao pé da mãe que aliás, já acorria aos balidos da sua cria.

Todas as semanas o visitante trazia uma cria tresmalhada e o rebanho habituou-se a vê-lo como o seu protector.

 O lobo resistia aos seus impulsos. Nesse dia esteve quase a sucumbir-lhes, chegando a abocanhar o tenro cordeiro que ia devolver ao lar. Só conseguiu dominar-se ao pensar que não estava longe o dia em que os poderia comer até saciar-se.

Durante as visitas, ia tomando conhecimento dos pastos mais ricos e perguntando ao carneiro
mais importante:

-É evidente que esses pastos são seus, não é verdade?

E o carneiro respondia-lhe que não e apontava os que pertenciam à família, bem mais pobres do que os outros
.
-Como é que isso é possível coordenador-chefe? Isso revela falta de respeito! Os outros é que têm o que deveria ser seu por direito?

Sempre que estava com o coordenador insinuava a ideia, repetia-a e pedia desculpa de a repetir.

Aos poucos, em relação aos outros nove, foi levantando a suspeita de que o coordenador se achava no direito de ter as melhores terras, porque era, simplesmente, o que mandava.

Em breve reinou a discórdia. Estabeleceram-se alianças com o lobo que as efectuou, em segredo, com todos eles. Foi marcado um dia para que cada um deles se impusesse aos outros, julgando todos poder contar com o lobo Treme-Treme como aliado.

Teve o Treme-Treme o cuidado de os avisar individualmente de que não estaria presente no começo das hostilidades, para que o adversário fosse depois apanhado de surpresa e mais depressa vencido.
À hora certa, desencadeou-se um combate de todos contra todos, que resultou na morte dos dez chefes.

Ainda dois dos chefes se encontravam moribundos, quando o Treme-Treme fez a sua aparição.

Logo ali devorou dois cordeiros, tendo os dez familiares que o acompanhavam comido um cada um. Seguiu-se de imediato a distribuição das terras e do rebanho pelos membros da alcateia. O Treme-Treme enunciou as novas regras para o seu grupo, tendo o cuidado de os avisar de que não deveriam comer as reprodutoras nem todas as crias de cada ninhada, sob pena de matarem a sua fonte de alimentos.

O Treme-Treme deixou de se chamar assim porque daí em diante nunca mais passou fome.
Nem ele nem o resto da alcateia.


Jorge C. Chora