segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

O SACRIFÍCIO DOS SAPATOS APERTADOS



A senhora arrasta-se, por assim dizer. Pernas e pés, só por mero acaso lhe obedecem.

-E pensar eu que com estas e com estes-  e aponta para as pernas e pés - ia a todo o lado, descalça ou calçada, conforme me deixassem ou melhor, me autorizassem…

Fala para quem está ao pé. Faltam-lhe as forças. Devagar e em voz muito baixa, desfia o rosário para quem a ouve ou finge ouvi-la. Embora idosa, sente-se que a senhora está sobretudo cansada.
Aproveita o facto de se ter queixado dos pés e recorda a história que tem em mente, lá do seu Alentejo:

- Houve um dia um baile lá na minha terra. Resolvi ir, mas não podia comparecer descalça. O único par que tinha apertava-me de tal modo que era já um suplício pensar em usá-los. Ainda por cima estavam todos molhados, devido à chuva que tinham apanhado.  Foi necessário secá-los ao calor da lareira. Ficaram duros, muito duros, mas nada de alargarem: encarquilharam-se. À força, consegui calçá-los e dirigi-me ao baile.

-Então aí é que se fartou de dançar… - arrisquei.

-Qual quê…a minha mãe passou ocasionalmente pelo local, viu-me e mandou-me ir para casa.

-Então todo o esforço foi inútil?

-Não…pelo contrário…

Nesse momento fiquei confuso. Dores nos pés, regresso a casa sem usufruir o momento e tinha valido a pena?

-Sim…foi lá que vi, o homem que viria a ser o meu marido! Não dancei, mas ficou debaixo de olho…

É caso para se dizer que desejo de alentejana é só um querer adiado, à espera de ser concretizado. Bem concretizado, digo eu, que ainda conheci o felizardo-catrapiscado.


Jorge C. Chora

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

O SENHOR MARQUÊS/CRIANÇAS



Era uma vez um marquês
que adorava peúgas de xadrez,
 desprezava os camponeses,
 era muito pouco cortês,
e senhor de grande desfaçatez.

Por mérito e honradez,
ao título de senhor fez jus,
o filho do camponês,
o que o marquês nunca fez,
por falta de qualidade e lucidez.


Jorge C. Chora

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

A REACÇÃO DA CAETANA



Caetana, a minha pequena neta, tem tanto de anjo como de pequeno demónio.
Mexe-se o dia inteiro e só se cala quando tem a boca cheia, de comida ou de frases que se atropelaram e ficaram retidas, à espera de vez para saírem.

Há uma semana, a avó afadigava-se, sem sucesso, para lhe mudar a fralda. Em cima da cama, saltava e esperneava furiosa, pois não queria mudá-la.

-Ó Caetana, tu és marota… -dizia-lhe a avó.

Sacudiu os caracóis louros, aborrecida com a cantilena, os seus olhos verdes a faiscarem, respondeu prontamente:

-Não…não “avójinha”… a Caetana é fofinha…

E não sossegou enquanto a avó não disse, de modo convincente:

-A Caetana é fofinha…muito, muito fofinha…

E aí a doce Caetana, pactuou:

-Um beijo avó …

  A avó, enquanto a foi beijando, ela foi repetindo:

-A Caetana é fofinha…


Jorge C. Chora

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

NINHO


De norte a sul,
uma troca de olhares,
um afago na alma
e um beijo na mão,
tecem um ninho
entre quem se quer bem,
com os fios do cuidado
de quem muito bem se quer.


Jorge C, Chora

domingo, 19 de novembro de 2017

A PALMADA DO TROGLODITA



No início da década de sessenta, tinha eu acabado de fazer 10 anos, viajei sozinho entre a Beira(Moçambique) e Lisboa.

A viagem durou uma imensidade de horas, até porque aterrámos em diversos aeroportos antes de chegarmos ao destino. Embora estivesse habituado a andar de avião, pois nas férias voava entre a Beira e Lourenço Marques, foi a primeira vez que andei no “Super Constellation”. Este modelo da TAP, era um quadrimotor, bem maior do que os “Dakotas”, mais silencioso do que este, embora também algo ruidoso.

Um tio foi buscar-me e levou-me para casa de uma tia avó, na Estrela. As novidades não cessavam. O bairro espantou-me. Nunca tinha visto casas tão antigas e ruas tão estreitas. O cheiro a sardinha assada e a peixe frito, sentia-se um pouco por todo o lado. Ambientei-me rapidamente.

A família incentivou-me a conhecer o local e, principalmente, o Jardim da Estrela, já que era ao lado da rua onde estava. Aproveitei e fui. Gostei e senti-me em casa ao ver alguns pequenos relvados.
Deitei-me de barriga para baixo num dos relvados, usufruindo a tranquilidade existente. De repente senti uma dor numa perna, semelhante a um súbito escaldão. Levantei-me num pulo sem perceber o que estava a acontecer. À minha frente estava um homem que me tinha dado uma enorme palmada na perna nua, pois estava de calções, e me disse:

-O relvado é para descansar?

Revoltado e meio aparvalhado com o sucedido, ainda olhei para o chão à procura de algo com que me pudesse defender, mas o homem desapareceu. Era um guarda do Jardim!

Acabrunhado, ao chegar a casa, explicaram-me que os relvados, serviam só para descansar, não o corpo, mas os olhos e reforçavam:

-Só os olhos, meu menino!

Era assim naquela época.


Jorge C. Chora

sábado, 18 de novembro de 2017

A FEBRE DA CAETANA



A minha neta Caetana gosta mais de colo do que eu de chocolate. Tem vinte e dois meses e saltita, como é seu hábito, em redor da avó, sempre à procura daquilo que sabemos. Há dias, procurou chamá-la à atenção, pois ela estava ocupada momentaneamente a arrumar já não sei bem o quê:
-Avó…avozinha, tenho febre…
-Tens febre?
-Sim…sim… -respondeu em tom pesaroso.
-Tens febre onde? -perguntou com voz de mimo a avó.
-Aqui…no “cajaco” - e apontava para o lado direito do seu casaquinho cor-de-rosa, recheado de pequenas estrelas, com um ar muito sério.
E a avó pegou-a ao colo e passado um bocado perguntou-lhe:
-Ainda tens febre?
-Não…já passou avozinha.
Quem sabe, sabe !


Jorge C. Chora

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

UM BEIJO A MEU GOSTO



A poesia é um
vai-te embora sufoco,
um beijo a meu gosto,
um agasalho de inverno,
uma brisa de verão,
a correria de uma ema,
um mergulho em seios
turgidos de leite e liberdade.



Jorge C. Chora