sábado, 16 de novembro de 2019

D'OIRO FEITA


D’oiro são,
tuas mãos e pensar,
ricos tesouros serão,
se d´oiro
for o teu coração;
serás então,
mulher inteira,
ouro de lei,
um ser de excepção.

Jorge C. Chora
16/11/19

terça-feira, 12 de novembro de 2019

DADO E ARREGAÇADO



Por entre mesas e cadeiras, o homem ziguezagueava com uma perícia inigualável ao desviar-se dos obstáculos. O motivo era só um: pedinchar tabaco ou uma moedinha.
Não falhava um dia que fosse e pedia sempre do mesmo modo:

- Dá-me um cigarrinho?

- Mas eu já te dei ontem! E para além disso, raramente te vejo a fumar! -respondiam alguns.
A resposta estava engatilhada:

-Amanhã juro que não lhe peço…  não me vê a fumar porque eu poupo para dar para o dia inteiro.

Caso a lengalenga não pegasse, saltava outro pedido:

-Então vá…uma moedinha para tomar um café…

Feita a colheita, desaparecia e ninguém sabia o rumo que tomava. Um belo dia, uma vítima diária dos seus peditórios, encontrou-o numa cidade próxima, numa rua esconsa e de má fama. Estava sentado num caixote, tendo a seu lado, no chão, cigarros expostos em cima de um pano. Encostado à parede, havia um cartaz de cartão canelado com o seguinte aviso:

                                        CIGARROS AVULSO. 0,40 A UNIDADE

A um cliente que pretendia comprar-lhe um cigarro por 10 cêntimos, a resposta foi imediata:

- Queres dado e arregaçado? Isto não cai do céu!

E quando perguntaram, a quem contou a cena, o que fazia naquela rua mal-afamada, apressou-se a justificar:

-Fui dar-lhe uma moedinha, pois hoje ele não foi ao café!

Jorge C. Chora
12/11/19

sábado, 9 de novembro de 2019

A SENHORA DO Ó



Ó é espanto,
vogal e encanto,
vida renovada,
fruto abençoado do ventre de Maria,
gravidez amada,
por todos testemunhada,
recebida com festejos e ós de alegria.

Jorge C. Chora

      9/11/19

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

À MULHER-SEMPRE-MENINA




Para ti mulher,       
outrora menina,
se não deixaste
de te maravilhar
e escutar o Mundo,
nem perdeste a capacidade
dele te enamorar,
mereces chamar-te
a sempre-mulher-menina
e ser amada tal qual como és.

Jorge C. Chora
     6/11/19

terça-feira, 5 de novembro de 2019

A CAIXA DE PARAFUSOS




Sentava-se todos os dias, à esquina do jardim, num banco de ferro forjado que ali existia. Ninguém sabia ao certo desde quando ele para ali fora. As pessoas tinham a sensação de o terem sempre visto naquele local.
Chegava por volta das oito da manhã e trazia uma caixa de madeira que depositava no chão, à sua frente.
Raro era o transeunte que não conhecesse. Sabia-lhes os nomes, as profissões, a morada e os hábitos.
Após breves diálogos, mantidos com quem passava, abria por vezes a caixa, retirava um parafuso e oferecia-o ao seu interlocutor, utilizando sempre a mesma expressão:
- Desejo-lhe as melhoras…
Neste momento ofertava a prenda ao dono de um café, que se habituara a dar a mesma resposta a quem lhe perguntava se os bolos eram frescos: estão frescos, estão no frigorífico -e impingia-os já com dois e três dias de existência.
Logo a seguir, a um senhor que falava de assuntos que lhe eram desconhecidos, criticando-os como se fosse um entendido, deu-lhe dois parafusos, acrescentando um desejo:
-As duplas melhoras…
Tantas ofertas fez que um dia, alguém que tinha acabado de receber a prenda do costume, se enxofrou:
-E não se oferece a si próprio um parafuso que lhe falta?
-Claro que sim! Para onde julga que vão os parafusos que sobram ao fim do dia?

Jorge C. Chora
5/11/19

sábado, 2 de novembro de 2019

O MARINHEIRO HIRSUTO



 Um velho marinheiro tinha uma barba tão grande que lhe chegava ao peito. Ela estava tão branca que se confundia com um floco de neve.
Estava sempre rodeado de alguns filhos, netos, bisnetos e outros que se diziam pertencentes à família, embora ele achasse que não os conhecia de nenhures. Tratava-os, no entanto, todos bem
Adorava contar histórias, umas verdadeiras e outras nem tanto. Numa manhã nublada, bem rodeado como de costume, um ébrio malcheiroso, cambaleando, aproximou-se do grupo que o rodeava, tendo estes tentado afastá-lo.
O marinheiro pediu-lhes que o deixassem aproximar-se. Mal o intruso deles se acercou, perguntou, de um modo agressivo e insolente:

-Ó pá, porque usas essa barba até ao peito? Ela serve para quê?

De modo paciente, o velho marinheiro retorquiu-lhe:

-Amigo, esta barba que aqui vês, já me salvou a vida e aos meus companheiros também, por diversas vezes. Em dias de temporal, os cabos de atracação do navio ao cais perdiam-se, e eu tinha de lançar as minhas barbas para os substituir…

E o alcoolizado, oscilando, replicou, mastigando as palavras:

-Seu aldrabão das dúzias, como é que as tuas barbas, tão pequenas. substituíam os cabos do cais!?

E a criançada que cercava o velho marinheiro, gritou, abespinhada e em uníssono:

-Não vês que as suas barbas, quando era novo, eram bem maiores e chegavam ao cais com a maior facilidade?

Jorge C. Chora
2/11/19

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

O DESEJO



O desejo é um rodopiar
semelhante ao das abelhas
em torno das flores,
um debicar constante,
uma sofreguidão pelo mel dos lábios
e do perfume do corpo,
um arfar repleto da vontade do outro,
um ansiar incondicional,
uma intolerância à ausência,
um querer sempre mais…
uma eterna lua de mel.

Jorge C. Chora
31/10/19