quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

O DIA DAS BF'S



Deixou cair, sem querer, um pequeno papel, ao circular no meio das colegas da empresa. Uma delas deu com ele, apanhou-o e leu-o. Rezava assim: AMANHÃ É DIA DE BF.

O papel passou de secretária em secretária e a interpretação unânime foi a de que a sigla “bf” trazia água no bico.

Olharam a colega mais velha de viés, e os juízos de valor, tendo em conta a sua idade menos jovem e o facto de nunca terem visto qualquer comportamento menos próprio, materializaram-se numa avaliação condenatória: Qual santa qual carapuça, uma "diaba" de alto lá com ela!

Espevitada a curiosidade, no dia seguinte foi designada uma colega para a seguir. À hora do almoço, cumprindo a missão para que fora nomeada, a senhora foi vigiada de perto e sem levantar suspeitas. Entrou e saiu de vários estabelecimentos e trouxe um pequeno saco, com que entrou num museu e tornou a sair por outra porta.

A detective perdeu-a. À porta de um restaurante, esperava pela velha senhora um amigo de infância que com ela partilhava o gosto pela bf’s. Após os cumprimentos da praxe e da senhora lhe ter dado a encomenda por ele feita, entraram e o amigo perguntou à cozinheira Aurora:

-O almoço está pronto?

-Claro, as batatas acabaram de ser fritas!

-Sabe que adoramos as suas bf’s?

-Claro que sei… respondeu-lhe Aurora.

A seguir ao almoço, a detective de serviço, relatou o fracasso da sua missão, concluindo: ela é sabida de mais para se deixar apanhar!

Jorge C. Chora
     4/12/19

sábado, 30 de novembro de 2019

JUSTIÇA CANINA



O casal sentou-se a ler os jornais do dia, numa confortável sala de uma junta de freguesia. Ela optou pela poltrona e ele sentou-se, a seu lado, mas num sofá de dois lugares.
O sossego e o ambiente de silêncio não opressivo, criavam um bem-estar natural, adverso a snobismos e propício ao que o casal procurava: passar algum tempo de qualidade antes do almoço.
Vozes altas, num diálogo audível em todo o espaço, rasgaram o silêncio e impingiram a todos os presentes, assuntos que, à partida, nada lhes interessavam.
No sofá de dois lugares, atirou-se para o espaço vago, um homem de meia idade, bem vestido e trombudo, sem dizer sequer “ bom dia”. Desfolhou revistas e jornais, afivelando uma máscara seráfica, até que deixou cair uma série de folhas da revista que lia ou fingia ler.
As folhas espalharam-se no chão. A senhora levantou-se, apanhou-as e deu-lhas. O homem continuou a ler, não as recolheu, nem sequer se dignou a agradecer o gesto. A senhora pousou as folhas no sofá, no lugar do seu marido que tinha ido arrumar os jornais.
À saída, quando o homúnculo acabara de transpor as portas, um cão sarnento rosnou-lhe, alçou a perna e urinou-lhe as calças enquanto ele, trémulo, lhe dizia:
-“Tadinho”… “tadinho”…estavas cheio de vontade de fazer chichi…
E o cão sarnento, continuou a sua tarefa, até lhe deixar as calças a pingar.
E a senhora, contendo o riso, consolou-o:
-Não se envergonhe, a incontinência urinária pode atingir qualquer um…

Jorge C. Chora

30/11/19

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

AMIGO VENTO



O vento é meu amigo,
ao ouvido me fez chegar
o amor por ela declarado.
Pedi-lhe o favor,
da declaração lhe retribuir,
e o vento assim fez:
soprou-lhe numa carícia,
todo o meu amor
e a resposta, tornou a dá-la o vento
num pequeno tufão,
trazendo-a para meus braços,
para eu nunca, mas nunca mais
a soltar.
O vento é meu amigo,
pois ao ouvido me fez chegar,
 o amor a meus braços.

Jorge C. Chora
28/11/19

terça-feira, 26 de novembro de 2019

MANEQUIM



Extasio-me ao olhar-te,
derrapam-me os olhos
na curva das tuas ancas,
sinto vertigens
ao ver-te mexer
as tuas longas pernas,
perco-me nas maçãs
do teu rosto,
na sensualidade dos teus gestos.
Imagino-me um Pavarotti cantando,
não a Mannon, mas a ti, deusa intemporal:
“DONNA NON VIDI MAI, SIMILE A QUESTA” e
eis senão quando, já desperto,
caio em mim e reparo,
na ausência de cheiro e sabor
atributos de uma simples manequim.

Jorge C. Chora
26/11/19

sábado, 23 de novembro de 2019

O TEU BEIJAR



O teu beijar é
uma ascensão ao céu,
cada beijo um degrau,
tomara nunca lá chegar,
trepar sem nunca o alcançar,
saborear o teu beijar,
usufruir o céu
ainda sem o alcançar,
trepar, trepar,
gozá-lo mesmo
antes de lá chegar.

Jorge C. Chora
23/11/19

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

A ANDORINHA QUE NUNCA QUIS DEIXAR DE VOAR


             
 A andorinha deu por concluído o ninho mas abandonou-o dois dias depois. Perguntaram-lhe porque abandonava a casa, após ter tido tanto trabalho.

-Porque me informaram de que aqui não é permitido voar!

-Mas … e o trabalho que tiveste a construir a tua casa! Aqui não te falta nada, do sol ao alimento…

E a andorinha respondeu:

-Como poderia eu ensinar os meus futuros filhos a voar?

-De nada disso precisas. Dão-te tudo! -exclamaram os pássaros vizinhos.

- E no dia em que te retirarem o que te deram?

-Isso nunca acontecerá… - disseram um pouco agastados os presentes.

-Pois é… se já vos retiraram a liberdade de voar e vocês deixaram, tirar-vos-ão tudo o que quiserem …
-Então voaremos para outro local… - responderam de imediato.

-Como, se ninguém sabe voar?

Jorge C. Chora 

21/11/19

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

D. PRECIOSA E A SUA ETERNA DOR DE DENTES



De boina e bengala, Salvador Ferreira, vai debitando histórias e quadras políticas d’outrora, encostado ao balcão do café de Artur Vaz, na Amadora.
Nasceu numa aldeia, gosta e anseia há muito tornar a viver numa. Recorda figuras de antanho, quando ainda era menino e veio-lhe à memória a veneranda figura de D. Preciosa. Sempre de preto vestida, embrulhada em lenços e xailes, tinha a particularidade de segurar, em permanência, uma ponta do mesmo em frente à boca.
Condoía-se o jovem Salvador, da alegada e eterna dor de dentes apregoada por D. Preciosa.
Cresceu e um dia, seu pai, desvendou o verdadeiro segredo da ponta do xaile:

-Qual dor de dentes! Ela é devota do tinto! Aquilo é para não tresandar a vinho, para ocultar o bafo…

E a desculpa piedosa e conveniente da dor de dentes esfumou-se, não tendo Salvador notícia sobre a estratégias adoptadas pela fã do pipo, para continuar a usufruir do néctar sem alegar a sua eterna dor…

Coisas de terras pequenas…tudo se sabe, mesmo aquilo que não se quer que se saiba! Nem uma dor de dentes se podia alegar em paz e sossego!

Jorge C. Chora
19/11/19