terça-feira, 2 de junho de 2020

OS TROCA-TINTAS



Sentado à mesa do café, deitava contas à vida. O futuro nada de bom agourava. Olhou através da vidraça da loja do chinês e viu quatro indivíduos a pagarem uma série de bonecos e bugigangas.
Ao saírem, os quatro vieram direitos a si e perguntaram-lhe:

-Quer ganhar 100 euros?

-Não digo que não…mas, assim do pé para a mão?

-Estamos a fazer um estudo sobre o modo como as pessoas decidem…

-E…

-Só tem de participar num jogo cujo objectivo é avaliar o seu poder de decisão…terá de pagar inicialmente 20 euros…

-Pagar ou receber?

-É que para além do dinheiro, poderá ganhar vários prémios! Vai entrar numa sala onde existem vários objectos numa mesa e poderá recolher os que quiser, desde que caibam num saco que lhe vamos fornecer. Terá de o fazer em dois minutos. Se conseguir, poderá receber não só o que recolheu, mas também os cem euros.

Renato, assim se chamava o homem, aceitou com a condição de não pagar os 20 euros.

-Mas isso é essencial para o nosso estudo…

Renato deu uma grande gargalhada. Os quatro acharam estranha a reacção e perguntaram-lhe a razão de ser da gargalhada.

-Eu explico, se me pagarem 20 euros… - e continuou a rir-se. Tanto se riu que os quatro lhe deram o dinheiro pedido.

-E agora diz-nos porque se ri com tanto gosto?

Renato cruzou a perna, recostou-se na cadeira e perguntou-lhes:
-Quanto é que pagaram pelo truque?

-O truque?

-Sim, vendi-o ao Filipe do Martim Moniz, por 50 euros já há uns meses! Os bonecos não valem quase nada e jamais se ganha o prémio, porque vocês aparecem antes e eles nunca executam a tarefa a preceito… Ficam sem os 20 euros.

-Quanto é que pagaram ao Filipe?

-A custo confessaram:500 euros!

Renato não se conteve:

-Grande ladrão!

 Jorge C. Chora
     2/6/2020


sábado, 30 de maio de 2020

AS ONDAS DO MAR


Murmuram-me as ondas do mar,
a medo, um pedido,
como se fosse um segredo,
enrolando-se devagar,
a esconderem-se envergonhadas,
com o que me iam dizer:
-Amigo do mar e das ondas,
sabes quão bom é nadar,
sem porcarias encontrar.
Nunca te vimos sujar,
ao mar deitar o que não queres,
exceto daquela vez, faz dez anos.
Foi uma garrafa de plástico
da coca-cola, que ainda aí está,
mesmo ao teu lado,
depois de ter dado a volta
ao mundo e aqui regressar.
Pedi desculpa, apanhei-a
 e fui deitá-la ao sítio certo.
Ao retornar ao mar,
a onda abraçou-me,
espumou de alegria,
banhou-me o corpo,
lavou-me a alma e disse-me:
- Muito obrigada.
E à beira-mar,
um bando de gaivotas,
à volta de uma irmã morta
por ter comido plástico,
também gritou:
- Muito obrigado.
Jorge C. Chora
30/5/2020

quarta-feira, 27 de maio de 2020

O PARAÍSO



Se cada um sonha com o seu,
eu encontrei o meu:
tem pernas, cabeça e corpo,
às vezes é mel e outras fel,
mas tem olhos onde habita a ternura,
lábios onde moram beijos,
apoia-me no que digo e penso,
sem ser uma sim-senhor.
Cada um sonha com o paraíso,
tu com o teu,
ele com o dele.
Eu já encontrei o meu:
tem pernas, cabeça e corpo
Às vezes é mel e outras fel.

Jorge C. Chora
13/5/2020


domingo, 24 de maio de 2020

SOMOS UM SÓ!



Se eu te tenho em mim
e tu a mim me tens,
eu sou tu
e tu és eu.
Falamos a uma só voz,
pois somos um só,
possuímo- nos um ao outro,
estamos ambos,
habitando o outro.
Sem negar o tu e o eu,
embora sejamos as
metades de um só,
eu sou tu
e tu és eu.


Jorge C. Chora

24/5/2020

sexta-feira, 22 de maio de 2020

OS AÇOITES



Raro era o dia em que não ia ver o jaguar ao stand. Mirava-o e remirava-o. Ficava extasiado. Adorava-lhe as linhas, as jantes, a cor…

Um dia conseguiu comprá-lo. Foi passear ao Estoril e a Cascais e até comeu um sorvete na Santini.
Agora, todos os sábados de manhã, bem cedo, Manuel sai de casa, transportando um cordão de seda, com alguns nós. Acerca-se, pé ante pé, da sua luxuosa e potente viatura. Olha em redor e assegura-se de que não há vivalma. Certo de que ninguém o observa, zurze o bólide com toda a gana durante alguns minutos.

Enquanto dura a cena, murmura: toma lambão…nem dinheiro me deixas para andar contigo… ainda mal te paguei e já vales tão pouco…eu digo-te.
Em seguida, lava-o e limpa-o com extremo cuidado, por dentro e por fora. Terminada a limpeza, recolhe-se amaldiçoando o dia em que comprou aquele monstro de milhares de euros.

Um destes dias, um jovem vizinho elogiou-lhe a ”bomba”. Manuel, logo ali propôs vender-lho, em prestações suaves, durante um prazo dilatado. O jovem agradeceu, mas declinou a oferta.

Uma semana após este episódio, Manuel, para além do sábado, passou a açoitar o “malvado” também ao domingo e pensa começar a fazê-lo, dia sim dia não, agora que está confinado.

    Jorge C. Chora
In “JORNAL DA AMADORA”
    DE 27/2/ 1992
Adaptado em 21/5/2020

quarta-feira, 20 de maio de 2020

O MONSTRO VOADOR OU O DIA EM QUE O MAR MUDOU DE COR/MEMÓRIAS DA BEIRA DE HÁ MAIS DE CINQUENTA ANOS




Seriamos uns seis a cavalgar as ondas, montados numa grande câmara de ar de trator. De repente, alguém lançou um grito estridente e aflito:
- Cuidado…saiam depressa…
Só não gelámos por mero acaso. Vindo do fundo do mar, surgiu um enorme monstro cornudo, com asas, que voava e nadava, para logo de seguida voltar a voar. E o estupor vinha ao nosso encontro, na nossa direcção, muito próximo.
Ainda hoje não acredito na velocidade com que saímos do mar.
O monstro só podia ser surdo pois se não fosse, teria sido morto a grito, tantos foram os berros com que o mimoseámos. E ele, moita, continuava a voar, a pousar e a nadar, com um desprezo   olímpico pelos nossos gritos de guerra acagaçados.
Um pai que tinha sido alertado, surgiu munido de artilharia adequada e deu início a uma medonha fuzilaria.  E o monstro continuava a nadar, a voar e a afastar-se aos poucos, para alto mar.
Tenho a impressão, embora não garanta, que no sítio onde tínhamos saído à pressa, o mar se tinha tornado acastanhado. Talvez tal facto, se tivesse ficado a dever, não a descargas intestinais, mas às algas que o monstro tinha para lá deslocado. Decididamente eram algas. Nunca discutimos o acontecimento, portanto, ele pura e simplesmente nunca existiu.
Esgotados pelas emoções, nunca nenhum de nós confessou ter tido pesadelos com o monstro voador. Todos dormimos o sono de heróis, esquecidos do acastanhado do mar.
O monstro era somente uma enorme jamanta, que nenhum de nós tinha jamais visto e veio a aparecer morta, na praia do Régulo Luís.
Isto passou-se há mais de cinquenta anos, na “minha” praia do Macúti, a três ou quatro paredões do farol, na cidade da Beira, em Moçambique, tirando, claro, os exageros da pintura e as descargas intestinais que, para todos os efeitos, nunca existiram.

Jorge C. Chora
20/5/2020

segunda-feira, 18 de maio de 2020

O MELHOR PESCADOR


“Ora Porra” era o dono da taberna onde os pescadores discutiam, quase todos os dias o mesmo assunto, logo após o futebol: quem era o melhor pescador local.
À terceira garrafa de vinho, azedavam as discussões, e antecipando o que ia acontecer, o taberneiro gritava:

-Ora porra…ora porra…acalmem-se…

Não lhe servia de nada. Dos empurrões ao chega-te para lá mais sério, era um instante. Olhos pisados e cocurutos cheios de galos, eram o pão nosso de cada dia. Seguia-se a ida à esquadra.
-O chefe de posto, lançava as mãos à cabeça e descompunha-os:

-Homessa! Pescadores uma fava! Zaragateiros, pugilistas de treta …isso é o que vocês são. Toca a andar! -  e abria-lhes a cela onde todos ficavam a curtir as dores e as bebedeiras.

O “Ora Porra” decidiu acabar de vez com aquela moscambilha. Foi ter com o velho Mestre Zé e pediu-lhe:

- Mestre, vossemecê  é entendido na poda e preciso que anuncie, de uma vez por todas, quem é o melhor marinheiro aqui da póvoa…

O velho marinheiro franziu o sobrolho e disse:

-Nada me custa fazer o que me pede, mas fique a saber que isso nada resolve…

“Ora Porra” deu uma gargalhada e respondeu:

-Não me … bonita maneira de me mandar àquela parte!

Mestre Zé negou estar a fugir ao pedido e prometeu, mesmo nesse dia, dar a sua abalizada opinião sobre o assunto.
À hora marcada, já iniciadas as discussões, apareceu Mestre Zé que falou assim:

-Conheço-vos de ginjeira. Alguns de vocês andaram ao meu colo…

Fez-se silêncio. Pousaram os copos sem ruído, e prepararam-se para escutar o decano dos pescadores.

-O António é o melhor a escolher o isco; o João, não há igual a remendar redes; o Manuel é o melhor a trabalhar com os cabos…

-Sim…sim… mas quem é o melhor pescador?

Mestre Zé pigarreou, esperou um bocado e falou:

-O melhor, o melhor dos melhores, é o jovem Jorge … entrou ontem ao serviço e já pescou uma linda sereia chamada Sara, que é sua mulher…

A risota foi geral. Minutos depois as discussões voltaram. Ora Porra, pressentindo o que lá  vinha gritou:

-Ora porra…ora porra…

Se por acaso for pescador e tiver a pretensão de ser o melhor,já sabe,compareça na tasca do "Ora Porra".

     Jorge C. Chora      

       18/5/2020