sábado, 5 de março de 2022

JONAS

Jonas era filho de uma empregada doméstica que trabalhava numa casa abastada. Era filho de um dos filhos dos patrões, embora não soubesse ao certo de quem.

Quando Jonas nasceu, a mãe teve a certeza de que ele não teria dificuldades em singrar na vida: vinha dotado de um abono de família de alto lá com ele. Ele não saia aos pais, fosse ele de que “menino” da casa fosse.

Emily, assim era chamada em casa, embora o verdadeiro nome fosse Emília, era adorada por todos, não só por ser uma excelente empregada, mas também pelo que já sabem.

A Jonas nada faltou. Foi educado nas melhoras escolas e foi sempre tratado como alguém da casa. Emily, convencera cada um dos putativos pais, todos um bocado mais novos do que ela, de que eles eram, em simultâneo, os três verdadeiros progenitores, apontando-lhes pormenores identificativos de cada um deles. Jonas teve toda a vida três pais.

Emily, sem nunca ter casado, teve sempre três maridos dedicados, pois todos permaneceram solteiros toda a vida.

Quanto a Jonas, tornou-se num agrónomo e num vinicultor de renome, pois na grande casa onde fora estagiar, a filha única dos proprietários, não descansou enquanto não se casou com ele. Lutou com todas as armas contra as inúmeras rivais que ia descobrindo, algumas delas altas funcionárias da sua própria empresa.

Entretanto, Emily, continuava na velha casa onde trabalhara, embora a família estivesse na bancarrota e vivesse toda à sua custa e do que Jonas lhe enviava todos os meses. Emily afeiçoara-se aos três maridos e não queria outra vida.

Jonas cuidou dos três pais, tornou-os representantes dos vinhos das suas empresas, e Emilty conservou sempre os seus três maridos.

Françoise, a esposa francesa, achava graça, ter três sogros, uma sogra com três maridos e ter três filhos do seu mui adorado e abonado Jonas.

 

     Jorge C. Chora

      5/03/2022

quarta-feira, 2 de março de 2022

O QUE É ISTO?

 

Numa Europa

de direitos humanos e animais,

assistir-se ao martírio de jovens,

a uma epidemia de órfãos,

ao desespero de jovens viúvas,

à morte angustiada de idosos,

já sem motivo para viverem,

ao verem-se sem filhos, sem netos e sem futuro,

nada disto é normal e muito menos aceitável.

É isto que está a acontecer sob a batuta

Putinesca de um pequeno Czar,

algoz fora de tempo e da realidade,

pronto a destruir o Planeta

com a ameaça de recorrer ao nuclear.

Deixou o país deste pequeno Czar

de ter instituições psiquiátricas?

       Jorge C. Chora

     2/03/2022

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

AS PIRANHAS

 

De longe surgiu

um estranho ser,

vindo das terras de Cabral,

veio ao beija-mão

ao pequeno Czar,

sem Cabral saber.

Trazia para oferecer

uma barrica de piranhas.

Julgava o povo,

ser destinada ao banho

do pequeno Czar!

Afinal era para banhar

os opositores, fossem russos

ou ucranianos!

Pena foi não ter o estranho ser,

ter sido convidado a experimentar

tão delicioso e delicado banho.

 

      JORGE C. CHORA

         28/02/2022

domingo, 27 de fevereiro de 2022

DOMARO VENTO


O vento é caprichoso

vem quando quer,

e quando preciso,

nem me liga sequer.

Mas quando vem,

sempre me convém.

Subo ao terraço

estendo a esteira,

tiro a roupa

e o desenvergonhado,

faz-me festas onde quero!

E aí, meu Deus, o vento,

esse arrogante, o pode tudo,

é domado e aproveitado,

mesmo sem ele querer,

como meu massagista particular.

    Jorge C. Chora

     27/02/2022

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

O PEQUENO CZAR

 

Dorme o pequeno Czar

numa cama carunchosa

e de pés de barro,

rodeado de fantoches

por si controlados,

governando povos,

forçados a ser vassalos.

Tem-nos acorrentados,

esperando revoltas

a todo o momento,

decretando passaportes

para a morte, aos soldadinhos

e aos opositores ainda sem idade

para saberem amar,

privados das delícias do amor,

impedidos de ascender ao céu terreal.

Triste realidade, numa Europa,

de regresso à barbárie, aos joguinhos

do agora mando eu, depois

nem penses em mandares tu,

onde a História nunca é passado

e está sempre e cada vez mais presente,

e as elites não aprendem nada,

e os povos continuam a sofrer tudo.

         Jorge C. Chora

       25/02/2022

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

A IMPORTÂNCIA DO CASTELO


Alice achou estranho a importância dada ao castelo naquela localidade. Volta meia-volta, as pessoas diziam que tinham de ir ao castelo.

O mais curioso é que Alice, por muitos esforços que fizesse, não conseguia vislumbrar castelo nenhum.

Caía a tarde quando a pequena Joana pediu à mãe para ir com ela ao castelo.

-Outra vez? Já foste de manhã e depois do almoço!

Alice tomou atenção ao pedido. Desta vez desvendaria o mistério do castelo invisível.

Seguiu a mãe e a Joana pelos caminhos pedregosos da aldeia. Sempre a subir, por uma calçada constituída por pedras irregulares, quer na forma quer no tamanho e na altura, tropeçou a cada passo. O pior foi depois, quando deixou de haver calçada e seguiram morro acima, derrapando a todo o momento.

Joana e a mãe, ao verem a estranha atrás de si perguntaram-lhe:

- Também vai ao castelo?

-Sim quero ir, não se importam que vá convosco?

-De nada, assim fazemo-nos companhia umas às outras, não vá aparecer-nos uma alma penada, que se está a fazer tarde!

E a escalada continuou por um bom bocado mais. Chegados ao topo do morro, encontram três pessoas, dois homens e uma mulher, agachados.

Se quer vá ali atrás da moita e alivie-se. Se não tiver papel, há ali umas folhas…

Estava explicado o mistério das idas ao castelo. Mas castelo por que razão?

A mãe de Joana, após o respetivo alívio explicou-lhe:

- Dizem que aqui houve, em tempos idos um castelo dos mouros… enquanto não fizerem lá em baixo, uma casa de alívio, temos de continuar a vir aqui. Mas nem tudo é mau. Olhe, foi aqui que escolhi o meu marido…

Eis senão quando Alice vê um jovem adulto do qual não conseguiu despregar os olhos. Do lugar onde ela estava, ele não a conseguia vê-la. Achou-o maravilhoso ao lusco-fusco. Ficou encantada, mas recordou-se do fiasco do seu relacionamento anterior. Ficara hipnotizada, na altura, ao vê-lo surgir, numa noite de estúrdia estudantil, todo nu das águas do mar, como um belo ser mitológico e afinal, acabara muito mal porque era tudo menos isso.

 Resolveu conhecer este Adónis, antes de se render. Dirigiu-se -lhe, quando ele já estava composto, pediu-lhe imensa desculpa e formulou-lhe um pedido:

- Estou cheia de medo, posso pedir-lhe para depois me acompanhar até à casa onde estou alojada?

Ele olhou-a surpreso. Deu-lhe o braço e pediu-lhe que tivesse cuidado ao descer porque podia escorregar e aleijar-se.

Inconscientemente, Alice decidira ficar naquele fim de mundo. Era enfermeira e haveria onde trabalhar.

Em conversa com o seu cavaleiro andante, soube que ele era o presidente da Junta local. Referiu-lhe o seu propósito de ficar lá a viver.

- Aqui? Não lhe aconselho, embora fosse muito bom para nós todos!

Se decidir, farei o possível por lhe arranjar alojamento condigno! E uma sala na Junta para trabalhar! Mas pense bem, nem casas de banho públicas temos e a maioria das casas privadas também não! Estou a construir uma casa de alívio que só estará pronta daqui a um mês.

Alice não resistiu. Era impulsiva demais e confiou num segundo sentido que esperava estar certo desta vez:

-Gosto de si, acho-o verdadeiro e gostei ainda mais do que vi lá no castelo…

Mateus, assim se chamava o Presidente, enrubesceu, gaguejou e foi incapaz de dizer uma só palavra que fosse…

À despedida Alice beijou-o na face e disse-lhe.

-Amanhã vou ter consigo para combinarmos melhor a minha permanência…

Dez anos depois, já com três filhos, sempre que Alice se cruzava com a mãe de Joana, piscava-lhe o olho e cumprimentavam-se:

- Abençoado Castelo…

- Abençoado seja!

   

     Jorge C. Chora

       23/02/2022

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

O JARDIM DA MARIA

 

O JARDIM DA MARIA

 

Deu a florista Maria,

três rosas

à minha Maria,

por ambas se chamarem

Maria Adelaide,

gostarem de flores,

e a minha Maria

não ser florista como ela,

razão pela qual ofereceu três flores,

duas pelos nomes que têm em comum,

e a terceira pelo gosto que tive

em escolher uma Maria Adelaide.

 

              Jorge C. Chora

               22/02/22