O laranjal da Manuela, assemelha-se a um delicado jardim: dobra-se uma folha e ela fica a saber e a cheirar, a uma algarvia-mourisca.
Jorge C. Chora
16/10/2022
O laranjal da Manuela, assemelha-se a um delicado jardim: dobra-se uma folha e ela fica a saber e a cheirar, a uma algarvia-mourisca.
Jorge C. Chora
16/10/2022
Às 15 em ponto iniciava-se o jogo. O relvado estava
lamacento e caia uma chuva miudinha.
A moeda foi lançada o ar e a sorte calhou às Azúis. As
Cinzentas acataram, mais uma vez a prioridade das adversárias.
As quedas sucediam-se e algo prenunciava qualquer coisa
menos boa. Enlameadas e escorregadias,
as jogadoras empenhavam-se no jogo. Os embates davam-se segundo a segundo. Os
treinadores olharam para o relógio assim como os árbitros. Quando o árbitro
principal, após conferenciar com os auxiliares, ia dar por terminado o jogo, o
acidente deu-se:
Helena chocou com uma companheira de equipa e perdeu os
sentidos. Guida, da equipa adversária, precipitou-se para Helena, pegou nela ao
colo e correu para o gabinete mé dico.
As lágrimas corriam-lhe pelas faces. Helena continuava
desacordada e o coração de Guida batia descompassado. A velocidade com que
corria era tanta que ninguém notou as lágrimas.
Não havia médico, nem enfermeiro nem massagista. Tinham
avisado que chegavam mais tarde.
Guida era médica, mas optou pelo desporto e suspeitou da
gravidade do caso e da sua urgência. Fez-lhe uma gola Imobilizadora. Tornou a
pegar-lhe ao colo, embora tudo indicasse ser contraproducente, e correu como
uma louca para a sua enorme carrinha volvo. Enquanto a ajeitava o melhor que
podia, beijava-lhe a testa enlameada e aflorava-lhe os lábios, enquanto pedia a
todos os santinhos que a auxiliassem.
Helena começou a dar acordo de si e apercebeu-se do amor que
Guida lhe tinha.Helena apertou-lhe levemente a mão. Ela já se apercebera de uma
certa queda que tinha pela Guida, mas nunca dera nada a entender, com receio de
não ser correspondida pela aquela bela e terrível gigante.
Guida chorou todo o caminho e fez dúzias de telefonemas para
as amigas médicas que tinham sido suas alunas.
Não lhe largou a mão desde que chegou ao hospital e a testa
que estava anteriormente suja, estava limpíssima à custa dos beijos de Guida.
Helena, já safa do problema, puxou Guida para si quando não
estava ninguém na sala e beijou-a apaixonadamente.
- Deixa-me que te beije novamente Guida!
- Quantas vezes quiseres e tiveres na vontade, meu amor!
E foi assim que duas adversárias, todos os intervalos que
tinham, se escondiam num armário e se beijavam ternamente, fingindo as colegas
que não sabiam de nada!
Não houve nenhuma festa, dada pelas Azúis ou pelas
Cinzentas, em que não fossem ambas convidadas.
No dia em que foram viver juntas, foram apadrinhadas por quinze
madrinhas, tantas eram as jogadoras das duas equipas.
Jorge C. Chora
15/10/2022
L’ASSASSIN DU 21
Il tue n’importe qui,
des femmes
des nourissons
des gamins.
Je vous aime
je m’em fiche ici,
la famille, les emfants,
et des amies !
Quand será-t il mort
il demande :
laisses-moi mar plus aucune
gamins,femmes or infants,
pour morrir heureux
et les chaussures pleines de pisses !
Jorge C. Chora
13/10/2022
Passeava na
sua caleche, com um monograma gravado a ouro, com uma incrustação de espantar,
tal a riqueza de pormenores. A outra porta da caleche, em nada lhe ficava
atrás.
Os bancos
forrados a seda, eram absolutamente extasiantes. Bordados a ouro e a seda,
tinham dado trabalho a dúzias de verdadeiros artistas.
Os aros dos
rodados, pintados a ouro velho, a cada volta que davam produziam, ós de espanto
e inveja, parecendo capturar o sol para os seus rodados.
Mas o mais
curioso de tudo é que se dizia que só o turbante, valia quase o recheio do
palácio, pois era constituído por rubis e pelas mais raras pérolas quaog.
A admiração
pela figura do velho rico, raiava uma verdadeira admiração, um verdadeiro
endeusamento.
Um dia o Sr.
Chang, reconheceu o homem rico como o serviçal da casa apalaçada dos seus antepassados,
na China. Os seus serviços eram utilizados nas latrinas do palacete, para que
ele limpasse o rabo com uma esponja, como era uso na época, aos habitantes da casa. Entrou ao serviço quando era ainda
uma criança e por lá permaneceu longos anos. Tornou-se um fiel amigo do avoengo,
um serviçal de confiança, sendo bem recompensado pelos conselhos que lhe dava.
Libertado
desse serviço, foi dotado de uma considerável fortuna pelos serviços prestados.
Veio para Lisboa e no Terreiro do Paço, naquelas recuadas épocas, fazia um
vistão.
Ming, o neto
do Chang, por vã vaidade, em breve divulgou o antigo emprego a que se dedicava
o antigo empregado do seu antepassado.
Não se
preocupou o ancião, com a divulgação do seu antigo ofício.
Um dia, Ming,
o jovem bisneto do seu antigo patrão, já pobre, devido ao vício do jogo e do
consumo das drogas orientais, foi oferecer-se para o antigo ofício a que se
dedicava o idoso, por ter gastado toda a fortuna da família. Qual não foi o seu
espanto ao encontrar, o lugar para o qual se vinha oferecer, ocupado pela sua
irmã, reduzida à pobreza, até aí a mais rica da família e tratada como uma
verdadeira familiar, pelo grande amigo do seu falecido antepassado.
.
Jorge C.
Chora
13/10/2022
Pela telha partida do telhado,
viu a
estrela e soube da novidade:
Nascera-lhe um
irmão!
Não dormiu o
resto da noite toda.
Magicou no
que lhe podia oferecer.
Dinheiro não
tinha, só tinha seis anos,
mas tinha a vontade
e a certeza de lhe dar algo!
E foi a
ouvir as ondas do mar a lamberem-lhe a barraca
que decidiu oferecer-lhe
um barco, com velas, leme
camarote de
capitão, leme interior e exterior
para os dias
da acalmia, proteções para bombordo e estibordo,
e uma gávea para
estar com o irmão em dias de tempestade.
Ainda de
madrugada serrou madeiras, cortou mastros,
das suas cuecas
de morangos descoloridos fez velas
e de manhãzinha,
feita a obra, foi ver o mano, abriu a janela
e
segredou-lhe: maninho fica a ver o teu barco, daqui do teu quarto!
Acercou-se
da água, colocou-o no mar e ficou a vê-lo navegar!
Uma onda
grande e inesperada levou-lhe o barco.
Lançou-se ao
mar e foi incapaz de regressar:
-Não te aflijas
mano, eu guardo o barco, até ao dia em que o venhas buscar! e acenava-lhe de
longe, enquanto as ondas a engoliam.
Jorge C.
Chora
12/10/2022
Nunca foi bom de assoar. Raro era o dia em que não dava uma coça em alguém. Nasceu nas barracas que hoje já foram abaixo. Todos os dias havia sobressaltos: botijas de gás que explodiam, pauladas, homens que se enfiavam nas barracas dos outros, gritinhos de prazer que escapavam em momentos inoportunos.
Era temido
por todos e fazia dos outros o que queria. Um dia não viu o cavalo no escuro da
estrebaria, e de modo sorrateiro, foi-se enfiando pelo escuro dentro, em busca
dos arreios do bicho que lhe davam jeito para vender… Azar dos azares. Era a
cavalariça em que o espanta-cavalos tinha o hábito de penetrar à sorrelfa e dar
uma daquelas sovas de criar bicho ao desgraçado do animal.
O cavalo, há
quem diga e afirme a pés juntos, que o topou logo na entrada e o deixou entrar,
como se não tivesse dado por ele.
De repente,
sem ninguém esperar, deu-lhe um coice daqueles bem dados, nas partes.
Acordou três
dias depois, no hospital, desorientado, na enfermaria feminina. De imediato palpou
os seus documentos e não os encontrou.
Berrou pelas
médicas, pelas enfermeiras, pelo pessoal auxiliar e também pelo da limpeza, não
fosse dar-se o caso de terem e varrido, inadvertidamente, o penduricalho para o
lixo.
Acorreram
todas numa aflição espantosa, julgando tratar-se de um caso de morte súbita e
irreversível.
Inteiradas
do assunto, acalmaram a doente, foram-lhe buscar um grande espelho, formaram
uma grade roda e pediram-lhe de forma delicada e assaz feminina:
- A menina
veja só o espanto de vagina, com que foi alindada. Todas queríamos uma igual à
sua: perfeita, de tamanho ideal, perfeita para uso diário.
Tem, aliás,
uma lista de espera gigante para conseguirem uma igual à sua!
Jorge C.
Chora
11/10/2022
Sorrisos são pedaços de algodão,
andando cautelosos,
pé ante pé,
tateando a reação
do outro,
a ver como reagem,
se sorriem ou não,
podendo
oferecer os dentes brancos e inteiros,
numa oferta
de paz, quiçá d’amizade ou d’amor.
Jorge C.
Chora
1º/10/2022