segunda-feira, 17 de outubro de 2022

SAUDADES DO ALGARVE

O laranjal da Manuela, assemelha-se a um delicado jardim: dobra-se uma folha e ela fica a saber e a cheirar, a uma algarvia-mourisca.

Jorge C. Chora

16/10/2022

sábado, 15 de outubro de 2022

UM AMOR NASCIDO NA RELVA E NA LAMA

 

Às 15 em ponto iniciava-se o jogo. O relvado estava lamacento e caia uma chuva miudinha.

A moeda foi lançada o ar e a sorte calhou às Azúis. As Cinzentas acataram, mais uma vez a prioridade das adversárias.

As quedas sucediam-se e algo prenunciava qualquer coisa menos boa.  Enlameadas e escorregadias, as jogadoras empenhavam-se no jogo. Os embates davam-se segundo a segundo. Os treinadores olharam para o relógio assim como os árbitros. Quando o árbitro principal, após conferenciar com os auxiliares, ia dar por terminado o jogo, o acidente deu-se:

Helena chocou com uma companheira de equipa e perdeu os sentidos. Guida, da equipa adversária, precipitou-se para Helena, pegou nela ao colo e correu para o gabinete mé dico.

As lágrimas corriam-lhe pelas faces. Helena continuava desacordada e o coração de Guida batia descompassado. A velocidade com que corria era tanta que ninguém notou as lágrimas.

Não havia médico, nem enfermeiro nem massagista. Tinham avisado que chegavam mais tarde.

Guida era médica, mas optou pelo desporto e suspeitou da gravidade do caso e da sua urgência. Fez-lhe uma gola Imobilizadora. Tornou a pegar-lhe ao colo, embora tudo indicasse ser contraproducente, e correu como uma louca para a sua enorme carrinha volvo. Enquanto a ajeitava o melhor que podia, beijava-lhe a testa enlameada e aflorava-lhe os lábios, enquanto pedia a todos os santinhos que a auxiliassem.

Helena começou a dar acordo de si e apercebeu-se do amor que Guida lhe tinha.Helena apertou-lhe levemente a mão. Ela já se apercebera de uma certa queda que tinha pela Guida, mas nunca dera nada a entender, com receio de não ser correspondida pela aquela bela e terrível gigante.

Guida chorou todo o caminho e fez dúzias de telefonemas para as amigas médicas que tinham sido suas alunas.

Não lhe largou a mão desde que chegou ao hospital e a testa que estava anteriormente suja, estava limpíssima à custa dos beijos de Guida.

Helena, já safa do problema, puxou Guida para si quando não estava ninguém na sala e beijou-a apaixonadamente.

- Deixa-me que te beije novamente Guida!

- Quantas vezes quiseres e tiveres na vontade, meu amor!

E foi assim que duas adversárias, todos os intervalos que tinham, se escondiam num armário e se beijavam ternamente, fingindo as colegas que não sabiam de nada!

Não houve nenhuma festa, dada pelas Azúis ou pelas Cinzentas, em que não fossem ambas convidadas.

No dia em que foram viver juntas, foram apadrinhadas por quinze madrinhas, tantas eram as jogadoras das duas equipas.

Jorge C. Chora

15/10/2022

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

L'ASSSSSIN DU 21

 

L’ASSASSIN DU 21

Il tue n’importe qui,

des femmes

des nourissons

des gamins.

Je vous aime

je m’em fiche ici,

la famille, les emfants,

et des amies !

Quand será-t il mort

il demande :

laisses-moi mar plus aucune

gamins,femmes or infants,

pour morrir heureux

et les chaussures pleines de pisses !

Jorge C. Chora

13/10/2022

 

O CRIADOR DE RIQUEZA

 

Passeava na sua caleche, com um monograma gravado a ouro, com uma incrustação de espantar, tal a riqueza de pormenores. A outra porta da caleche, em nada lhe ficava atrás.

Os bancos forrados a seda, eram absolutamente extasiantes. Bordados a ouro e a seda, tinham dado trabalho a dúzias de verdadeiros artistas.

Os aros dos rodados, pintados a ouro velho, a cada volta que davam produziam, ós de espanto e inveja, parecendo capturar o sol para os seus rodados.

Mas o mais curioso de tudo é que se dizia que só o turbante, valia quase o recheio do palácio, pois era constituído por rubis e pelas mais raras pérolas quaog.

A admiração pela figura do velho rico, raiava uma verdadeira admiração, um verdadeiro endeusamento.

Um dia o Sr. Chang, reconheceu o homem rico como o serviçal da casa apalaçada dos seus antepassados, na China. Os seus serviços eram utilizados nas latrinas do palacete, para que ele limpasse o rabo com uma esponja, como era uso na época, aos habitantes  da casa. Entrou ao serviço quando era ainda uma criança e por lá permaneceu longos anos. Tornou-se um fiel amigo do avoengo, um serviçal de confiança, sendo bem recompensado pelos conselhos que lhe dava.

Libertado desse serviço, foi dotado de uma considerável fortuna pelos serviços prestados. Veio para Lisboa e no Terreiro do Paço, naquelas recuadas épocas, fazia um vistão.

Ming, o neto do Chang, por vã vaidade, em breve divulgou o antigo emprego a que se dedicava o antigo empregado do seu antepassado.

Não se preocupou o ancião, com a divulgação do seu antigo ofício.

Um dia, Ming, o jovem bisneto do seu antigo patrão, já pobre, devido ao vício do jogo e do consumo das drogas orientais, foi oferecer-se para o antigo ofício a que se dedicava o idoso, por ter gastado toda a fortuna da família. Qual não foi o seu espanto ao encontrar, o lugar para o qual se vinha oferecer, ocupado pela sua irmã, reduzida à pobreza, até aí a mais rica da família e tratada como uma verdadeira familiar, pelo grande amigo do seu falecido antepassado.

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Jorge C. Chora

13/10/2022

 

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

O BARCO

 Pela telha partida do telhado,

viu a estrela e soube da novidade:

Nascera-lhe um irmão!

Não dormiu o resto da noite toda.

Magicou no que lhe podia oferecer.

Dinheiro não tinha, só tinha seis anos,

mas tinha a vontade e a certeza de lhe dar algo!

E foi a ouvir as ondas do mar a lamberem-lhe a barraca

que decidiu oferecer-lhe um barco, com velas, leme

camarote de capitão, leme interior e exterior

para os dias da acalmia, proteções para bombordo e estibordo,

e uma gávea para estar com o irmão em dias de tempestade.

Ainda de madrugada serrou madeiras, cortou mastros,

das suas cuecas de morangos descoloridos fez velas

e de manhãzinha, feita a obra, foi ver o mano, abriu a janela

e segredou-lhe: maninho fica a ver o teu barco, daqui do teu quarto!

Acercou-se da água, colocou-o no mar e ficou a vê-lo navegar!

Uma onda grande e inesperada levou-lhe o barco.

Lançou-se ao mar e foi incapaz de regressar:

-Não te aflijas mano, eu guardo o barco, até ao dia em que o venhas buscar! e acenava-lhe de longe, enquanto as ondas a engoliam.

 

Jorge C. Chora

12/10/2022

terça-feira, 11 de outubro de 2022

O ESPANTA-CAVALOS

 

Nunca foi bom de assoar. Raro era o dia em que não dava uma coça em alguém. Nasceu nas barracas que hoje já foram abaixo. Todos os dias havia sobressaltos: botijas de gás que explodiam, pauladas, homens que se enfiavam nas barracas dos outros, gritinhos de prazer que escapavam em momentos inoportunos.

Era temido por todos e fazia dos outros o que queria. Um dia não viu o cavalo no escuro da estrebaria, e de modo sorrateiro, foi-se enfiando pelo escuro dentro, em busca dos arreios do bicho que lhe davam jeito para vender… Azar dos azares. Era a cavalariça em que o espanta-cavalos tinha o hábito de penetrar à sorrelfa e dar uma daquelas sovas de criar bicho ao desgraçado do animal.

O cavalo, há quem diga e afirme a pés juntos, que o topou logo na entrada e o deixou entrar, como se não tivesse dado por ele.

De repente, sem ninguém esperar, deu-lhe um coice daqueles bem dados, nas partes.

Acordou três dias depois, no hospital, desorientado, na enfermaria feminina. De imediato palpou os seus documentos e não os encontrou.

Berrou pelas médicas, pelas enfermeiras, pelo pessoal auxiliar e também pelo da limpeza, não fosse dar-se o caso de terem e varrido, inadvertidamente, o penduricalho para o lixo.

Acorreram todas numa aflição espantosa, julgando tratar-se de um caso de morte súbita e irreversível.

Inteiradas do assunto, acalmaram a doente, foram-lhe buscar um grande espelho, formaram uma grade roda e pediram-lhe de forma delicada e assaz feminina:

- A menina veja só o espanto de vagina, com que foi alindada. Todas queríamos uma igual à sua: perfeita, de tamanho ideal, perfeita para uso diário.

Tem, aliás, uma lista de espera gigante para conseguirem uma igual à sua!

Jorge C. Chora

11/10/2022

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

PEDAÇOS D'ALGODÃO

 

Sorrisos são pedaços de algodão,

andando cautelosos, pé ante pé,

tateando a reação do outro,

a ver como reagem, se sorriem ou não,

podendo oferecer os dentes brancos e inteiros,

numa oferta de paz, quiçá d’amizade ou d’amor.

Jorge C. Chora

1º/10/2022