terça-feira, 25 de outubro de 2022

VITÓRIA E O AMOR


Vitória gosta de dar nomes às coisas,

mas nem sempre as suas palavras

coincidem com as já estabelecidas.

Chama ao amor, Alberto, pelo modo

como ele beija a mão à mulher Dora;

amor também é como a amiga Flora

gosta, abraça e beija, a amiga Aurora;

e a troca de olhares entre Fabião e Fernão

e o seu recíproco dar de mão.

O nundo não seria mundo para Vitória,

sem Alberto e Dora, Aurora e Flora,

e as mãos dadas entre Fernão e Fabião

ou sem Frederica, outrora Frederico,

 e Paula, noutras eras chamado Paulo!

E a quem à Vitória ousa chamar tola,

é porque talvez não regule bem da bola!

         Jorge C. Chora

         25/10/2022

domingo, 23 de outubro de 2022

A BRUXA E A PIRRALHA

 

Da copa das árvores choveram pequenos e rijos frutos certeiros, dirigidos às cabeças dos rufias. Gozavam com a velha a quem chamavam Bruxa, que adorava fazer as suas necessidades na mata e não notara a proximidade daquela canalha.

Quando localizaram o local donde estavam a ser alvejados, foi o bom e o bonito. Aos urros, começaram a galgar a árvore. Lá de cima, os frutos pareciam rajadas. A cada insulto ela respondia com três, sem se mostrar minimamente incomodada. Sabia que ia apanhar, mas tinha a certeza que ia dar uma boa dezena de caneladas. Tinha nove anos e era criada ao Deus dará. Os matulões tinham aproximadamente quinze e dezasseis anos.

Foi quando de repente ouviram um silvo, cuja proveniência mais parecia vinda do inferno do que d’outro local qualquer. A Bruxa tinha chamado os seus seis enormes cães que esperavam pelos rufias na base da árvore.

Tinham sido descuidados. Todos sabiam que ela andava sempre acompanhada por aqueles cães infernais.

- Se quiserem sair ilesos, todos, mas todos, terão de beijar os pés à menina!

-O quê? - insurgiu-se Ermelinda - Sujarem-me os pés que estão tão limpinhos? E olhava-os, com um ar divertido para os seus pés, mais porcos do que a esterqueira que tinha em casa.

A velha senhora só não fez chichi pelas pernas abaixo, divertida com a cena, porque acabara de fazer.

Os perseguidores tiveram de correr quilómetros e de vez em quando, um dos cães, ferrava-lhes os dentes nos fundilhos, embora sem os aleijar.

Ao descer da árvore, Ermelinda questionou a velha senhora:

-Gosta de fazer chichi ao ar livre?

-Adoro e não é só isso! -Ermelinda deu uma gargalhada -   eu também gosto, daquele ventinho nas coisas…

A velha riu-se bem-disposta. Abraçou a petiza, suja e ainda mais morena do que o seu falecido marido.

-Sabes que o meu marido era africano? Era médico. Quando viemos para aqui, foi atropelado e morreu. Nunca foi identificado quem o atropelou.

-Os meus sentimentos.  Também sou de África…  os meus sentimentos…

-Como acha que se sente quem o atropelou? - perguntou a petiza por delicadeza.

 - Arrepende-se todos os dias de o ter morto…

Ermelinda deu-lhe um desconto. Coitada, o desgosto deu-lhe volta ao miolo…

Seguiram ambas de braço dado até uma estranha vedação. Colocou a mão num ramo e empurrou a cancela.

-Entras… ou tens medo de mim?

- Não, de si até gosto! É como eu! É meia selvagem…

Ermelinda não acreditou no que viu. Aquilo não era uma casa! Um palácio ao pé do que via, e lembrou-se de vários de quando vivia em Lisboa!

Achou indelicado perguntar-lhe sobre o assunto. Continuaram a ver-se. Tornaram-se amigas e as idas à mata, que ambas adoravam, aproximaram-nas ainda mais.

Uma só condição lhe impôs a “Bruxa” para serem amigas: ir à escola!

Durante seis meses não se viram! Ir à escola, isso é que era bom!

Um dia os pais receberam a visita da “Bruxa”. Perceberam de imediato, mesmo parecendo uma mendiga que estavam perante a dona das empresas onde eles trabalhavam. Não era assim que ela aparecia. Ela surgia como uma deusa, num automóvel gigante, preto e a brilhar, com um motorista sardento e enorme.

A conversa foi breve:

- Amanhã, quero a vossa filha, com esta farda do colégio, à minha porta, às 8.45m, com o banho tomado. Perceberam? Gosto dela como uma filha, perceberam?

Quando o carrão preto, a brilhar, surgiu à porta do colégio, os portões abriram-se de imediato e a diretora estava à espera da proprietária.

-Srª Diretora, apresento-lhe a Ermelinda que é como se fosse a filha que não tenho. É inteligente e lutadora, mas insubordinada como eu. Ensine-a a pensar e a avaliar as pessoas com rigor. Não a castigue. Quando ela se portar mal, basta que não a deixe ir fazer as suas necessidades à mata!

-Ah, amiga de uma figa, agora é que me lixaste! -pensou Ermelinda com a mão dada à amiga.

Jorge C. Chora

23/10/2022

 

 

 

sábado, 22 de outubro de 2022

ME TOO, ME TUA

 Dá volta ao miolo,

o jovem ser tolo,

vê-las passar e nada de agradável dizer,

querer elogiar e não poder

e não são só eles a não poder falar

porque elas também não podem piar

e dizer com toda a força e convicção:

Ai se fosses meu…

É mal visto, é Me too é Me tua,

vão já à loja e comprem um revólver,

quiçá uma cartucheira e uma metralhadora,

para rimar com o Me Too e Me Tua.

Fiquem por cima ou por baixo,

tenham tido o prazer que tiverem,

digam sempre que foi para subir,

nada porque lhes soube bem

ou porque não quiseram dizer NÃO!

 

      Jorge C. Chora

      22/10/2022

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

DESILUSÃO

 Tenho saudades de quem desconheço,

deixo de as ter quando as conheço.

Como as pessoas não são o inverso do que são,

a culpa é minha, por achar não serem,

aquilo que afinal sempre foram e serão?

 

Jorge C. Chora

21/10/2022

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

A ROSA


Enrola o vento

a saia à Rosa,

pétala cheirosa

de encantos feita,

repleta de magia

e secreto aroma.

É hissope perfumada,

com direito a turíbulo,

espargida pelas narinas

ávidas dos fiéis devotos.

Jorge C. Chora

  20/10/2022

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

A CONDENADA


Irmã isabel, desde infância só tinha um pensamento fixo: seguir a via religiosa, tornar-se freira.

Foi uma estudante aplicada e nunca deixou para o dia seguinte, o que poderia fazer nesse dia.

Seguiu estudos superiores em vários países e até teve a oportunidade de frequentar e terminar, os seus estudos superiores na Universidade Pontifícia de Roma.

Regressou a Portugal já com cerca de quarenta anos. Foi por essa altura que o seu corpo, embora tardiamente, começou a despertar.

Os seus pensamentos deixaram de se ocupar inteiramente com a vida de Cristo, e a concentrarem-se um pouco mais em si.

Um dia passou pelo jardim do convento e viu o jardineiro, sem que ele a tivesse visto, a urinar a terra em redor das roseiras. Estremeceu de prazer. Não desviou o olhar um segundo que fosse. Todos os dias, à mesma hora, presenciava, com o maior dos prazeres, a rega efetuada, com todas as delongas, pelo jovem jardineiro.

A visão do jardineiro a usar o aparelho genital, tornou-se uma obsessão.

Esperava religiosamente pela hora. Suava com abundância, antecipando o prazer que iria sentir.

Não dormia, mal comia e não pensava noutro momento senão naquele.

Após muitas orações e penitências a si impostas, a que não faltou o cilício a marcar-lhe o belo corpo e a infligir-lhe uma dor quase insuportável, tomou a decisão que há muito deveria ter tomado. Confessar-se o mais rapidamente possível.

A custo confessou o enorme tormento de que padecia. Foi-lhe dada uma penitência severa: não mais passar por aquele local pecaminoso.

Um dia não resistiu e desobedeceu. À hora exata, escondeu-se e predispôs-se a ver o maravilhoso espetáculo. De repente, teve de encolher-se mais, pois o padre que lhe impusera a penitência, vinha, pé ante pé, esconder-se atrás de uma moita, bem colada ao jardineiro e ainda por cima, dotado de uns potentes binóculos!

 

A partir desse dia, passaram ambos a partilharem o mesmo posto de observação e também os binóculos!

 Passado o momento, dirigiam-se ambos para a capela conventual, onde rezavam dois Pais Nossos e uma Ave Maria.

 

Jorge C. Chora

19/10/2022

terça-feira, 18 de outubro de 2022

MISCELÂNEA

 


Gostava de beber um copo da mixórdia que nunca conseguiu descobrir de que era feita. Era no Bar Pirata, em Lisboa, nos Restauradores. Não foi por falta de tentativas. O homem do bar é que sabia dar-lhe a volta, disfarçar o assunto, fingir-se de surdo.

Havia, no entanto, algo estranho. Tinha a sensação de estar a ser seguido, um pouco  mesmo ali, naquele bar.

 Dali saia para o Café Paladium, jogava um pouco de bilhar com uns amigos ocasionais e depois seguia para a loja. Era uma grande papelaria onde também se vendiam máquinas de teclado Azerty e Qwerty, por ordem expressa de Salazar, por decreto de 1936 ou 37.

Ao terceiro dia, o Bar Pirata transbordava. Era praticamente impossível entrar mais alguém. Teve de esperar. Quando conseguiu penetrar, apertado como sardinha em lata, também entraram mais dois ou três clientes.

Enquanto bebia o pirata, teve a nítida sensação de que lhe tinham mexido nos bolsos traseiros das calças. Não ligou. Tanta gente encostada, umas às outras, era impressão de certeza.

Ao pagar o café no Paladium, teve a certeza de que lhe tinham revistado a carteira. O Bilhete de Identidade, em vez de estar à frente, estava atrás do livro de cheques.

Olhou em redor. À sua frente reconheceu um estranho homem, de cabelo curto e olhos cinzentos, metálicos. Sentia-se à distância que não era flor que se cheirasse. Olhou-o com mais atenção. Tinha sido ele que estivera atrás de si, no Bar Pirata. Tinha a certeza. Reparou melhor no volume que apresentava do lado esquerdo, debaixo do braço: era uma arma de todo o tamanho. Pide? Não lhe parecia. Não tinha aquele ar circunspecto e vaidoso de ser reconhecido como pertencendo àquela organização.

Afinal quem era o estupor? Encheu-se de coragem, levantou-se, aproximou-se da mesa do sujeito e qual não foi a surpresa com o convite que lhe foi feito:

- Sente-se sr. Carvalho!

Sentiu o sangue gelar-lhe nas veias. Mas, logo de seguida, verificou que a pronúncia não era portuguesa, mas americana.

-E o senhor chama-se?

- Rosemary- e estendeu-lhe uma mão suave e pequena.

-Observou-a. Os olhos nada tinham de atemorizador. A voz era suave e bem modelada.

-Está surpreendido por eu saber quem é. Onde vive e o que faz?

-Um pouco.

- Vim investigar o pagamento de seguros que lhe fizemos. Se tinha havido alguma tramóia ou jogo sujo na cobrança. Já verifiquei a honestidade do seu procedimento e estou na posse dos dados que me permitem elaborar um relatório seguro e verdadeiro.

Aos poucos, o sr. Carvalho lembrou-se que já a vira inúmeras vezes e que ela já estivera na sua loja, perto de sua casa e frequentara todos os locais onde ele ia, assim como as suas amizades. Estava em Portugal há seis meses!

-E se eu não tivesse sido honesto?

- A cara de Rosemary endureceu. Levou a mão ao sovaco e mostrou-lhe a arma. Logo de seguida mudou. Um sorriso aberto e um abraço espontâneo, bem apertado e uma confissão à americana.

- Sei que enviuvou, simpatizo consigo e não me importava de o conhecer ainda melhor!

Carvalho arrepiou-se. Rosemary notou e disse-lhe:

-Não tenho receio. Sou uma mulher apaixonada. Tirou os óculos, despenteou-se ligeiramente e mostrou a sua feminilidade. Sorriu, abriu ligeiramente a blusa e mostrou uns seios rosados, bem dimensionados, que logo cobriu de modo pudico.

O Resto da história fica por sua conta.

Jorge C. Chora

18/10/2022