quarta-feira, 14 de agosto de 2024

O TEMPO DO FANATISMO

 



Vivemos tempos conturbados,

provocados por perturbados

fanáticos religiosos e políticos,

adeptos da intolerância,

inimigos da diversidade,

estribados e autojustificados

por visões messiânicas

e livros “sagrados”, interpretados

à letra e seguidos a par e passo

como guiões intocáveis.

A vida não tem qualquer valor,

massacram-se velhos, mulheres e crianças,

roubam-se terras, destroem-se países,

à vista de todo o mundo.

A verdade é instrumentalizada,

utiliza-se a desinformação

em benefício de alguns

e tudo isto quando meio mundo

morre de fome e de doenças curáveis.

E o mundo auto destrói-se em tempos

de glorificação do fanatismo e da intolerância,

do desprezo pela ciência em favor da Humanidade.

Tristes são os tempos em que vivemos!

Impõe-se a defesa dos princípios democráticos,

do regresso aos valores humanos,

desde o respeito pela diferença,

ao direito à paz e à vida!

           Jorge C. Chora

              14/8/2024


domingo, 11 de agosto de 2024

INACREDITÁVEL

 


Ninguém acredita

na violência maldita

e na deslavada mentira,

por todo o mundo vista,

que o assassínio diário de centenas

de mulheres e crianças,

se destina só a matar combatentes.

Vê-se, à vista desarmada, ser intenção pura

de concentrar civis para os exterminar,

quando dizem procurar a paz,

aproveitando para ceifar os mediadores

e continuar a matar gente às pazadas!

Para quando o fim das chacinas?

Jorge C. Chora

11/8/2024

 

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

QUEM É O CULPADO?

 

              Quando se finge saber,

           e não se sabe

           reconhecer sequer,

           a necessidade de aprender,

 o que fazer?

O que muitos fazem:

culpar quem sabe,

de nada saber!

Jorge C. Chora

  9/8/2024

           

 

O REGRESSO DO PÁSSARO

 


Ainda o sol não nascera e já o homem estava de pé, vestido e pronto para ir para o serviço. Ao fim de semana, o que mais desejava era dormir até tarde.

O pior é que o seu desejo era pura e simplesmente irrealizável. Logo que o sol nascia, o papagaio do vizinho desatava a palrar e a assobiar tão alto que o impedia de dormir. Mil vezes injuriou o maldito papagaio.

De tanto pensar em calar o pássaro, começou a ter pensamentos assassinos. Da sua janela tinha um ângulo capaz de o liquidar. Seria um descanso definitivo. O passaroco entregaria a alma ao criador ainda jovem e ficaria ao lado do deus da passarada. Era até um fim glorioso, ainda que imerecido para tão irritante ave.

Acabou por cair em si. Ele não era um matador e coitado do desgraçado, ser morto por ser barulhento era pouco digno.

Naquele fim de semana, ferrado no sono, foi acordado por uma chinfrineira medonha pelo danado do papagaio. Levantou-se furioso, vestiu o roupão e desceu as escadas a todo a vapor, qual chaleira a ferver.

Foi ter com o vizinho e perguntou-lhe quanto queria pelo papagaio.

-Eu não o vendo. É um amigo.

-Pago-lhe qualquer preço!

Vendo a oportunidade do negócio, cobrou-lhe uma fortuna por ele.

Feliz com a aquisição, meteu-se no carro em direção à serra de Monsanto e aí chegado, abriu a gaiola e despediu-se do bicho:

-Estás livre. Vai para onde quiseres. Arranja uma namorada que seja surda e abala com ela!

No regresso a casa suspirou de alívio com o pensamento de poder, a partir daí, dormir o sono dos justos ao fim de semana.

Passou toda a semana ansioso pela chegada do fim de semana. Agora ia poder dormir à vontade.

Qual não foi o seu espanto, logo seguido por uma imensa raiva, ao acordar com uma barulheira infernal. Apurou o ouvido e percebeu que se tratava de um pássaro.

- Ora querem lá ver que o estupor do bicho voltou para casa! E paguei eu uma fortuna e ele faz-me esta desfeita?

Levantou-se e desceu a escada, de quatro em quatro degraus, como se fosse um canguru aos saltos.

Bateu à porta do vizinho e quando ele a abriu não se conteve:

- O estupor do animal voltou para casa?

- Não meu amigo. Com o dinheiro que me deu, comprei dois papagaios e ainda comida para quase um ano!

Desta vez o homem não ofereceu dinheiro. Foi à farmácia e comprou dois tampões para os ouvidos.

-Por que não me lembrei antes disto!

 

Jorge C. Chora

     8/8/2024

terça-feira, 6 de agosto de 2024

UM SIMPLES ZÉ-NINGUÉM

 

Não percas alguém,

por dizerem ser um zé-ninguém.

Há quem saiba do seu bom -humor,

da sua capacidade de rir até às lágrimas,

de dar sinceras e sonoras gargalhadas,

ser um pouco trapalhão e amigo do seu amigo.

Ganha pouco, é certo, mas vale muito,

 para ti e para quem o deseja.

Não gostas de o veres espreitar

debaixo das tuas saias, mordiscar-te as nádegas

e perguntar-te amiúde e com ar malandro,

pelo tesouro escondido, que ele conhece de ginjeira,

a forma e o sabor?

Cuidado com quem finge desdenhá-lo,

e o chama de zé-ninguém,

sabendo que ele é bem mais do que

um simples zé-ninguém ou de alguém

forrado de notas e mau-humor.

 

              Jorge C. Chora

                 6/8/2024

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

A TEIMOSIA DO INVERNO

 


 O inverno tem a mania,

de à Ericeira vir,

fazer férias de verão

e não desiste de aparecer em agosto.

É assíduo e persistente

e não há quem o demova

de cá estar, pois como ele diz:

-Para onde hei- de ir,

se até casa de verão aqui tenho?

 Já lhe bati à porta, para o convencer

a sair só depois da meia-noite,

e a deixar-se ficar em casa de dia,

- Sair de noite, nem pensar, tenho frio

e não me apetece, de dia quero apanhar sol.

É teimoso este companheiro de verão,

que nos acompanha quer de noite quer de dia

e prefere agosto, para aqui vir passar as férias,

e se está nas tintas para quem não deseja,

ter inverno em pleno verão.

 

            Jorge C. Chora

                 5/8/2024

 

sábado, 3 de agosto de 2024

DEOLINDA

 

Nasceu no Largo das Ribas,

nunca dali saiu,

está lá todos os dias,

e já tudo viu.

Aproveita os ventos para no ar

ficar a pairar e do céu vigiar,

quer a terra quer o mar,

e sempre de olho estar,

no peixe que lhe convém

ou naquele que nos barcos vem.

Corre na praia a afugentar

quem asas tem,

não quer partilhar

a iguaria com ninguém,

exceto com o parceiro que é alguém.

É assim a gaivota Deolinda,

a que nasceu no Largo das Ribas

e nunca dali saiu.

Jorge C. Chora

    2/8/2024