segunda-feira, 9 de setembro de 2024

O RELÓGIO

 




                                                          Figura adaptada por

                                                          Caetana Correia Chora de 8 anos




Ninguém passa sem ele,

mas há quem o deteste,

lhe rogue pragas

e o culpe dos desaires

do dia a dia

e de ser o causador do seu mal-estar.

Ele escraviza-a, relembra-lhe

o que ela quer esquecer.

Recusa andar com ele,

humilha-o tanto quanto lhe apetece,

não o leva a lugar nenhum,

diz mal dele sempre que pode

e nem o olha com olhos de ver.

É um maldito que nunca está satisfeito,

umas vezes porque é tarde, outras

porque é cedo,

 e é bem pior do que um grilo falante,

porque este é mudo, mas repreende-a

sem sequer se dar ao trabalho de falar.

Em suma, é um estupor da pior espécie,

pois tudo lhe diz, dispensando-se de falar

e sem sequer se alterar uma única vez na vida!

Jura a pés juntos, logo que se aposentar,

fechá-lo a sete chaves numa gaveta

e substituí-lo por um de parede,

 prometendo a si mesmo nunca lhe dar corda,

e vingar-se a valer,

das torturas que ele lhe infligiu toda a vida.

Jorge C. Chora

9/9/2024

sábado, 7 de setembro de 2024

ENTRAR E SAIR

 

ENTRAR E SAIR

Tudo depende do entrar e sair,

até aquilo em que estão a pensar!

sem mercadorias a entrar e a sair,

não havia trocas, nem lucros a usufruir.

 

Tudo depende do entrar e sair

sem isso não havia imigração nem emigração,

nem movimentos da população,

parava não só a construção, mas também a restauração.

 

Tudo depende do entrar e sair,

sem saída e entrada de dinheiro,

não havia mercado de capitais

e muito menos paraísos fiscais.

 

Tudo depende do entrar e sair,

até a felicidade dos casais,

sem eles não havia o entra e sai

e os prazerosos ais do quero mais.

 

Jorge C. Chora

7/9/2024

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

Ó ANJO DA GUARDA


“Anjo da Guarda,

minha companhia,

guarda a minha alma,

de noite e dia”.

Onde andas ó Anjo?

aparece e acompanha-nos,

afasta de nós os malfeitores

e facínoras da humanidade

e “guarda-nos de noite e de dia”.

Não deixes o Mundo à mercê

de facínoras e discípulos de Satã,

que matam quer de noite

 quer à luz do dia

e nos tratam como amiguinhos,

para nos seus braços adormecermos

e não mais acordarmos.

Jorge C. Chora

6/9/2024

A ESTÁTUA

 


A loja era a atração da localidade. Eram raras as mulheres que não a visitavam amiúde ou pelo menos não iam lá algumas vezes por ano.

Escusado será dizer que às recém-chegadas, a primeira visita que as amigas locais as levavam a fazer, era à loja.

A loja vendia bijuterias e a verdadeira atração encontrava-se a uns dez metros, no seu interior: era a estátua, em madeira. de um índio nu, com um apêndice masculino apreciável.

Elas entravam e disfarçadamente, roçavam-se no membro. Outras passavam-lhe a mão, acariciando-o. As mais tímidas olhavam-no de soslaio, fingindo interesse nos objetos lá vendidos, andando de um lado para outro, à medida que o observavam.

Também alguns homens gostavam de lhe tocar, fazendo-o com as mãos atrás das costas para melhor disfarçarem o gesto.

As senhoras mais velhas deixavam cair um lenço ou o porta-moedas e fingindo apanhar o que tinham deixado cair, ao baixarem-se, davam-lhe um beijo repenicado.

Num dia de movimento e barulho anormalmente alto, ao fim da tarde,os donos do espaço comercial notaram, atónitos, que o índio deixara de ter pénis. Tinham-no cortado.

A clientela deixou de vir. Passavam-se dias em que nenhuma cliente aparecia.

A proprietária sossegou o marido.

- Deixa estar que elas voltarão em breve.

- Como, se ele está com a coisa decepada?

Nesse mesmo dia ela foi ter com um antigo namorado e contou-lhe o que se passava.

-E o que é que tu queres que eu faça?

-Mau. Estás a fazer-te desentendido. Quer que tu lhe faças um e o coloques no índio. Tu não costumas fazes esculturas em madeira? Ah! um pormenor: o teu é muito mais bonito do que o dele, mas não te esqueças de o fazer mais moreno!

Ao fim de dois dias a obra estava completa e implantada no índio, mas com duas diferenças: era um nadinha menor e circuncidado.

A clientela retornou em força, mas desta vez havia mais gente a deixar cair objetos no chão e a beijar disfarçadamente a ponta do dito.

Num golpe comercial bem engendrado, a proprietária encomendou ao antigo namorado, várias pequenas estatuetas de índios com os membros circuncidados e vendeu-os num ápice.

Jorge C. Chora

6/9/2024

terça-feira, 3 de setembro de 2024

SENTIR

 


Não há dor como a sua,

embora nunca a tenha sentido,

jura tê-la tido.

Desdiz o poeta

que “finge sentir

a dor que deveras sente”

e não admite que alguém sinta

uma dor tão grande

como aquela que nunca sentiu.

Jorge C. Chora

3/9/2024

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

FADOS

 


São versos cantados,

recolhidos por clientes,

também por devotos

e por quem ali anda,

nas vielas de Alfama,

 Alcântara e Mouraria,

e um pouco pelo país.

São espalhados pelo vento

nas suas correrias pelo mundo fora

e pelos bicos das gaivotas,

ao cirandarem por aqui e por acolá,

bichanando os fados de que mais gostam.

 

      Jorge C. Chora

          2/9/2024

domingo, 1 de setembro de 2024

AÍ JESUS!


Soube de uma casa em Lisboa

e decidiu alugá-la, fosse má ou fosse boa,

ainda mesmo sem sequer a ver.

Precisava dela para se poder casar.

Deu vinte mil por conta, e comprometeu-se

 a pagar dois mil e quinhentos euros,

 mensalmente, até ao dia oito de cada mês.

Assinou o contrato e foi até lá.

Temeu pela vida ao subir as escadas,

tão podre elas estavam, tresandavam a mofo

e a fritos entranhados, de sardinhas e carapaus.

A casa não tinha cozinha nem casa de banho.

Cozinhava-se num canto e o wc era numa espécie de varanda,

num cubículo com uma pia para evacuar de cócoras, e chuveiro

por cima da dita pia, tendo ao lado uma torneira,

destinada a lavar os dentes e o rabo também.

Perante a surpresa demonstrada pelo futuro inquilino,

consolou-o o vendedor avençado:

- Não se preocupe, com o dinheiro que lhe vai sobrar, depois

da renda pagar, pouco terápara para comer,

e quem não come, pouco tem para evacuar!

Quanto aos banhos, querido inquilino, ninguém vai notar.

tome ou não tome, vai sempre cheirar a mofo ou a sardinha assada!

Caso não queira a casa, temos uma extensa lista para a alugar.

Jorge C. Chora

1/7/2024