Na aldeia todos tinham a sua função. A do Tomé era cobiçada: provar a carne da taberna que era servida aos visitantes e turistas estrangeiros.
Tomé era desdentado. Um desdentado como provador de carne? Onde é que isso alguma vez se tinha visto?
Visto ou não visto, o facto certo e indelével era a qualidade do serviço prestado: o que Tomé comia sem nenhum dente, podia ser comido e degustado por todos os clientes independentemente da idade, saúde física ou dentária.
Quem não gostou do sucesso do Tomé foi o jovem dentista, recentemente instalado.
A sua propaganda consistia precisamente em propalar aos sete ventos a dificuldade que os desdentados tinham em comer. Era necessário ter o maior cuidado com a dentição.
Os aldeões replicavam:
-Isso era dantes. Agora temos o Tomé e não precisamos de dentes.
O jovem viu-se em dificuldades. A clientela era tão escassa que se tornou no único habitante da aldeia que não tinha dinheiro para comer os bifes seleccionados pelo Tomé.
Conversa puxa conversa conseguiu chegar às falas com o provador. Ofereceu-lhe uma prótese de uma qualidade tal que Tomé se deixou render: Era mais fácil comer, digeria melhor os alimentos, podia comer torresmos crocantes, roer até ao osso o entrecosto e deleitar-se com os alimentos estaladiços.
Assustado, o taberneiro viu a vida a andar para trás. O que seria de si e do seu negócio? Quem lhe escolheria a carne?
Lamentou-se ao dentista e este condoeu-se da sua situação, embora não se tivesse esquecido do mau bocado que também estava a passar. Propôs ao taberneiro que falassem ao Tomé.
-Ao Tomé? Agora que ele tem dentes quer lá saber de alguma coisa! - queixou-se.
-Não será bem assim…não custa tentar… - replicou o médico.
Juntaram-se os três e dentista propôs:
-Gostaria de comer um bife com a qualidade que a carne sempre aqui teve.
-Mas esse é que é o problema…. - manifestou-se o taberneiro.
-Não. Se o amigo Tomé tirar os dentes para seleccionar a carne…
-Mau… - hesitou o Tomé, já a ver-se privado dos novos dentes….
-Quando for comer coloca-os de novo …- sugeriu o esfomeado médico.
Um sorriso radiante surgiu na face de ambos.
-Agora só falta resolver o meu problema - alertou o esfomeado - eu peço ao amigo Tomé que fale a todos os habitantes da aldeia e aos clientes da casa, da maravilha que é cuidar dos dentes e a vantagem que é tê-los … e o preço acessível que vou levar…
-Por quem é…conte comigo…
-Connosco…- rematou o taberneiro.
-Se agora pudesse ser um bifezinho … - murmurou o desfalecido arquitecto do entendimento.
-É para já.
Jorge C. Chora
quarta-feira, 16 de junho de 2010
domingo, 13 de junho de 2010
Apanhado
Só por acaso é que não expelia fumo pelas ventas. Estava furioso. Fora apanhado no momento exacto em que enfiava os dedos na gaveta dos chocolates. Em vez de os agarrar, fez barulho ao amarfanhar o papel vegetal no processo de busca.
-O que estás para aí a fazer? Estás à procura dos chocolates! - gritaram os familiares, em tom de repreensão - Não sabes que …
Pura e simplesmente saiu porta fora para não ouvir o que se ia seguir. Vagueou pela cidade e deu consigo na Gulbenkian. Havia uma exposição sobre a natureza morta.
Entrou e foi atraído para as pinturas sobre doçaria. Parou em frente aos quadros de Josefa d`Obidos. Deliciou-se com as queijadas, imaginou-se a comer o pão-de-ló,
as hóstias de ovos, o bolo de chocolate, o folar… Desviou o olhar e deu de caras com as compotas de cereja e figos cristalizados num quadro de Juan van der Hamen.
Começou a babar-se …olhou para um quadro de Flegel e viu uns insectos que se deliciavam com o doce…Levantou a mão, como que para os afugentar, invejoso da sorte dos malditos insectos…
-Peço desculpa mas é proibido comer neste espaço e também tocar nos quadros - disse-lhe um jovem guarda.
Não era um dia sim. Resolveu sair e voltar para casa. Ao chegar, tinha a mulher à sua espera.
-Aposto que foste comer doces e fazer disparates. Importas-te de medir a tua glicemia?
Embora de má vontade mediu-a, até porque era uma oportunidade de demonstrar a sua força de vontade e inocência.
-Parece impossível, olha para isto, olha-me para este valor altíssimo… - disse desgostosa a sua mulher.
Ainda pensou em dizer algo em sua defesa mas desistiu ao imaginar a resposta da sua mulher:
-Pois, diz-lhe que sim, agora basta-te olhar para eles…fazem-te tão mal como se os tivesses comido… Julgas que sou totó…
Jorge C. Chora
-O que estás para aí a fazer? Estás à procura dos chocolates! - gritaram os familiares, em tom de repreensão - Não sabes que …
Pura e simplesmente saiu porta fora para não ouvir o que se ia seguir. Vagueou pela cidade e deu consigo na Gulbenkian. Havia uma exposição sobre a natureza morta.
Entrou e foi atraído para as pinturas sobre doçaria. Parou em frente aos quadros de Josefa d`Obidos. Deliciou-se com as queijadas, imaginou-se a comer o pão-de-ló,
as hóstias de ovos, o bolo de chocolate, o folar… Desviou o olhar e deu de caras com as compotas de cereja e figos cristalizados num quadro de Juan van der Hamen.
Começou a babar-se …olhou para um quadro de Flegel e viu uns insectos que se deliciavam com o doce…Levantou a mão, como que para os afugentar, invejoso da sorte dos malditos insectos…
-Peço desculpa mas é proibido comer neste espaço e também tocar nos quadros - disse-lhe um jovem guarda.
Não era um dia sim. Resolveu sair e voltar para casa. Ao chegar, tinha a mulher à sua espera.
-Aposto que foste comer doces e fazer disparates. Importas-te de medir a tua glicemia?
Embora de má vontade mediu-a, até porque era uma oportunidade de demonstrar a sua força de vontade e inocência.
-Parece impossível, olha para isto, olha-me para este valor altíssimo… - disse desgostosa a sua mulher.
Ainda pensou em dizer algo em sua defesa mas desistiu ao imaginar a resposta da sua mulher:
-Pois, diz-lhe que sim, agora basta-te olhar para eles…fazem-te tão mal como se os tivesses comido… Julgas que sou totó…
Jorge C. Chora
domingo, 6 de junho de 2010
O homem que não queria dar os bons dias a ninguém
Três homens, em amena cavaqueira, trocavam impressões sobre o que fariam caso lhes saísse o euromilhões. O mais pequeno investia no seu negócio, o magrinho comprava um casarão e o maior nada disse.
-Então e tu?
-Desembucha homem. Vá lá, confessa-te…
Após muita insistência, com um ar um tanto ou quanto envergonhado, dispôs-se a levantar o véu:
-Olhem… - e parou, indeciso, provocando novos rogos aos companheiros – Bom, foram vocês que quiseram saber…
-Mau… fala de uma vez por todas…
-Bem, pura e simplesmente deixava de dar os bons dias a quem quer que fosse!
-Pode lá ser! - reclamou o pequenino.
-A nós também?
-Sim – confirmou secamente.
Um dos amigos abriu a boca mas foi incapaz de proferir uma só palavra. O outro, passado um bom bocado, franziu a testa, inchou o peito e desabafou:
-Ainda bem que avisaste. Afinal, ao fim destes anos todos, pura e simplesmente não sabíamos quem tu eras. Mas já agora, se não é pedir muito, explica as tuas razões, se é que as tens…
-São simples. Se fosse rico nunca me levantava de manhã, da cama…
-Logo, não davas os bons dias a ninguém - concluíram em uníssono os amigos, enquanto encomendavam mais três cervejas.
Jorge C. Chora
-Então e tu?
-Desembucha homem. Vá lá, confessa-te…
Após muita insistência, com um ar um tanto ou quanto envergonhado, dispôs-se a levantar o véu:
-Olhem… - e parou, indeciso, provocando novos rogos aos companheiros – Bom, foram vocês que quiseram saber…
-Mau… fala de uma vez por todas…
-Bem, pura e simplesmente deixava de dar os bons dias a quem quer que fosse!
-Pode lá ser! - reclamou o pequenino.
-A nós também?
-Sim – confirmou secamente.
Um dos amigos abriu a boca mas foi incapaz de proferir uma só palavra. O outro, passado um bom bocado, franziu a testa, inchou o peito e desabafou:
-Ainda bem que avisaste. Afinal, ao fim destes anos todos, pura e simplesmente não sabíamos quem tu eras. Mas já agora, se não é pedir muito, explica as tuas razões, se é que as tens…
-São simples. Se fosse rico nunca me levantava de manhã, da cama…
-Logo, não davas os bons dias a ninguém - concluíram em uníssono os amigos, enquanto encomendavam mais três cervejas.
Jorge C. Chora
terça-feira, 25 de maio de 2010
Os Indomáveis
A cabra escoiceia, furiosa, entrincheirada no seu reduto pedregoso, a intrusa que lhe quer ocupar o espaço. Um assobio estridente, agressivo, cortante, põe termo à refrega.
Pararam as cabras, com os pêlos eriçados, ao som do assobio do pastor Aníbal. O sardão que há horas se aquecia ao sol, sente que o sangue se lhe esfria num ápice. Terá de voltar a expor-se, de novo, ao calor solar para readquirir a temperatura perdida.
Aníbal tem o condão de ser obedecido. Obedecem-lhe os cães, os lobos, as cabras, mesmo as mais renitentes e ainda não nasceu quem lhe possa desobedecer.
Como não há regra sem excepção, só um animal nunca lhe mostrou medo, muito menos lhe obedeceu e, até obrigou Aníbal a estar de atalaia: um lobo acinzentado, sempre pronto a arreganhar os dentes e a mostrar o seu mau humor.
O único prazer de Aníbal era tocar flauta. Ninguém lhe ensinou. Começou por imitar o vento, o trovão, o farfalhar das folhas acariciadas pela brisa, a sua agitação em dias de tormenta, o bater das asas dos descarados pardais, os ataques das águias e milhafres…
Da sua flauta saíam sons que abraçavam a Primavera, repudiavam o Inverno, acompanhavam o baloiçar das folhas que caiam e chapinhavam nas águas frescas, frequentadas pelas deusas encaloradas das fontes.
Nestas ocasiões, o lobo aproximava-se. Sentava-se sempre do lado direito de Aníbal, sem qualquer receio. Por sua vez, o pastor sentia-se em paz, ladeado por aquele espectador tão especial, seu irmão indomável.
Mal estes momentos acabavam, arreganhavam os dentes um ao outro e partiam para as suas vidas.
Passaram-se os anos e o lobo, trôpego, escanzelado dirige-se para o lado direito de Aníbal. Este estranha. Não está a tocar. Percebe ou julga perceber o que está a acontecer.
Tocou como nunca. A seu lado o lobo sonhou que voltara a ser jovem, a perseguir as suas presas, a correr pelos montes…
Aníbal acabou de tocar. Olhou para o lobo. O seu amigo estava deitado e não mais arreganharia o dente a ninguém.
Jorge C. Chora
Pararam as cabras, com os pêlos eriçados, ao som do assobio do pastor Aníbal. O sardão que há horas se aquecia ao sol, sente que o sangue se lhe esfria num ápice. Terá de voltar a expor-se, de novo, ao calor solar para readquirir a temperatura perdida.
Aníbal tem o condão de ser obedecido. Obedecem-lhe os cães, os lobos, as cabras, mesmo as mais renitentes e ainda não nasceu quem lhe possa desobedecer.
Como não há regra sem excepção, só um animal nunca lhe mostrou medo, muito menos lhe obedeceu e, até obrigou Aníbal a estar de atalaia: um lobo acinzentado, sempre pronto a arreganhar os dentes e a mostrar o seu mau humor.
O único prazer de Aníbal era tocar flauta. Ninguém lhe ensinou. Começou por imitar o vento, o trovão, o farfalhar das folhas acariciadas pela brisa, a sua agitação em dias de tormenta, o bater das asas dos descarados pardais, os ataques das águias e milhafres…
Da sua flauta saíam sons que abraçavam a Primavera, repudiavam o Inverno, acompanhavam o baloiçar das folhas que caiam e chapinhavam nas águas frescas, frequentadas pelas deusas encaloradas das fontes.
Nestas ocasiões, o lobo aproximava-se. Sentava-se sempre do lado direito de Aníbal, sem qualquer receio. Por sua vez, o pastor sentia-se em paz, ladeado por aquele espectador tão especial, seu irmão indomável.
Mal estes momentos acabavam, arreganhavam os dentes um ao outro e partiam para as suas vidas.
Passaram-se os anos e o lobo, trôpego, escanzelado dirige-se para o lado direito de Aníbal. Este estranha. Não está a tocar. Percebe ou julga perceber o que está a acontecer.
Tocou como nunca. A seu lado o lobo sonhou que voltara a ser jovem, a perseguir as suas presas, a correr pelos montes…
Aníbal acabou de tocar. Olhou para o lobo. O seu amigo estava deitado e não mais arreganharia o dente a ninguém.
Jorge C. Chora
sexta-feira, 21 de maio de 2010
O Manitas d`Oiro
O seu pai era pianista e a mãe guitarrista. Bom, nem sempre foi assim: umas vezes trocavam e a mãe ficava ao piano e o pai à guitarra.
Filho de quem era, alcunharam-no, logo à nascença, de Manitas d`Oiro. Nem outra coisa se admitiu ou se poderia colocar como hipótese, até porque os avós de ambos os lados se dedicavam, como amadores, à música.
Credenciais com este peso poucos as podiam apresentar e vai daí a atribuição deste nome, que à partida coroaria um artista de eleição, no fim da carreira.
Manitas fez jus ao nome e às esperanças que nele depositaram? Sim e não. Mau. Parece que temos discurso político! Fez ou não fez?
Os anos correram lentos, arrastados, direi mesmo, de modo penoso:
-Manitas vai estudar… - ordenavam os pais.
-Sim …vou já… -e as horas passavam -se sem que ele se mexesse.
Alvo da chacota de colegas da mesma idade, dos mais velhos e, espantem-se, dos mais novos, torturavam -no sempre que podiam:
-Ó Manitas quando nos mostras o oiro?
-Ó Manitas dá-me o oiro…
-Ó Manitas já roubaste o oiro?
-Ó Manitas…. - e diziam-lhe o que lhes vinha à cabeça.
Manitas respondia -lhes à letra ,mas com uma bonomia tal, que quase os incentivava a continuar.
A descrença nas suas capacidades foi-se agudizando à medida que o tempo passava. Ele não tinha sucesso nos estudos ,para a música era uma negação, para o desporto nem se fala.
Passou a Coitado. O Coitado isto, aquilo e aqueloutro…
Um belo dia pediu aos pais dinheiro para se inscrever num curso. Deram-lho sem sequer perguntarem qual era.
Ia às aulas, trancava-se no quarto e estudava .Só aos pais disse que pretendia ser massagista e estes apoiaram-no.
Estabeleceu-se e a sua “arte” foi sendo elogiada e reconhecida. Hoje, os que o conhecem, recomendam-no a quem tem dores:
-Só O Manitas d`Oiro te pode livrar disso!
Caso o caro leitor estivesse à espera de um desfecho miserabilista, de acordo com os tempos que correm, desengane-se: ainda pode haver histórias de sucesso. Não acredita? Vá buscar uma lupa, muna-se de um potente foco e procure. Caso não encontre, é porque não o fez de acordo com as regras. Quais regras? Bom, aí é que a porca torce o rabo…mas que as há …
Jorge C. Chora
Filho de quem era, alcunharam-no, logo à nascença, de Manitas d`Oiro. Nem outra coisa se admitiu ou se poderia colocar como hipótese, até porque os avós de ambos os lados se dedicavam, como amadores, à música.
Credenciais com este peso poucos as podiam apresentar e vai daí a atribuição deste nome, que à partida coroaria um artista de eleição, no fim da carreira.
Manitas fez jus ao nome e às esperanças que nele depositaram? Sim e não. Mau. Parece que temos discurso político! Fez ou não fez?
Os anos correram lentos, arrastados, direi mesmo, de modo penoso:
-Manitas vai estudar… - ordenavam os pais.
-Sim …vou já… -e as horas passavam -se sem que ele se mexesse.
Alvo da chacota de colegas da mesma idade, dos mais velhos e, espantem-se, dos mais novos, torturavam -no sempre que podiam:
-Ó Manitas quando nos mostras o oiro?
-Ó Manitas dá-me o oiro…
-Ó Manitas já roubaste o oiro?
-Ó Manitas…. - e diziam-lhe o que lhes vinha à cabeça.
Manitas respondia -lhes à letra ,mas com uma bonomia tal, que quase os incentivava a continuar.
A descrença nas suas capacidades foi-se agudizando à medida que o tempo passava. Ele não tinha sucesso nos estudos ,para a música era uma negação, para o desporto nem se fala.
Passou a Coitado. O Coitado isto, aquilo e aqueloutro…
Um belo dia pediu aos pais dinheiro para se inscrever num curso. Deram-lho sem sequer perguntarem qual era.
Ia às aulas, trancava-se no quarto e estudava .Só aos pais disse que pretendia ser massagista e estes apoiaram-no.
Estabeleceu-se e a sua “arte” foi sendo elogiada e reconhecida. Hoje, os que o conhecem, recomendam-no a quem tem dores:
-Só O Manitas d`Oiro te pode livrar disso!
Caso o caro leitor estivesse à espera de um desfecho miserabilista, de acordo com os tempos que correm, desengane-se: ainda pode haver histórias de sucesso. Não acredita? Vá buscar uma lupa, muna-se de um potente foco e procure. Caso não encontre, é porque não o fez de acordo com as regras. Quais regras? Bom, aí é que a porca torce o rabo…mas que as há …
Jorge C. Chora
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Que azar!
A festa foi pantagruélica. Os convites foram entregues, com a devida antecedência, às figuras gradas do povoado.
A vaca era desmesurada, tenra, suculenta. O espeto em que foi assada teve de ser feito.
Prepará-la foi o cabo dos trabalhos, tendo de ser chamados especialistas para o efeito.
Durante dias banquetearam-se, até enjoarem o pitéu, e concluírem que não conseguiam comê-la toda.
Reuniram-se e decidiram que mais valia partilhar o que sobrava ou tinham de deitar fora o que ainda havia.
As portas do recinto da festa foram abertas de par em par. As pessoas acotovelavam-se, desconfiadas de que o pouco que ainda havia não dava para todos.
A desconfiança era justificada. Alguns felizardos conseguiram, com recurso a empurrões, caneladas e sopapos, afastar os famélicos concorrentes.
Uns gramas de carne e fortes dores nas glândulas salivares foram o que conseguiram.
Mal a festa acabou, os vendedores da vaca apresentaram uma conta astronómica, justificada pela qualidade da vaca, pela forma como fora alimentada, pelas mordomias que lhe tinham sido prodigalizadas: passeios, massagens à japonesa para que a carne fosse tenra, cerveja misturada nos alimentos…
Reuniram-se de novo e decidiram, devido ao preço a pagar, que por uma questão de equidade, todos os habitantes do povoado deviam participar no esforço de pagamento.
Os que nem sequer tinham cheirado a vaca rebelaram-se:
-Que história é essa?
- Vivemos em comunidade, logo temos de fazer um esforço colectivo! - gritaram exacerbadas as figuras gradas.
-Vocês comem e nós é que temos a indigestão? – escandalizaram-se os deserdados do pitéu.
O pior é que, anos a fio, a cena se repetiu e as despesas a dividir foram cada vez maiores.
Hoje, o povo apresentou na assembleia municipal uma proposta para a alteração do nome do povoado: Tresanda a vaca!
Jorge C. Chora
A vaca era desmesurada, tenra, suculenta. O espeto em que foi assada teve de ser feito.
Prepará-la foi o cabo dos trabalhos, tendo de ser chamados especialistas para o efeito.
Durante dias banquetearam-se, até enjoarem o pitéu, e concluírem que não conseguiam comê-la toda.
Reuniram-se e decidiram que mais valia partilhar o que sobrava ou tinham de deitar fora o que ainda havia.
As portas do recinto da festa foram abertas de par em par. As pessoas acotovelavam-se, desconfiadas de que o pouco que ainda havia não dava para todos.
A desconfiança era justificada. Alguns felizardos conseguiram, com recurso a empurrões, caneladas e sopapos, afastar os famélicos concorrentes.
Uns gramas de carne e fortes dores nas glândulas salivares foram o que conseguiram.
Mal a festa acabou, os vendedores da vaca apresentaram uma conta astronómica, justificada pela qualidade da vaca, pela forma como fora alimentada, pelas mordomias que lhe tinham sido prodigalizadas: passeios, massagens à japonesa para que a carne fosse tenra, cerveja misturada nos alimentos…
Reuniram-se de novo e decidiram, devido ao preço a pagar, que por uma questão de equidade, todos os habitantes do povoado deviam participar no esforço de pagamento.
Os que nem sequer tinham cheirado a vaca rebelaram-se:
-Que história é essa?
- Vivemos em comunidade, logo temos de fazer um esforço colectivo! - gritaram exacerbadas as figuras gradas.
-Vocês comem e nós é que temos a indigestão? – escandalizaram-se os deserdados do pitéu.
O pior é que, anos a fio, a cena se repetiu e as despesas a dividir foram cada vez maiores.
Hoje, o povo apresentou na assembleia municipal uma proposta para a alteração do nome do povoado: Tresanda a vaca!
Jorge C. Chora
sábado, 8 de maio de 2010
O remédio do Mindo
Mindo é homem de muitas viagens. Viajou e trabalhou a bordo dos navios nórdicos. Serviu no bar, aturou este mundo e o outro, viu e calou muita coisa. Entre Cabo Verde, os países do Norte da Europa e o resto do mundo foi ganhando calo e uma filosofia própria e adequada a cada um e às circunstâncias.
Em terra ao fim de uns anos, montou um bar. Sabe com rigor o que os clientes querem.
Atrás do balcão vê um patrício seu .Como é evidente, sabe o que ele deseja, e dá-lhe conversa:
-Está um vento que até nos põe a cabeça zonza …
-É verdade… tem aí o remédio?
-Claro - responde Mindo enquanto agarra no garrafão de grogue, que lhe escorrega da mão, mas logo consegue agarrá-lo com firmeza.
Enquanto isto se passou, a clientela repreendeu-o:
-Bô (você) tem de ter cuidado…
-Dá cá mais um antes que partas…e não fique nenhum…
Mindo volta ao ataque:
-Então e você compadre está melhor dos dentes?
-Nem por isso Mindo. Um grogue daquele para melhorar.
Dá um relance pela pequena sala. Está tudo nos conformes. Zé do gorgomilo alto,bochecha e dirige-se à porta , faz menção de deitar fora o grogue com que diz estar a desinfectar a garganta: o chão está mais seco do que o da ilha do Mindo.
No canto esquerdo da sala, está sentado oTreme-Treme,que está sempre com frio e ordena:
-Mindo, o meu copo está vazio…
-Estou a caminho…
Ao som da “sodade” de Cesária Évora, a clientela vai-se meneando e escorropichando
grogues. Exige que Mindo beba também um.
-Como não estou doente bebo à saúde e às melhoras de todos - e tira de baixo do balcão um copo,supostamente de grogue, previamente cheio de água, que bebe de um gole, e estala a língua com satisfação,enquanto diz - ah! grande remédio!
Jorge C. Chora
Em terra ao fim de uns anos, montou um bar. Sabe com rigor o que os clientes querem.
Atrás do balcão vê um patrício seu .Como é evidente, sabe o que ele deseja, e dá-lhe conversa:
-Está um vento que até nos põe a cabeça zonza …
-É verdade… tem aí o remédio?
-Claro - responde Mindo enquanto agarra no garrafão de grogue, que lhe escorrega da mão, mas logo consegue agarrá-lo com firmeza.
Enquanto isto se passou, a clientela repreendeu-o:
-Bô (você) tem de ter cuidado…
-Dá cá mais um antes que partas…e não fique nenhum…
Mindo volta ao ataque:
-Então e você compadre está melhor dos dentes?
-Nem por isso Mindo. Um grogue daquele para melhorar.
Dá um relance pela pequena sala. Está tudo nos conformes. Zé do gorgomilo alto,bochecha e dirige-se à porta , faz menção de deitar fora o grogue com que diz estar a desinfectar a garganta: o chão está mais seco do que o da ilha do Mindo.
No canto esquerdo da sala, está sentado oTreme-Treme,que está sempre com frio e ordena:
-Mindo, o meu copo está vazio…
-Estou a caminho…
Ao som da “sodade” de Cesária Évora, a clientela vai-se meneando e escorropichando
grogues. Exige que Mindo beba também um.
-Como não estou doente bebo à saúde e às melhoras de todos - e tira de baixo do balcão um copo,supostamente de grogue, previamente cheio de água, que bebe de um gole, e estala a língua com satisfação,enquanto diz - ah! grande remédio!
Jorge C. Chora
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