quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O que para uns é ouro...

Caminhava pela berma da estrada de modo inseguro. Apoiado em canadianas ia à horta tratar os tomateiros. Carregava, suspenso ao pescoço, um alforge cujas bolsas lhe pendiam ao peito e balouçavam ao sabor dos pequenos passos que conseguia dar. Não tinha quem o ajudasse e não se queixava por dois motivos: o primeiro porque nunca tivera esse hábito, o segundo porque nunca tivera a quem.

Ia pensando que a aliança entre a sua idade, que crescia a olhos vistos, e a doença que persistia em atacá-lo, lhe afectava a marcha e os seus pequenos afazeres, quando sentiu uma voz atrás de si:

-Pst…pst…para onde é que o cavalheiro vai?

Desconhecendo por completo a voz, esteve vai-não-vai para se abespinhar. Qualquer coisa lhe dizia que algo estava para acontecer.

-Então o tiozinho não fala com os pobres? Manias de rico…

A dor do joelho acentuou-se. Mau sinal, pensou. Resolveu conter-se e ripostou:

-A única riqueza que tenho, está nestas bolsas que levo ao peito e, caso faça muita questão, sou homem para a partilhar consigo…

Ainda mal acabara a frase quando sente em cima de si dois braços a agarrá-lo e as mãos do amigo do alheio a enfiarem-se nas bolsas do seu alforge e a roubarem-lhe o conteúdo.

Quando o larápio se deu conta de que o que tinha nas mãos era estrume, enfureceu-se:

-Está a gozar-me? Então isto é que é a sua riqueza?

-Então o senhor ladrão não sabe, ou ninguém lhe ensinou, que o que é ouro para uns é trampa para outros?- e, sem que o larápio esperasse, assentou-lhe uma bengalada no alto do cocuruto que o deixou a cacarejar.

Um vizinho que por acaso ali passava, dissuadiu o fedorento larápio de reagir, dando-lhe uma biqueirada de uma força tamanha que o homem deixou de cacarejar para passar a zurrar.

Já imaginou, caro leitor, se acontecesse o mesmo a todos aqueles que nos vêm aos bolsos buscar as nossas migalhas?

Jorge C. Chora

terça-feira, 2 de agosto de 2011

A senhora que não cabia na casa de banho

Pediu para ir à casa de banho mas ficou entalada entre a porta e a sanita. Gritou por socorro e foi socorrida. Ajudaram-na a desencaixar-se. Não foi tarefa fácil.

Riram-se à socapa os presentes. A senhora, agastada, virou-se para um enorme cavalheiro que também ali estava e desancou-o:

-De que se ri? Vá lá o senhor entrar, ou melhor, tentar entrar, e logo verá o que lhe acontece!

-Minha senhora, no meu caso foi preciso chamar os bombeiros. Só a persistência de uma bombeira é que me salvou.

-E pelo visto é hoje a sua esposa… -alvitrou a desencaixada.

-Como adivinhou?

-É que o meu também o é! São eles que têm jeito para os XXL…

-Perdão minha companheira de infortúnio. Não se culpabilize. A verdadeira culpa, a existir alguma, será do estabelecimento que devia ter afixado as medidas do WC à porta do mesmo ! ah e um aviso visível com os dizeres explícitos: Para raquíticos.

E saíram de braço dado, dando grandes gargalhadas, perante o espanto dos inúmeros “enfezados” que povoavam o local.

Jorge C. Chora

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O preço da cobiça

No centro comercial, deu três voltas à balança, parou e olhou em redor. Observou o fundo do corredor, primeiro à esquerda e depois do outro lado. Deu ainda mais duas voltas e hesitou. Colocou um pé em cima dela mas logo recuou. Subiu de novo mas desceu de imediato.

A funcionária da loja, mesmo em frente, assomou à porta e entabulou conversa:

-Parece estar com um certo receio de se pesar…

-Sim …o peso é muito e …

-Olhe, a senhora tem uns sapatos que me parecem bastante grandes e pesados…pode pesar-se descalça que sempre ajuda… -interrompeu-a a funcionária.

-Os sapatos? Pode ter a certeza que os descalço. Já não trouxe a” lingerie” vestida para evitar mais uns gramas…

-Então porque continua a hesitar?

-Eu queria ver se não passava ninguém e podia pesar-me sem o vestido!

-Mas ficava nua… - espantou-se a balconista.

Nesse momento, o dono da loja, de olho arregalado e sem perder pitada da conversa, bichanou à sua empregada:

-Diz-lhe que a área está deserta… agora. Vá depressa… - e escondeu-se estrategicamente atrás do balcão.

-Sim, senhor Zeca – e colocou-se em frente à mulher, enquanto ela, com toda a calma, se despia e se pesava.

O proprietário, sem nada conseguir ver, ia dando pequenos pulos e exclamando:

-Me ..da… me..da…assim não vale Florinda…sai da frente…

E no meio da sua desilusão, furioso, engasgava-se, mas ia apelando com a voz sumida:

-Sai da frente Florinda…

-Tenha calma senhor Zeca… ainda tem um ataque e eu vejo-me obrigada a dar-lhe a respiração boca a boca…

E o proprietário, só de imaginar a cena, suplicou-lhe, aflito, a cambalear:

-Ai que eu morro Florinda…

Florinda não esteve com meias medidas: pegou nele ao colo e só por um triz não o sufocou com o beijo que lhe deu.

A primeira decisão que Florinda tomou após o seu casamento com o Zeca, foi mandar tirar a balança que estava em frente à loja; a segunda e a terceira foram tomadas em simultâneo: Ter sempre o pau de metro à mão de semear e o afogueado marido sob vigilância.

Quando ela o aperta, ele só consegue balbuciar:

-Ai que eu morro…


Jorge C. Chora

sábado, 2 de julho de 2011

Receber a reforma faz mal à saúde

O frenesim das sirenes escutava-se ao longe. Segundos depois, em plena avenida, os sons estridentes rasgaram a relativa pacatez da avenida. Potentes motas, conduzidas por experientes batedores, engoliam quilómetros, precedidas por oito viaturas topo de gama.

Às vinte e três horas em ponto, os portões do nº 13 abriram-se por breves momentos. Uma chiadeira de pneus e um cheiro a borracha queimada espalharam-se pelo ambiente. As viaturas foram como que engolidas e os portões fecharam-se, impedindo qualquer visão para o interior.

A reunião estava aprazada para daí a quinze minutos. Os dirigentes tomaram assento e procedeu-se à leitura do único ponto da ordem de trabalhos:

”Em tempo de crise, como poupar dinheiro com as reformas dos velhos e quejandos?”

A discussão iniciou-se. Havia um acordo prévio quanto à premência do problema. Tratava-se agora de definir a estratégia que levasse a uma redução drástica das mesmas.

Foram várias as ideias apresentadas, todas elas já ventiladas, como sejam as de só assegurarem uma parte pelo estado e a outra pelos negócios privados, a existência de limites…enfim o “dejá vue”.

-“Adelante …Adelante… “ – comandava o dirigente-mor, ansioso para que surgisse algo de novo, tentando apressar a discussão, revelando a impaciência herdada de uma longínqua bisavó castelhana.

-Se me permitem… - iniciou um jovem dirigente – fungando e aclarando a voz.

-Permitimos tudo. Desembuche e deixe-se de salamaleques. – cortou o bisneto da espanhola.

-Então digo… a estratégia é conseguirmos convencer o “povo” de que receber uma reforma faz mal à saúde das pessoas…

-Como assim?- questionaram interessados os presentes – convencermos a população de que a atitude correcta e mais saudável é não receber nenhuma reforma?

-Exactamente isso. Divulgarmos quantos morrem logo que se reformam… iniciarmos uma campanha…

Uma ovação impediu o orador de continuar. A estratégia,”grosso modo”, estava achada. A assembleia propôs que o autor da ideia fosse louvado e premiado com três reformas vitalícias que vigorassem de imediato: A primeira ser-lhe-ia atribuída pela originalidade da ideia; a segunda pela poupança que iria desencadear; a terceira pelo fomento de uma política social saudável.

Jorge C. Chora

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Olho Vivo

A velha viatura enlameada travou no meio da praça da aldeia provocando uma grande nuvem de poeira. Do seu interior saíram quatro homens que olharam em redor, com cara de poucos amigos. Um vinha engravatado e os outros trataram-no por senhor engenheiro.
O engenheiro desatou aos berros, exigindo rapidez e mostrando pressa:

-Despachem-se…não temos o dia todo…tirem o material e vamos começar as medições…

Um saco de lona verde foi aberto e do seu interior foram retirados fios-de-prumo, um grande tripé e uma enorme régua e outros objectos. Dois dos funcionários e o chefe seguiram na direcção dos campos. O outro trabalhador, transportando um garrafão vazio de vidro transparente, encaminhou-se para a taberna local.

Ao entrar no estabelecimento cumprimentou os presentes, pediu que lhe enchessem o garrafão com vinho tinto e sentou-se a uma mesa num canto da sala. Os aldeões acorreram ao local e em minutos lotaram-no.

-Afinal que trabalhos é que vêm cá fazer?- interrogou-o um dos idosos recém-chegados.

-Vamos construir uma estrada. Ela vai atravessar a aldeia… por ali mais ou menos … -e apontava vagamente para uma grande área, onde estavam terras cultivadas - mas quem ainda vai decidir é o engenheiro…

-Mas então… vão estragar-nos as nossas propriedades… - comentaram vários dos presentes.

-Bom… o sítio por onde passa nunca é definitivo… é sempre possível influenciar a decisão…não sei se percebem. Quem, como eu, se dá bem com o chefe…pode sempre mudar alguma coisa. Tudo depende de…não sei se estão a perceber…

Eles percebiam. Um a um foram-se chegando e avançando com o dinheiro que podiam. Ninguém queria ver as suas pequenas terras retalhadas.

Quando o bolso do jaquetão já estava bem gordo, o trabalhador despediu-se:

-Bom…vou andando…vou falar ao engenheiro…

Nesse preciso momento, o taberneiro aproximou-se e disse-lhe em voz baixa:

-Antes de sair chegue aqui ao cantinho do balcão…

Curioso, acedeu ao pedido do dono da casa. Estupefacto ouviu-o ordenar-lhe:

-Deixa aí metade dessa massa que recebeste…

-A que propósito? – reagiu, indignado.

E nesse preciso momento, a mulher do taberneiro gritou-lhe,furiosa, do outro topo do balcão:

-Ó Olho Vivo, deixa-te de conversas que há aqui clientes para aviar…

Ao ouvir este nome, estremeceu, pois estava perante o mestre de que o seu chefe,”o engenheiro”, não se cansava de falar…o criador do golpe que eles queriam dar.

Jorge C. Chora

quarta-feira, 8 de junho de 2011

As ordens são para se cumprirem!

O calor era tanto que derretia o alcatrão. Sentia, à medida que circulava, os pneus da sua viatura colarem-se à estrada. Não havia vivalma e rolava de modo descontraído pela longa recta à sua frente. Ligou o rádio e sorriu ao pensar que tinha começado as suas curtas férias. Juntara, cêntimo a cêntimo, o dinheiro para aqueles dias no Algarve. O desemprego não lhe deixava margem para mais e tinha de se contentar com o que tinha.

Ocupada com os seus pensamentos, viu umas centenas de metros à sua frente, uma autoridade a fazer-lhe sinal de paragem. Olhou pelo retrovisor a ver se havia alguém que viesse atrás de si. Nada viu. Tornou a olhar e certificou-se que a ordem era para si. Um auto-stop no meio do deserto? interrogou-se.

-Bom dia senhor agente…

-Bom dia minha senhora. Faça o favor de me mostrar os documentos da viatura e os seus por favor… – e enquanto falava, perfilava-se e fazia-lhe a continência.

Verificados os documentos, aberta a bagageira, mostrado o colete e o triângulo, inspeccionados os seguros e os certificados, a condutora, à torreira do sol, completamente encharcada em suor, suspirou e disse:

-Está tudo em ordem? Posso seguir a minha viagem?

-Só depois de pagar a multa…sabe que cometeu uma infracção grave!

-Multa? Infracção grave? De que é que está a falar senhor agente? - questionou-o, espantada, a condutora.

-Sabe a que velocidade vinha senhora condutora?

-Claro! A noventa, noventa e poucos…

-Confirmo. Vinha a noventa. Sabe que está numa localidade?

-Numa localidade? Só há uma casa…!

-Pois veja o sinal que ali está. – e apontou o malfadado sinal, que mal se via mas estava de facto lá.

Pagou trezentos euros de multa, inverteu a marcha e regressou a casa, sem férias e sem dinheiro. Uma raiva surda apoderou-se de si e desejou que todo o mal do mundo acontecesse ao homem. Nesse momento um pneu da sua viatura rebentou. Logo de seguida desabou uma chuva tropical.

No seu posto de vigília, molhado até ao tutano, o guarda resmungava:

-Num sítio onde não passa ninguém, ia lá perder a oportunidade de mostrar ao chefe que até no deserto cumpro a minha função!

E ia sacudindo as pernas a ver se conseguia livrar-se do verdadeiro oceano que lhe inundava as botas.

Jorge C. Chora

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Visitas incómodas

Aos primeiros sons de passos, espreitava pelo óculo da sua casa. Caso a visita fosse indesejável, nomeadamente o senhorio, estalava os dedos e dois dos seus filhos, entre os que estivessem mais próximos, corriam à procura dos penicos e instalavam-se junto à entrada.

Ainda não tinham tocado à porta e já eles gemiam que nem uns desalmados, como se estivessem no auge do esforço requerido ao acto. Seguiam-se sons de alívio directamente proporcionais ao esforço dispendido, sincronizados com a lenta abertura da porta. Ainda esta não abrira e já cá de fora se ouviam rogos de desculpas:

-Peço mil perdões…voltarei numa outra altura…

-Se não for incómodo… - respondia sorridente o inquilino.

Passaram-se algumas semanas e a cena continuou a repetir-se. Meses depois o inquilino precisou de falar com o proprietário, devido a uma verdadeira catadupa de avarias.

Quando subia as escadas da casa do proprietário, ouviu uma verdadeira correria no interior da mesma. Ainda não tocara à campainha, quando uma onda sonora, em tudo semelhante à que os seus filhos faziam, o envolveu.
Suspendeu o gesto de tocar e preparava-se para se ir embora, quando a porta se abriu.

-Faça o favor de entrar … -convidou-o o proprietário.

-O inquilino ia morrendo com o cheiro pavoroso. De olhos arregalados, em vez de dois penicos viu dez e, contrariamente aos seus, estes transbordavam…

-Peço-lhe mil desculpas…a casa de banho da minha casa precisa de reparações, mas estou à espera que me paguem as rendas em atraso … - desculpou-se o proprietário com ar inocente.

-Escusava era de levar tão longe o ensinamento… - balbuciou o inquilino,asfixiado, apertando o nariz.

Jorge C. Chora