segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A surpresa

Numa aldeia, perdida na montanha, vivia um menino diferente dos outros: era muito gordo e movia-se muito devagar. Todos os dias ia à escola. Descia muito lentamente a montanha e demorava três vezes mais tempo do que os outros meninos a descer até ao vale. Chamava-se Santiago.

Um dia, os colegas que viviam na montanha foram atrás dele, escondidos, para verem o que ele fazia durante o caminho. A primeira paragem que Santiago fez, foi junto a uma pequena rocha. Sentou-se, abriu o capote e foi tirando algumas cenouras dos bolsos interiores. Esperou uns dez minutos, em silêncio, e foi mordiscando a cenoura mais pequenina que tirara.

-Como é que ele não havia de ser gordo! Até pára para comer mal saiu de casa! – bichanaram os colegas acocorados.

Na frente de Santiago surgiu um velho coelho, com uma voz trémula que lhe estendeu a pata e o cumprimentou:

-Bom dia meu bom amigo. Desculpa-me o atraso mas hoje tenho uma grande dor numa perna e …

-Estás desculpado. Trago-te umas cenouras bem tenras. Espero que tu e a tua mulher as consigam comer.

-Muito obrigado. Que Deus te pague … - e o velho coelho afastou-se, a custo, carregando a comida que Santiago lhe trouxera.

Levantou-se e seguiu, sem que os colegas se tivessem dado conta do que se passara, pois só conseguiam ver as costas de Santiago. Um bocado mais abaixo tornou a sentar-se. Tirou do capote um frasco de água oxigenada, algodão e uma ligadura e fez um curativo a um jovem corvo que estava numa moita à sua espera.

Atrás dele, espreitando, escondidos, sem nada conseguirem ver, os colegas lançam-se a adivinhar:

-Até esconde comida para o caminho de regresso!

E as paragens foram-se sucedendo junto a umas ovelhas, a uns estranhos pássaros e a uma cabra.

A maior surpresa dos colegas foi quando Santiago colheu flores e as guardou no capote.~

-A fome é tanta que vai comer flores! - comentaram.

Ao chegar à escola os colegas apressaram-se a divulgar a sua verdade aos outros:

-E traz no capote as flores que há-de comer ao lanche. Imaginem!


Quando Santiago chegou ao pátio tinha à sua espera todos os meninos. Olhavam-no com os olhos esbugalhados e um ar trocista.

No alto das escadas, quando Matilde viu Santiago, gritou-lhe bem alto:

-Sabes que dia é hoje?

-Claro Matilde. É dia 14 de Fevereiro…não me esqueci de ti - e abriu totalmente o capote, deixando o chão forrado de flores.

Jorge C. Chora

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O gesto

A tesoura da poda em vez de cortar, triturava os ramos, mesmo os mais pequenos. A dona olhou-a e decidiu mandá-la afiar. Na primeira oportunidade dirigiu-se a uma pequena oficina que ostentava um grande cartaz publicitando o serviço pretendido.

-Bom dia. Quanto é que custa afiar uma tesoura? - e separou as mãos, tentando exemplificar o tamanho da tesoura.

-Três euros.

- Ela é assim… -e corrigiu o tamanho, juntando mais as mãos.

-O profissional olhou de novo e apreçou:

-Três euros e meio…

A senhora voltou à carga, esforçando-se por mostrar o tamanho certo do pequeno objecto. Diminuiu, com a máxima precisão, a distância entre mãos. Mal acabara de exemplificar quando um novo preço foi adiantado:

-Quatro euros…

-Mas então, quanto menor é a tesoura mais caro fica o trabalho?

O homem, com um sorriso manhoso e com uma pronúncia sibilante sentencia:

-E é para quem quer!

E a jovem senhora, junta os tacões dos seus pequenos sapatos, coloca-se em bicos dos pés, faz o gesto do Zé Povinho e atira:

- O Tanas!

Jorge C. Chora

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O telefonema

Quis telefonar e não consegui:

o fio do telefone tinha sido cortado.

Fui a outra cabine e também não resultou:

a caixa onde se colocavam as moedas desaparecera.

À terceira onde fui, tinha o telefone, o fio e a caixa,

mas estava avariada.

Quando finalmente encontrei uma a funcionar,

esqueci-me por que motivo queria telefonar.

Jorge C. Chora

sábado, 7 de janeiro de 2012

O servo de Midas

O facto do anafado e beberrão Sileno, se ter perdido da comitiva do seu amigo Baco, o deus Baco, é de todos conhecido. O que se seguiu também é do domínio público: o rei Midas encontrou o borrachão, tratou-o às mil maravilhas e entregou-o são e salvo ao deus do vinho. Felicíssimo pelo seu amigo ter sido encontrado, Baco concedeu a Midas a concretização de um desejo: transformar em ouro tudo em que o rei tocasse. Até aqui não há novidade nenhuma.

Quando Baco concedeu ao rei Midas a concretização do seu desejo, a de transformar em ouro tudo em que tocasse, mal sonhava que um dos servos do rei estava a espreitá-los. O servo viu Baco ir à caixa do pó mágico e lançá-lo sobre Midas.

“Tudo Quer” era o nome deste servo que ficou possesso ao ver o rei tocar numa maçã e esta transformar-se em ouro. A cobiça cegou-o.

Um frenesim demoníaco tomou conta dele. Esgueirou-se porta fora e correu para o local onde estava a caixa com o pó que vira ser lançado sobre Midas. Nervoso, sôfrego, incapaz de controlar o desejo, mergulhou a mão na caixa trazendo uma enorme quantidade de pó mágico, que se apressou a atirar sobre si próprio. Sentiu o peito rebentar-lhe de felicidade. Já podia ter tudo o que quisesse. Veloz, dirigiu-se ao celeiro do palácio, lançou-se sobre um fardo de palha e abraçou-o de imediato. Qual não foi o seu espanto quando, em vez do fardo se transformar em ouro se tornou num enorme monte de esterco. Levantou-se mais rápido do que um relâmpago e atirou-se para outro fardo: apareceu um segundo monte de esterco!

Com a cabeça perdida, correu para uma sela pendurada na parede. A sela, depois de tocada, transformou-se no terceiro monte de esterco. Recusou-se a acreditar no que lhe estava a acontecer. No dia seguinte, foi com satisfação que verificou que podia tocar novamente em tudo, que nada, mesmo nada acontecia. Quando se convenceu que o sortilégio tinha deixado de existir teve a muito desagradável surpresa de verificar que no dia seguinte voltara ao mesmo: Tudo em que tocava se transformava em esterco.

Como iria reagir o seu rei ao vê-lo transformar em porcaria tudo aquilo em que tocasse?”Tudo Quer” arrependeu-se mil vezes do acto que cometera. Fugiu e só parou ao pé de um porto onde estavam ancorados alguns barcos. Pela calada da noite logrou embarcar sem que ninguém o visse. O navio partiu no dia seguinte e navegou vários dias.

Acabou por desembarcar num porto desconhecido, na cidade de Olissipo. Por lá se casou e teve numerosa prole. O único senão é que os seus descendentes herdaram o seu problema: dia sim dia não, tudo em que tocavam se transformava em mer..

Foram tão numerosos os descendentes que povoaram boa parte do território europeu e alguns partiram com Colombo para as Américas.

Muitos deles acabaram por se dedicar à política, à banca e aos negócios imobiliários…

Livra!

Jorge C. Chora

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O Flamejante

Chegou ao lugarejo envolto numa auréola de mistério. Ninguém fazia ideia de quem era o fulano, o que fazia, ou porque escolhera aquela terra para viver. Sentiam, no entanto, de modo vago, que havia qualquer coisa de familiar nele…

Alguns dos habitantes apressaram-se a construir-lhe uma fama de dotado, habilidoso, capaz de prodígios que eles próprios atestaram como tendo presenciado. Forjaram com o estranho uma partilha de intimidade, uma comunhão de interesses imaginária:

-Se vocês imaginassem quem ele é… claro que não sabem… - dizia um dos amigos, ficcionando uma proximidade, procurando elevar-se aos olhos dos conterrâneos.

-Claro que eles estão impossibilitados …nem sequer são seus amigos… - concluía outro dos aldeões.

Em tempo recorde, ninguém ficou excluído de pertencer ao círculo de íntimos de amigos do recém-chegado.

-Afinal como se chama o homem? - perguntou alguém.

-O que é que isso interessa? – repreenderam-no os restantes.

O tempo foi passando e os locais foram dando e reforçando as provas de apreço, ao que o estranho respondia com um breve franzir da testa. Desconhecendo o significado de tal comportamento, empenhavam-se ainda mais procurando satisfazê-lo em tudo o que estivesse ao alcance.

Ao fim de quinze dias, o forasteiro ofereceu os seus préstimos para atear a fogueira que daria início à festa da aldeia. À hora marcada, a população compareceu frente à câmara municipal e o amigo de todos também. Olhou em redor, esboçou um sorriso e pediu que segurassem uma pequena tocha, à distância de dois passos da pira de lenha. Avançou cerca de cinco metros e parou. Ficou imóvel durante um tempo, com as mãos colocadas em posição de oração.

Um silêncio pesado abateu-se sobre os presentes. O homem continuava hirto e concentrado. Quando a multidão menos esperava, levanta a perna esquerda, espera uns segundos que a flatulência faça efeito e…eis senão quando, bombardeia a tocha que lança o fogo ao madeiro. A chama era tão intensa que se propagou ao edifício camarário e ao casario em seu redor. Nada sobrou da aldeia. Foi aí que alguns dos presentes se lembraram de que num sítio próximo, um homem que ficou conhecido como o “Flamejante”, tinha feito a mesmíssima coisa.

Pior do que as chamas e as ruínas, só o fedor pavoroso, por incrível que pareça, ficou a pairar na localidade desde essa época.

O “Flamejante” continua a andar por aí.Por precaução, vá apertando o nariz…

Jorge C. Chora

sábado, 10 de dezembro de 2011

A dor de dentes

Dormira mal. As olheiras bordavam-lhe os olhos, as pernas pesavam-lhe e pareciam pedir licença uma à outra antes de darem cada passo. As palavras encadeavam-se com esforço e o pensamento estava emperrado. Estava um bagaço.

Parou junto à vendedora de flores. Deu uma vista de olhos às plantas e fixou o olhar num pequeno vaso com piripiri. Absorto, deixou-se estar, olhando fixamente o dito vaso. Um bom bocado depois, a idosa vendedora decidiu intervir:

-Ora aí tem um remédio que talvez resolva o seu problema.

-Remédio… mas…

-Nem mas nem meio mas. Neste momento só aqui estamos os dois, ninguém ouve, tenho vagar…

-Muito obrigado…

-É assim... colhe dois ou três destes gindungos, lava-os, corta-lhes o pé, coloca-os num pão com uma bifana e truca…para a frente é que é o caminho.Vai ver que ganha uma alma nova…

Entretanto chegara a mulher do “paciente”, ainda a tempo de ouvir o final da “receita”. Sorriu e agradeceu o cuidado com o seu amado:

-Obrigado pela sua ajuda minha senhora…mas ele tem é dores de dentes, fortíssimas…

-Ah! Também serve minha jovem…essa também é a desculpa do meu homem …

E no dia seguinte, quando o casal passou pela vendedora, uma piscadela de olho por parte da jovem e sorridente senhora, foi o maior agradecimento que a sabida vendedora podia ter tido.

Jorge C. Chora

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Viver com o rei na barriga

Sentado à porta de casa, sacode a farta cabeleira suja e afasta as inúmeras moscas que esvoaçam em seu redor. Sorri a quem passa, mesmo aos que fingem não o ver.

-Estás à espera de quê? – interroga-o o vizinho com maus modos e sobranceria sobeja.

-De que me venham buscar o carro…

-Já perdeste a casa, agora é o carro … a seguir será…

-Aquilo que eles quiserem. Sem emprego e sem dinheiro estou sujeito…

-Pois é…quem te mandou a ti sonhar…ter casa, ter carro …onde é que já se viu? eu era o teu chefe e sempre vivi em casa alugada. Fartei-me de poupar. Até o carro era o do meu sogro… - e inchava o peito, sentenciando, de modo retorcido - vaidades que agora pagas caro!

E o da farta cabeleira suja, olhava António, que fora seu colega, bufo a tempo inteiro, chefe que lhe ia reduzindo o salário e que o despedira a mando dos verdadeiros chefes.
Ainda António não tivera tempo de se afastar dois passos, quando o carteiro o viu:

-Sr. António, tem aqui uma carta registada para si.

Abriu-a, leu-a e empalideceu.

As moscas largaram o homem da farta cabeleira e passaram a circundar o novo desempregado. O primeiro, chegou-se para o lado e criou um novo espaço.
Quem passar pelo local, vê agora dois homens que sacodem, à vez, as fartas cabeleiras sujas e que respondem, quando lhes perguntam o que estão ali a fazer:

-A ganhar calo de tanto ouvir que fomos os responsáveis pela crise!

E os que ainda não receberam a carta, seguem ufanos o seu caminho, respirando fundo e comentando com desdém:

-Pois é…viveram com o rei na barriga e agora…

Jorge C. Chora