Na praça do” sou todo teu”,
cachos de beijos
subiram ao céu,
entre sussurros de
sou toda tua,
serás todo meu.
Nessa praça tiveram lugar,
os amores de Bela,
os aís de Catarina,
as promessas e os desejos de Isabel:
Sou toda tua,
serás todo meu.
Cachos de beijos
sobem ao céu,
entre sussurros
de amor, promessas
que se ouvem,
e se renovam:
Sou toda tua, sou todo teu.
Ainda é a praça do” sou todo teu”.
Jorge C. Chora
quarta-feira, 7 de março de 2012
domingo, 4 de março de 2012
A ranhosa
No meio da praça a menina estremecia. As lágrimas corriam-lhe por ambas as faces. Ao princípio ela ainda as tentou limpar mas depois desistiu. As pessoas pararam.
-O que te aconteceu Isabel?
E a menina redobrou as lágrimas e o choro. Uma aflição contagiante começou a apoderar-se dos que presenciavam o sofrimento da gaiata.
-O que tens Isabel? Diz-nos, por favor…
-Perdi o dinheiro que os meus pais me deram para o leite. Coloquei-o em cima da cadeira enquanto me assoava. Quando acabei já lá não estava! Eram dois euros. Agora não posso levar-lhes o leite e fiquei sem o dinheiro. A culpa é minha… como é que isto me aconteceu? Eles não vão confiar mais em mim!
E na praça, os avôs e as avós que viram confiscadas partes significativas das suas reformas, que percebiam perfeitamente a sensação de perda e de revolta,
exclamam comovidos:
-Ah como era bom que os grandes tivessem a responsabilidade das crianças!
Num canto da taberna, uma velha ébria retira os dois euros que escondera no bolso e ordena:
-Mais um copito de aguardente e isso depressa, que o dinheirinho não abunda …donde este veio não virá mais nenhum… - e vira-se para a criança que entretanto se aproximara e choramingava ao pé de si – desanda daqui ranhozita… o prejuízo duns é o lucro doutros…
Jorge C. chora
-O que te aconteceu Isabel?
E a menina redobrou as lágrimas e o choro. Uma aflição contagiante começou a apoderar-se dos que presenciavam o sofrimento da gaiata.
-O que tens Isabel? Diz-nos, por favor…
-Perdi o dinheiro que os meus pais me deram para o leite. Coloquei-o em cima da cadeira enquanto me assoava. Quando acabei já lá não estava! Eram dois euros. Agora não posso levar-lhes o leite e fiquei sem o dinheiro. A culpa é minha… como é que isto me aconteceu? Eles não vão confiar mais em mim!
E na praça, os avôs e as avós que viram confiscadas partes significativas das suas reformas, que percebiam perfeitamente a sensação de perda e de revolta,
exclamam comovidos:
-Ah como era bom que os grandes tivessem a responsabilidade das crianças!
Num canto da taberna, uma velha ébria retira os dois euros que escondera no bolso e ordena:
-Mais um copito de aguardente e isso depressa, que o dinheirinho não abunda …donde este veio não virá mais nenhum… - e vira-se para a criança que entretanto se aproximara e choramingava ao pé de si – desanda daqui ranhozita… o prejuízo duns é o lucro doutros…
Jorge C. chora
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
A máquina que adorava ser "mademoiselle"
Com maus modos abriu a carteira. Retirou algum dinheiro com uma violência fora de vulgar. Aproximou-se da máquina de tabaco e introduziu uma, duas, três moedas e à quarta, quando atingiu o preço do maço pretendido, carregou no respectivo botão. A máquina não deu qualquer sinal. Repetiu o gesto e nada. Furioso, gritou em direcção ao balcão:
-A máquina está ligada?
-Estar está… ela talvez não goste das moedas que está a utilizar…não serão, quiçá, as que ela está habituada… - respondeu-lhe o proprietário do café.
-Está a insinuar, por acaso, que o meu dinheiro é falso? – abespinhou-se o utente.
-Longe disso. É só um momento – e levantou-se de modo calmo e em duas grandes e vagarosas passadas, cobriu o espaço que o separava da máquina.
Abriu-a e mostrou ao senhor as moedas que este tinha metido: três moedas de euro e uma de um dólar.
- Ainda não está habituada a dólares…
O cliente rendeu-se à evidência:
-Mil perdões…
Abriu de novo a carteira e retirou outra moeda, confirmando que era de um euro. Dirigiu-se, à máquina e, num ápice, colocou as moedas de rajada e carregou no botão. Não houve qualquer reacção.
-E agora o que é que se passa?
-É que ela não está habituada à brusquidão… -referiu quase a medo, com receio de ferir a susceptibilidade do estranho cliente.
-Homessa…
-Empresta-me as suas moedas?
-Claro.
O dono do estabelecimento aproximou-se, afagou-a e foi colocando com delicadeza as moedas de euro e falando com ela:
- A mademoiselle queira perdoar a forma um tanto rude como foi tratada…
E os mecanismos funcionaram às mil maravilhas, havendo quem tenha ouvido, de modo muito claro, a máquina responder:
-Merci mon chéri…
-É uma dengosa… -comentou o utente, despeitado com a atenção que a porcaria da máquina merecia por parte da clientela e do dono.
-Não ligues mademoiselle… é o ressentimento e a inveja a falarem. Coisa de humanos… - consolou-a o proprietário.
Jorge C . Chora
-A máquina está ligada?
-Estar está… ela talvez não goste das moedas que está a utilizar…não serão, quiçá, as que ela está habituada… - respondeu-lhe o proprietário do café.
-Está a insinuar, por acaso, que o meu dinheiro é falso? – abespinhou-se o utente.
-Longe disso. É só um momento – e levantou-se de modo calmo e em duas grandes e vagarosas passadas, cobriu o espaço que o separava da máquina.
Abriu-a e mostrou ao senhor as moedas que este tinha metido: três moedas de euro e uma de um dólar.
- Ainda não está habituada a dólares…
O cliente rendeu-se à evidência:
-Mil perdões…
Abriu de novo a carteira e retirou outra moeda, confirmando que era de um euro. Dirigiu-se, à máquina e, num ápice, colocou as moedas de rajada e carregou no botão. Não houve qualquer reacção.
-E agora o que é que se passa?
-É que ela não está habituada à brusquidão… -referiu quase a medo, com receio de ferir a susceptibilidade do estranho cliente.
-Homessa…
-Empresta-me as suas moedas?
-Claro.
O dono do estabelecimento aproximou-se, afagou-a e foi colocando com delicadeza as moedas de euro e falando com ela:
- A mademoiselle queira perdoar a forma um tanto rude como foi tratada…
E os mecanismos funcionaram às mil maravilhas, havendo quem tenha ouvido, de modo muito claro, a máquina responder:
-Merci mon chéri…
-É uma dengosa… -comentou o utente, despeitado com a atenção que a porcaria da máquina merecia por parte da clientela e do dono.
-Não ligues mademoiselle… é o ressentimento e a inveja a falarem. Coisa de humanos… - consolou-a o proprietário.
Jorge C . Chora
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
A surpresa
Numa aldeia, perdida na montanha, vivia um menino diferente dos outros: era muito gordo e movia-se muito devagar. Todos os dias ia à escola. Descia muito lentamente a montanha e demorava três vezes mais tempo do que os outros meninos a descer até ao vale. Chamava-se Santiago.
Um dia, os colegas que viviam na montanha foram atrás dele, escondidos, para verem o que ele fazia durante o caminho. A primeira paragem que Santiago fez, foi junto a uma pequena rocha. Sentou-se, abriu o capote e foi tirando algumas cenouras dos bolsos interiores. Esperou uns dez minutos, em silêncio, e foi mordiscando a cenoura mais pequenina que tirara.
-Como é que ele não havia de ser gordo! Até pára para comer mal saiu de casa! – bichanaram os colegas acocorados.
Na frente de Santiago surgiu um velho coelho, com uma voz trémula que lhe estendeu a pata e o cumprimentou:
-Bom dia meu bom amigo. Desculpa-me o atraso mas hoje tenho uma grande dor numa perna e …
-Estás desculpado. Trago-te umas cenouras bem tenras. Espero que tu e a tua mulher as consigam comer.
-Muito obrigado. Que Deus te pague … - e o velho coelho afastou-se, a custo, carregando a comida que Santiago lhe trouxera.
Levantou-se e seguiu, sem que os colegas se tivessem dado conta do que se passara, pois só conseguiam ver as costas de Santiago. Um bocado mais abaixo tornou a sentar-se. Tirou do capote um frasco de água oxigenada, algodão e uma ligadura e fez um curativo a um jovem corvo que estava numa moita à sua espera.
Atrás dele, espreitando, escondidos, sem nada conseguirem ver, os colegas lançam-se a adivinhar:
-Até esconde comida para o caminho de regresso!
E as paragens foram-se sucedendo junto a umas ovelhas, a uns estranhos pássaros e a uma cabra.
A maior surpresa dos colegas foi quando Santiago colheu flores e as guardou no capote.~
-A fome é tanta que vai comer flores! - comentaram.
Ao chegar à escola os colegas apressaram-se a divulgar a sua verdade aos outros:
-E traz no capote as flores que há-de comer ao lanche. Imaginem!
Quando Santiago chegou ao pátio tinha à sua espera todos os meninos. Olhavam-no com os olhos esbugalhados e um ar trocista.
No alto das escadas, quando Matilde viu Santiago, gritou-lhe bem alto:
-Sabes que dia é hoje?
-Claro Matilde. É dia 14 de Fevereiro…não me esqueci de ti - e abriu totalmente o capote, deixando o chão forrado de flores.
Jorge C. Chora
Um dia, os colegas que viviam na montanha foram atrás dele, escondidos, para verem o que ele fazia durante o caminho. A primeira paragem que Santiago fez, foi junto a uma pequena rocha. Sentou-se, abriu o capote e foi tirando algumas cenouras dos bolsos interiores. Esperou uns dez minutos, em silêncio, e foi mordiscando a cenoura mais pequenina que tirara.
-Como é que ele não havia de ser gordo! Até pára para comer mal saiu de casa! – bichanaram os colegas acocorados.
Na frente de Santiago surgiu um velho coelho, com uma voz trémula que lhe estendeu a pata e o cumprimentou:
-Bom dia meu bom amigo. Desculpa-me o atraso mas hoje tenho uma grande dor numa perna e …
-Estás desculpado. Trago-te umas cenouras bem tenras. Espero que tu e a tua mulher as consigam comer.
-Muito obrigado. Que Deus te pague … - e o velho coelho afastou-se, a custo, carregando a comida que Santiago lhe trouxera.
Levantou-se e seguiu, sem que os colegas se tivessem dado conta do que se passara, pois só conseguiam ver as costas de Santiago. Um bocado mais abaixo tornou a sentar-se. Tirou do capote um frasco de água oxigenada, algodão e uma ligadura e fez um curativo a um jovem corvo que estava numa moita à sua espera.
Atrás dele, espreitando, escondidos, sem nada conseguirem ver, os colegas lançam-se a adivinhar:
-Até esconde comida para o caminho de regresso!
E as paragens foram-se sucedendo junto a umas ovelhas, a uns estranhos pássaros e a uma cabra.
A maior surpresa dos colegas foi quando Santiago colheu flores e as guardou no capote.~
-A fome é tanta que vai comer flores! - comentaram.
Ao chegar à escola os colegas apressaram-se a divulgar a sua verdade aos outros:
-E traz no capote as flores que há-de comer ao lanche. Imaginem!
Quando Santiago chegou ao pátio tinha à sua espera todos os meninos. Olhavam-no com os olhos esbugalhados e um ar trocista.
No alto das escadas, quando Matilde viu Santiago, gritou-lhe bem alto:
-Sabes que dia é hoje?
-Claro Matilde. É dia 14 de Fevereiro…não me esqueci de ti - e abriu totalmente o capote, deixando o chão forrado de flores.
Jorge C. Chora
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
O gesto
A tesoura da poda em vez de cortar, triturava os ramos, mesmo os mais pequenos. A dona olhou-a e decidiu mandá-la afiar. Na primeira oportunidade dirigiu-se a uma pequena oficina que ostentava um grande cartaz publicitando o serviço pretendido.
-Bom dia. Quanto é que custa afiar uma tesoura? - e separou as mãos, tentando exemplificar o tamanho da tesoura.
-Três euros.
- Ela é assim… -e corrigiu o tamanho, juntando mais as mãos.
-O profissional olhou de novo e apreçou:
-Três euros e meio…
A senhora voltou à carga, esforçando-se por mostrar o tamanho certo do pequeno objecto. Diminuiu, com a máxima precisão, a distância entre mãos. Mal acabara de exemplificar quando um novo preço foi adiantado:
-Quatro euros…
-Mas então, quanto menor é a tesoura mais caro fica o trabalho?
O homem, com um sorriso manhoso e com uma pronúncia sibilante sentencia:
-E é para quem quer!
E a jovem senhora, junta os tacões dos seus pequenos sapatos, coloca-se em bicos dos pés, faz o gesto do Zé Povinho e atira:
- O Tanas!
Jorge C. Chora
-Bom dia. Quanto é que custa afiar uma tesoura? - e separou as mãos, tentando exemplificar o tamanho da tesoura.
-Três euros.
- Ela é assim… -e corrigiu o tamanho, juntando mais as mãos.
-O profissional olhou de novo e apreçou:
-Três euros e meio…
A senhora voltou à carga, esforçando-se por mostrar o tamanho certo do pequeno objecto. Diminuiu, com a máxima precisão, a distância entre mãos. Mal acabara de exemplificar quando um novo preço foi adiantado:
-Quatro euros…
-Mas então, quanto menor é a tesoura mais caro fica o trabalho?
O homem, com um sorriso manhoso e com uma pronúncia sibilante sentencia:
-E é para quem quer!
E a jovem senhora, junta os tacões dos seus pequenos sapatos, coloca-se em bicos dos pés, faz o gesto do Zé Povinho e atira:
- O Tanas!
Jorge C. Chora
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
O telefonema
Quis telefonar e não consegui:
o fio do telefone tinha sido cortado.
Fui a outra cabine e também não resultou:
a caixa onde se colocavam as moedas desaparecera.
À terceira onde fui, tinha o telefone, o fio e a caixa,
mas estava avariada.
Quando finalmente encontrei uma a funcionar,
esqueci-me por que motivo queria telefonar.
Jorge C. Chora
o fio do telefone tinha sido cortado.
Fui a outra cabine e também não resultou:
a caixa onde se colocavam as moedas desaparecera.
À terceira onde fui, tinha o telefone, o fio e a caixa,
mas estava avariada.
Quando finalmente encontrei uma a funcionar,
esqueci-me por que motivo queria telefonar.
Jorge C. Chora
sábado, 7 de janeiro de 2012
O servo de Midas
O facto do anafado e beberrão Sileno, se ter perdido da comitiva do seu amigo Baco, o deus Baco, é de todos conhecido. O que se seguiu também é do domínio público: o rei Midas encontrou o borrachão, tratou-o às mil maravilhas e entregou-o são e salvo ao deus do vinho. Felicíssimo pelo seu amigo ter sido encontrado, Baco concedeu a Midas a concretização de um desejo: transformar em ouro tudo em que o rei tocasse. Até aqui não há novidade nenhuma.
Quando Baco concedeu ao rei Midas a concretização do seu desejo, a de transformar em ouro tudo em que tocasse, mal sonhava que um dos servos do rei estava a espreitá-los. O servo viu Baco ir à caixa do pó mágico e lançá-lo sobre Midas.
“Tudo Quer” era o nome deste servo que ficou possesso ao ver o rei tocar numa maçã e esta transformar-se em ouro. A cobiça cegou-o.
Um frenesim demoníaco tomou conta dele. Esgueirou-se porta fora e correu para o local onde estava a caixa com o pó que vira ser lançado sobre Midas. Nervoso, sôfrego, incapaz de controlar o desejo, mergulhou a mão na caixa trazendo uma enorme quantidade de pó mágico, que se apressou a atirar sobre si próprio. Sentiu o peito rebentar-lhe de felicidade. Já podia ter tudo o que quisesse. Veloz, dirigiu-se ao celeiro do palácio, lançou-se sobre um fardo de palha e abraçou-o de imediato. Qual não foi o seu espanto quando, em vez do fardo se transformar em ouro se tornou num enorme monte de esterco. Levantou-se mais rápido do que um relâmpago e atirou-se para outro fardo: apareceu um segundo monte de esterco!
Com a cabeça perdida, correu para uma sela pendurada na parede. A sela, depois de tocada, transformou-se no terceiro monte de esterco. Recusou-se a acreditar no que lhe estava a acontecer. No dia seguinte, foi com satisfação que verificou que podia tocar novamente em tudo, que nada, mesmo nada acontecia. Quando se convenceu que o sortilégio tinha deixado de existir teve a muito desagradável surpresa de verificar que no dia seguinte voltara ao mesmo: Tudo em que tocava se transformava em esterco.
Como iria reagir o seu rei ao vê-lo transformar em porcaria tudo aquilo em que tocasse?”Tudo Quer” arrependeu-se mil vezes do acto que cometera. Fugiu e só parou ao pé de um porto onde estavam ancorados alguns barcos. Pela calada da noite logrou embarcar sem que ninguém o visse. O navio partiu no dia seguinte e navegou vários dias.
Acabou por desembarcar num porto desconhecido, na cidade de Olissipo. Por lá se casou e teve numerosa prole. O único senão é que os seus descendentes herdaram o seu problema: dia sim dia não, tudo em que tocavam se transformava em mer..
Foram tão numerosos os descendentes que povoaram boa parte do território europeu e alguns partiram com Colombo para as Américas.
Muitos deles acabaram por se dedicar à política, à banca e aos negócios imobiliários…
Livra!
Jorge C. Chora
Quando Baco concedeu ao rei Midas a concretização do seu desejo, a de transformar em ouro tudo em que tocasse, mal sonhava que um dos servos do rei estava a espreitá-los. O servo viu Baco ir à caixa do pó mágico e lançá-lo sobre Midas.
“Tudo Quer” era o nome deste servo que ficou possesso ao ver o rei tocar numa maçã e esta transformar-se em ouro. A cobiça cegou-o.
Um frenesim demoníaco tomou conta dele. Esgueirou-se porta fora e correu para o local onde estava a caixa com o pó que vira ser lançado sobre Midas. Nervoso, sôfrego, incapaz de controlar o desejo, mergulhou a mão na caixa trazendo uma enorme quantidade de pó mágico, que se apressou a atirar sobre si próprio. Sentiu o peito rebentar-lhe de felicidade. Já podia ter tudo o que quisesse. Veloz, dirigiu-se ao celeiro do palácio, lançou-se sobre um fardo de palha e abraçou-o de imediato. Qual não foi o seu espanto quando, em vez do fardo se transformar em ouro se tornou num enorme monte de esterco. Levantou-se mais rápido do que um relâmpago e atirou-se para outro fardo: apareceu um segundo monte de esterco!
Com a cabeça perdida, correu para uma sela pendurada na parede. A sela, depois de tocada, transformou-se no terceiro monte de esterco. Recusou-se a acreditar no que lhe estava a acontecer. No dia seguinte, foi com satisfação que verificou que podia tocar novamente em tudo, que nada, mesmo nada acontecia. Quando se convenceu que o sortilégio tinha deixado de existir teve a muito desagradável surpresa de verificar que no dia seguinte voltara ao mesmo: Tudo em que tocava se transformava em esterco.
Como iria reagir o seu rei ao vê-lo transformar em porcaria tudo aquilo em que tocasse?”Tudo Quer” arrependeu-se mil vezes do acto que cometera. Fugiu e só parou ao pé de um porto onde estavam ancorados alguns barcos. Pela calada da noite logrou embarcar sem que ninguém o visse. O navio partiu no dia seguinte e navegou vários dias.
Acabou por desembarcar num porto desconhecido, na cidade de Olissipo. Por lá se casou e teve numerosa prole. O único senão é que os seus descendentes herdaram o seu problema: dia sim dia não, tudo em que tocavam se transformava em mer..
Foram tão numerosos os descendentes que povoaram boa parte do território europeu e alguns partiram com Colombo para as Américas.
Muitos deles acabaram por se dedicar à política, à banca e aos negócios imobiliários…
Livra!
Jorge C. Chora
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