terça-feira, 4 de setembro de 2012

Adeus doutores

Vão-se os letrados,
ficam os velhos e os analfabetos,
evaporam-se as esperanças dos
que não tiveram infância e deram
o tudo por tudo para educarem os netos,
sonhando com o dia em que os veriam doutores.

No país,hoje, nem as espinhas sobram, é preciso sair,
temem os anciãos pelo que resta à sua verde e doce prole,
chupar o que não presta, comer o que lhes faz mal,
voltar ao tempo da sardinha para três,
dar razão àqueles que nada fizeram pelos seus,
que juraram para sua comodidade, que estudar era luxo vão e o futuro
estava na enxada e tudo o resto era vaidade, e para mal dos nossos pecados,
anseiam pelo dia do regresso à foice e à enxada, para do alto da sua putrefacção,
vociferarem sem parar:
-Adeus doutores que não fazem cá falta!
E mais uma vez a noite cai, sobre o nosso triste Portugal.

Jorge C. Chora


domingo, 19 de agosto de 2012

A contra-ordem


Quando os trabalhadores lhe surgiam com multas de trânsito, o homem enfurecia-se:

-As regras são para se cumprirem! - e o vozeirão enfurecido ecoava pela empresa.

O resto do dia, passava-o a remoer o valor das coimas, o desperdício de dinheiro e a inconsciência dos condutores. Mandava descontá-las nos salários dos trabalhadores até ao último cêntimo e, quando se tratava dos filhos, cortava, nas mesadas, as verbas pagas.

Recusava-se a ouvir as queixas de que havia excesso de zelo, de que iam só a meia dúzia de quilómetros a mais, numa recta sem movimento. O industrial torcia o nariz. Pareciam-lhe difíceis, inacreditáveis tais factos.

Um belo dia, ao volante da sua viatura foi mandado parar e autuado na fatídica recta, exactamente como lhe tinha vindo a ser contado pelos outros. Que havia um pequeno excesso, havia. Nada a dizer. Não sorriu, não reclamou, limitou-se a pagar. Regressou à empresa.

Sentado à sua secretária, agarrou no telefone e ordenou a vinda de dois camiões cheios de pedras e mandou despejá-las na clareira onde eles se escondiam. O terreno era seu e acabava-se o esconderijo.

Foram santos os dias que se seguiram. Uma semana depois, ao regressar a casa, na mesma recta, cruzou-se com dois carros que vinham a uma velocidade tal que o empresário ficou sem saber de que marca eram as viaturas.

Regressou à empresa, tornou a pedir a vinda de dois camiões, desta vez, para levantarem as pedras. Mandou ainda instalar no esconderijo, uma mesa e bancos de pedra para que os profissionais tivessem mais condições de trabalho. Pensou melhor e ordenou que a mesa e os bancos fossem amovíveis, não fosse dar-se o caso de querer controlar a situação de modo rápido e estar impedido de o fazer.

Jorge c. Chora

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

A prova do sacristão

Na aldeia pouco havia que fazer após o trabalho. Os homens reuniam-se na taberna, pagavam e bebiam rodadas. Todos participavam e, por isso, eram inúmeros os copos que bebiam, quer lhes apetecesse ou não, pois ficavam mal vistos e arredados do convívio aqueles que se mostrassem renitentes.

Um dia, o sacristão, que fazia parte da roda e estava farto de beber, resolveu moderar o consumo dos discípulos de Baco. Propôs que só podiam continuar a beber os que estivessem sóbrios depois do 4º ou 5º copo de vinho.

- Estamos todos bem! –berraram alguns.

-Veremos. Quem conseguir subir ao púlpito da igreja velha, sem se apoiar, estará em condições de beber mais do que quatro copos … - sugeriu o sacristão.

Em silêncio, dirigiram-se ao templo. Em fila indiana, alumiados pelos isqueiros, esperaram a respectiva vez de subirem. Os degraus de acesso ao púlpito eram sete, grandes e irregulares, enroscados a uma das colunas da igreja, sem guarda nem corrimão, e muito distantes das paredes.

Metade dos presentes apoiou-se no pilar e foram impedidos de prosseguir a prova. A outra metade tombou da escada no quinto ou no sexto degrau.

-Estamos conversados… - concluiu o sacristão.

-Mas como diabo te lembraste disto? - interrogaram, furiosos, os excluídos.

-Isso agora… é segredo… -defendeu-se o sacristão.

-Mau…ou te confessas ou a prova fica sem efeito! – reclamaram os presentes.

-Porque é que, quer eu quer o senhor padre, andamos, de vez em quando, de braço ao peito?

Jorge C. Chora

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Desenrascados


Ana e Isabel, em Nova Iorque, entraram num restaurante e escolheram a refeição num extenso e complicado menu, após um jogo de empurra do escolhe agora tu que eu já escolhi ontem, que se vinha a desenrolar há vários dias.

Quando a refeição foi servida, Isabel notou que lhe faltava um guardanapo e era preciso pedi-lo.

-Olha lá Ana, como se diz guardanapo em inglês?

-Por acaso sei, mas… estás sempre atida a mim e é altura de te desenrascares…

Dito e feito. O gesto é tudo. Isabel levou as mãos à altura da boca e imitou o acto de limpar os lábios.

-Napkin?- ajudou o empregado.

-O.K- transmitiu Isabel com o polegar levantado.

Nesse momento, na mesa ao lado, um senhor de certa idade, sem dizer uma única palavra, apontou para a lista das comidas, batendo os braços arqueados, simulando um bater de asas, enquanto cacarejava.

-Chicken? – ajudou o empregado.

Ana e Isabel, de sobrancelhas franzidas perante a cena, tiveram como que uma revelação e perguntaram ao idoso:

-Português?

-Sim minhas senhoras!- retorquiu o homem que cacarejava, levantando-se respeitosamente.

-Ora abóboras!-exclamou o empregado.- Podíamos todos ter falado na nossa língua!

Jorge C. Chora

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A gata costureira

De dois em dois minutos a gata salta-lhe para o colo e ronrona. É ronha, pura ronha, pois ela sabe que vai ser corrida dali para fora. Tenta dar-lhe a volta a ver se a deixam ficar, se o dono amolece com as suas demonstrações de afecto. Sabe-a toda, mas mesmo toda!

Neste momento ela acabou de lhe saltar, pela sexta vez, para o colo. Antes que a ponham a mexer, tira a unhas e agarra-se às pernas, cravando-as nas calças e, de seguida, puxa. Mais um rasgão nas calças de ganga. Levanta-se aborrecido. O telefone toca e ele acaba por ter de sair sem tempo para se trocar.

Tem de se deslocar ao café onde o esperam uns amigos e respectivos filhos. Ao chegar os jovens olham-no com atenção. Miram-no e remiram-no e acabam por lhe perguntar onde comprou as calças. Ri-se. Eles insistem. Ele acaba por responder:

-Como estas não há nenhumas. Foram arranjadas por uma gata costureira.

Perante o espanto demonstrado, teve de explicar em detalhe o que queria dizer. Quando finalmente se libertou da curiosidade juvenil e se preparava para dar atenção aos adultos, ouviu um chorrilho de pedidos que o deixou estarrecido:

-Quando podemos ir ter com a gata costureira? Podemos fazer um horário para estarmos com ela? Amanhã já é possível iniciar as visitas? – insistiram os jovens.

Tinha lançado, para mal dos seus pecados, a sua gata como costureira. Era só o que lhe faltava!

Jorge c. Chora

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Alucinações

A avó e duas netas, adultas mas ainda jovens, tomavam chá. A neta mais velha, revelando preocupação com o estado de saúde da ascendente, perguntou-lhe como iam as suas alucinações.

-A avó está com alucinações!? – surpreendeu-se a mais nova.

-Sim, são devidas aos medicamentos que toma…

-Bem…tomei… -tentou explicar a avó, logo interrompida pela neta.

-Está sim. Ainda noutro dia julgava que tinha um homem debaixo da cama.

-Ó Helena, isso era eu a julgar que estava num dia de sorte. Foi…como hei-de dizer, uma esperança a que se seguiu uma enorme decepção. Como vêem é algo que não chegou a acontecer… -e revirava os olhos de um modo coquete, associado a um ar de quem se estivesse a deliciar com a degustação de um chocolate da sua predilecção.

-Está a delirar avó? - questionaram as jovens, escandalizadas pelo arrojo demonstrado.

-Não, minhas netas… estou a sonhar alto… -e continuou, impávida, a barrar o “scone” com uma noz de manteiga.

Jorge C. Chora

terça-feira, 17 de julho de 2012

O Doze e os seus inimigos figadais


Entrou a bambolear-se, com um passo felino, cabelos soltos e um leve sorriso nos lábios. Luís surpreendeu-se por ser o único a observá-la. Ainda não percebera o que se passava, quando notou que muitas pessoas presentes na sala seguiam, como se estivessem hipnotizadas, um homem de meia estatura que entrara um bocado antes.

O que tinha o recém-chegado para atrair as atenções? perguntou-se. Talvez lhe tivesse escapado algum pormenor. Tornou a olhá-lo com maior atenção. Tinha um andar estranho: pernas abertas, braços pendentes, um balancear gingão e os olhos rodopiavam como que a procurar descobrir agulha em palheiro.

Acabou por se desinteressar da figura, continuando, no entanto, a verificar que o mesmo não acontecia com os outros que o seguiam de modo atento. Em definitivo, preferiu olhar para a senhora do andar felino. Quase de imediato, alguém lhe sussurrou um conselho:

-Não tire os olhos do Doze…

-Do Doze?

-Sim chamam-no assim por ter cumprido uma dúzia ou mais de sentenças…

Agradeceu mas não ligou ao aviso. A beldade impôs-se-lhe. À saída precisou de dinheiro e por muito que o procurasse, foi-lhe impossível encontrá-lo. Ao repetir pela enésima vez a busca infrutífera, o cavalheiro que o advertira antes, aproximou-se e murmurou-lhe:

-Tirou os olhos do Doze…Pois fique a saber que ele é o principal inimigo do fisco. Onde ele esteve o fisco recusa-se a ir, e o contrário também é verdadeiro. São inimigos figadais.

Jorge C. Chora