terça-feira, 1 de outubro de 2013

Ushanka,o gorro milagreiro

O senhor era feio. Assemelhava-se a uma mistura de abutre e de mocho velho, caso fosse possível acasalar estas espécies! Teoricamente não era, mas na vida real, era a prova provada, de que os impossíveis não existiam! Para além da fealdade, da qual não tinha culpa absolutamente nenhuma, associava outras características não menos penalizadoras, das quais devia assumir, de facto, a total responsabilidade: implicativo e pouco social.

O cavalheiro apercebeu-se de que certos sons tinham o condão de acalmar as pessoas, de as tornar mais abertas, permeáveis e receptivas à presença de estranhos. O som era o de pombos a arrulharem. Mandou fazer um gorro à russa, onde cabia um casal de pombos.

Todos os dias, antes de sair, encafuava o casal, que ia ao pombal buscar, no interior do seu gorro e saía à rua todo sorridente.

Já no jardim, aproximava-se de um grupo de senhoras que ali se encontrava. Pouco depois, era convidado a sentar-se entre elas e o número de senhoras idosas ia aumentando gradualmente, à medida que as pombas iam produzindo os sons acolhedores. A estas senhoras juntavam-se outras mais jovens e atraentes.

A cachaça a que era tão afeiçoado e lhe causava aquela vermelhidão na ponta do nariz, era confundida com timidez excessiva, com um rubor amoroso e delicado.

Aos poucos, sem dizer uma única palavra, tornou-se uma figura indispensável, um acompanhante de valia.
Quando ao fim da tarde as senhoras regressavam a casa, ele dirigia-se à taberna. Os frequentadores habituais rodeavam-no e demonstravam o espanto:

-Como é que tu consegues juntar as senhoras ao pé de ti? O que é que lhes dizes? Que conversas tens?

-O homem sorria e estendia o copo. Enchiam-lho de cachaça. Depois de muito instado, contava duas ou três coisas sem importância e murmurava, de modo misterioso:

-Qualquer dia conto-vos…

Um dia resolveu embaratecer os custos da alimentação dos pombos. Começou a dar-lhes uma ração de má qualidade e de baixo preço e a cortar-lhes a quantidade.

Dias depois, ao aproximar-se das amigas, estranhou a forma como estas o olhavam.

-O que é que o amigo tem a escorrer-lhe pela testa abaixo? – Interrogaram-no - com um ar enojado.
Antes que o homem respondesse, adiantaram-se os pombos:

- Basta cheirarem…

Jorge C. Chora


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

A árvore encantada

Cresceu sem ninguém dar por ela, ao fundo do jardim, num piscar de olhos. Perguntaram ao jardineiro que árvore era aquela e quando é que fora plantada.

-Não faço a mínima ideia, não fui eu que a plantei.. – ele bem suspeitava de quem tinha sido, mas não  se atrevia a dizê-lo - nunca vi nenhuma igual…Sei que é encantada e mais nada…

-Como assim? -  espantou-se a directora do refúgio infantil.

- Quando as crianças se acolhem à sua sombra e lhe fazem pedidos, ela escuta-os… -respondeu o jardineiro

A directora olhou-o, incrédula. Afastou-se dois passos e tornou a olhá-lo, certificando-se de que ele estava mesmo à sua frente e que o ouvira bem.

-Está a dizer-me que ela ouve as crianças?

-Sim…

Sempre achara aquele jardineiro um bocado estranho. Ela sabia que ele fora ensinado por uma antiga professora que repreendia os trovões, ralhava com o diabo e a quem os deuses temiam quando saiam da linha. Já o vira a falar com as plantas, fazer-lhes festas, cantar e colocar-lhes música para que a escutassem. Agora ele queria convencê-la de que a árvore escutava as crianças e acedia aos seus pedidos!?

No dia seguinte, ao ver os gaiatos protegerem-se do sol sob a frondosa copa, foi, pé ante pé, colocar-se à escuta.

-Com o calor que está, sabia-me bem uma laranja… - disse um dos miúdos.

E a árvore inclinou-se um bocado e apresentou-lhe uma enorme e suculenta laranja.

-E a mim, um morango, imaginem só… – disse a medo outro.

A directora arregalou o olho. Um morango!? Em Agosto e sem ser de estufa!? Uma árvore que não é uma laranjeira e dá laranjas?

E o morango surgiu, grande e limpo, ao alcance da mão do petiz.

A senhora sacudiu a cabeça. Beliscou-se, certificando-se que estava acordada. Mas o que se passa aqui? Interrogou-se e resolveu tirar a limpo a situação:

-Eu queria uma banana… - pediu com uma vozinha, imitando os petizes, escondida dos seus olhares.

E a árvore inclinou-se e ofereceu-lhe uma enorme banana.

A directora estendeu a mão e quando ia colher o fruto pedido, um ramo juntou-a aos pequeninos e disse:

-Junto deles conseguirá tudo…

E o jardineiro sorriu e disse para os seus botões:

-Será que consigo enxertá-la noutros jardins? Isto só pode ser obra da minha tutora. Até tremo quando me lembro do trovão, que teve que engolir o som, para não assustar os seus meninos! Do diabo que fugiu a sete pés quando quis intrigar e, da corrida que deu aos deuses da discórdia, quando se quiseram instalar na escola sob o pretexto de ser o melhor caminho!

E nesse mesmo dia, o jardineiro só parou depois de enxertar todas as árvores das escolas da cidade.

Na tua escola há alguma árvore que fale?

Não deixes que a cortem!


Jorge C. Chora

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

A decisão

Ameaçaram-no e ele reagiu construindo uma muralha à volta da sua torre. Ao verem as medidas que implementara,  tornaram a fazê-lo, aumentando o tom e a dimensão da ameaça.

Respondeu o visado construindo uma muralha ainda mais forte e alta do que a anterior. Sempre que era intimado, a resposta era imediata: Construía defesas mais altas e eficazes.

Um dia, os sitiantes, decidiram retirar-se e deixar de proferir os truculentos avisos. Acharam que tinham isolado o sitiado sem gastar um cêntimo em acções bélicas.

No interior da fortaleza,  as críticas não se fizeram esperar: eles próprios tinham-se enclausurado e agora estavam perdidos e sem saída. Acabariam por morrer à míngua!

Riu-se o castelão dos dislates que ouvia. Mandou que abrissem a 24ª porta da muralha.
Um pelotão executou as ordens e, ao abrir a referida porta, deixou à vista o pano da muralha.

-E então agora?- surpreenderam-se os habitantes.

O castelão chamou a criança que brincava no pátio e entregou-lhe um martelo, dizendo-lhe:
-Se deres uma martelada naquele muro, ganhas um presente e darás uma grande alegria a todos os que aqui estão.
Olharam os habitantes da fortaleza com certa piedade o seu castelão.

-Coitado, perdeu o juízo com o disparate que fez!

Eis senão quando, a criança desfere uma grande martelada e faz um enorme rombo que deixa ver com toda a nitidez o exterior do castelo.

Fez-se um silêncio sepulcral, só quebrado por uma voz tonitruante e furiosa vinda do lado oposto do castelo:

-Então o inimigo podia invadir o nosso castelo por esse ponto fraco nas muralhas?


Jorge C. Chora

domingo, 18 de agosto de 2013

O sapo alado

Era uma vez um sapo que surpreendeu toda a comunidade ao nascer com asas. À medida que crescia,  a comunidade revelava  a sua estranheza ,sempre que com ele se cruzava:

-Porque precisas tu de asas, um mero sapo como nós? Como nós quer dizer…

E o sapo alado, engolia em seco, contendo a sua vontade em dar-lhes uma sapatada daquelas valentes, que lhes tirassem, de uma vez por todas, a vontade de pronunciarem disparates.

Nascera assim, não pedira a ninguém as asas. O que mais desejava é que elas não lhe tivessem surgido e que ele fosse igual aos outros. Igual aos outros, ponto e vírgula: só sob o ponto de vista físico, porque ter uma cabeça semelhante à deles, não obrigado!

Num ano muito quente e quase sem chuva, a desgraça abateu-se sob a colónia local de sapos: metade deles  adoeceu e os filhos não vingaram devido à falta de charcos e pelo facto dos existentes terem secado.

O sapo alado assistiu à desgraça e sem que ninguém lho pedisse, bateu as asas e subiu aos céus. Procurou nuvens até que as encontrou. Assim que as viu, deu-lhes pontapés, com toda a força que tinha, empurrando-as para a sua região. Em seguida, dirigiu-se ao vento frio que soprava noutro local e falou assim:

-Amigo vento, nestas paragens ninguém te olha com bons olhos. Se vieres para as minhas bandas, vais ver que serás bem-vindo…

Em terra, os que o viram aos pontapés desabafaram:

-O que faz aquele palerma ao pontapé às nuvens?

Pouco depois, um vento frio fez-se sentir e daí a pouco, chovia de modo abundante.

E foi só a partir daí que os sapos passaram a incluir, nas suas orações, um pedido:

-Dai-nos, Senhor, a alegria e a bênção de manter a saúde ao nosso sapo alado, para que ele possa cuidar de nós…

Jorge C. Chora



sexta-feira, 26 de julho de 2013

Diogenizar/Um processo em curso

                                                                                                                                 
Às três da manhã, a notícia surpreendeu os noctívagos: Tinha nascido na principal maternidade do país, uma criança com a cabeça semelhante à de um cão. Meia hora depois nascia a segunda. Ao longo da noite nasceram largas dezenas de bebés com essas características. O repórter exultava com o que sucedia: que fenómeno é este que está a acontecer na capital? Em breve era obrigado a alargar  o âmbito geográfico da reportagem  porque, um pouco por todo o país, chegavam novas de recém-nascidos com cara de cão.

Pela manhã, as surpresas ainda não se tinham esgotado. O homem das notícias engasgava-se, minuto a minuto, ao contar o que se passava na maternidade central.

”Chegam a este local várias viaturas oficiais transportando inúmeras altas autoridades. Peço desculpa, chegaram todos os membros, incluindo os seus auxiliares directos. Dirigem-se para um pequeno palco, acabado de montar, em frente ao edifício, repleto de microfones. Os decisores mais credenciados tomam assento nas primeiras filas, sucedendo-lhes, por ordem hierárquica, os seus ajudantes. Os representantes das forças vivas, foram chegando e, ao fim de meia hora, a assembleia estava repleta. As televisões encontram-se a postos e espera-se, a todo o momento, uma comunicação.”

Publicidade relativa ao suicídio dos mais idosos e sobre os prémios que os seus descendentes receberiam, caso os incentivassem a cometê-lo e tivessem sucesso, interromperam a emissão.

“Sua excelência aproxima-se dos microfones. O discurso vai ter início, e será transmitido em directo quer pela rádio quer pelos outros órgãos de comunicação presentes.

-Cidadãs…cidadãos .Um passo em frente foi hoje concretizado: nasceram os primeiros concidadãos modelos do nosso país, resultado da nossa política de Diogenização. Daqui para o futuro, não mais veremos o apego aos bens materiais e externos a si próprios, tal como os salários e benesses do trabalho, colocados de modo egoísta. As suas necessidades serão mínimas, água e pão, e eles próprios abolirão as frivolidades sociais,…Viverão em casas minúsculas, terão um único fato, o de trabalho. Viverão como cães, o ideal máximo da nossa política de Diogenização. Para os relembrar, a todo o momento do ideal que lhes traçámos, trouxemos presentes em barro, que representam pequenos barris, habitações mais do que suficientes, que recordam a nossa figura inspiradora: Diógenes, o Cão.

Como não queremos ser avaros nos presentes, dar-lhes-emos também um cajado, para se apoiarem na sua longa caminhada e para se auto-flagelarem sempre que saiam do caminho de virtude que lhes oferecemos.
Finalmente, uma palavra destinada aos que não nasceram nesta época feliz: Estamos condenados a ter o que desejámos, a prescindir de viver em elegantes barris e a deambular pela cidade, procurando, de lamparina acesa, homens de virtude que (in)felizmente nunca encontraremos…

Jorge C. Chora
 


terça-feira, 23 de julho de 2013

A menina e os besouros

 Os escaravelhos zumbiam, tentando libertar-se dos fios que lhes prendiam as patas aos dedos das meninas que os tinham cativado na sebe dos ligustros. Em cada dedo prendiam um besouro e passeavam-se no pátio da escola, cruzando-se umas com as outras, até que ouviam a sineta a dar por findo o recreio. Cortavam os fios rente aos seus dedos e libertavam-nos, obrigando-os a transportarem o resto do fio como se fossem caudas brancas.

Dia após dia repetia-se a diversão: as flores brancas dos ligustros, pejadas de escaravelhos, eram fonte inesgotável para a apanha e prisão destes besouros voadores.

Adelaide condoía-se com a situação. Não achava justo que os prendessem e se divertissem com eles, deixando-os, no fim, presos às suas algemas de fio, que se embaraçavam nos galhos, impedindo-os de voarem.

À noite esgueirava-se do seu quarto, dirigia-se à sebe e procurava tirar os fios das patas dos besouros. O trabalho era delicado e moroso.

Um dia, enquanto se dedicava à sua missão, encontrou-se com um enorme escaravelho que se lhe dirigiu e disse:

-Em nome de todos os escaravelhos, agradeço-te a tua compreensão e bondade. Levantas-te todas as noites para nos dares a liberdade, sacrificando o teu descanso.

Adelaide assustou-se, não só com o tamanho do escaravelho mas também pelo facto de ele falar. Recomposta do susto respondeu-lhe:

-Amigo. Não gosto de vos ver sofrer. Peço desculpa do comportamento das minhas colegas. Elas não fazem por mal. Só querem divertir-se…

-Nós sabemos disso…achamos é mal que elas não tenham em conta o resultado das suas brincadeiras…mas o que havemos de fazer?

-Estejam descansados. Todas as noites virei soltar-vos dos fios com que elas vos amarram…

-Obrigado em nome de todos. Como poderemos agradecer-te pelo que estás a fazer por nós?

A menina ficou calada e depois, sem qualquer fingimento, respondeu:

-A vossa liberdade é o vosso agradecimento. Isso basta-me…

-Sabemos que tu és a única menina que não sais da escola por teres a tua mãe longe. Queres ir todos os dias dar-lhe um beijo de boas noites?

-Mas como?

Eis senão quando, três enormes besouros apareceram ao seu lado e a convidaram a subir para o seu dorso.
Uma hora depois, ao chegar a sua casa, encontrou a sua mãe a dormir e beijou-lhe ao de leve a testa, sem a acordar.

A mãe, desde essa altura, ao acordar, diz para si própria:

-É curioso, parece-me que a minha Adelaide todas as noites me vem dar um beijo de boas noites!

Jorge C. Chora


quinta-feira, 18 de julho de 2013

O rebanho voador

Sentado num caixote de frutas, rodeado de ouvintes, um velho de sapatos rotos, prende a atenção dos compadres:

- Existiu outrora um pequeno reino, localizado numa república do faz de conta. Os habitantes dessa república diziam desconhecer, por completo, o referido território e as manigâncias ali existentes. Nesse reino abundavam pastores que decidiram prescindir das cavalgaduras que lhes serviam de meios de transporte há séculos. Substituíram-nas por outros, dotados de imensos cavalos de potência, importados de uma região onde, em tempos idos, havia a Prússia.

-Mas que pastores eram esses? - Interroga um dos ouvintes.

Olharam surpresos, os presentes, para o basbaque que questionava o narrador:

--“Atão o compadri nã sabia”?Pois ouça e aprenda…

E sem demora o contador seguiu com a sua história.

-Esses pastores, não tinham uma única cabeça de gado. É estranho? Pois é…mas naquele reino era mesmo assim. Na verdade existia um único rebanho que se fartava de viajar: hoje podia estar nas terras do Regueifa e amanhã nas do Manuel do Mel, ao sabor das visitas de um fiscal cuja missão era contar as cabeças de gado que cada um possuía.  Contadas as cabeças, estabelecido o subsídio que os proprietários receberiam por cada uma, restava aos mesmos deslocarem-se à instituição para o receberem.

O rebanho, terminada a visita do fiscal, voava até às terras onde seria preciso apresentá-lo. Quanto aos brincos de identificação do gado, os pastores do reino tornaram-se especialistas em colocá-los e retirá-los num ápice.

Um dos pastores tornou-se até especialista em ocupar as casotas dos cães e, enquanto o fiscal contava o gado, ele balia e o dono da propriedade dizia:

-Ainda há mais uma ovelha  perdida por aí…ouça…

E dentro da casota o homem balia:

Méé…méé…

-E quem fazia de ovelha? - perguntou o basbaque..

-Era rotativo…

-Bem..bem…  a história já está comprida…vai lá tomar um copo que nós pagamos… - propuseram unanimemente os presentes, enquanto palpavam as chaves dos seus  carrões.

Jorge C. Chora