sábado, 18 de março de 2017

DÃO-SE DORES


Tenho saudades do tempo
em que não tinha dores
e caminhava ligeiro,
tal e qual um andarilho.
Quem me dera ser
banqueiro e delas
me poder livrar,
como se fossem acções de
grande valia, a título
de antevisão futura,
de experimentarem
andar como os cágados,
numa sociedade de aves de rapina,
sempre pronta a elevá-lo
aos céus para vos
deixarem cair em zonas alcantiladas,
estilhaçando-vos a carapaça,
para vos comerem
de forma fácil e pouco
ou nada trabalhosa.
Quem me dera ser banqueiro
e livrar-me das dores,
como se fossem títulos
de grande valia…


Jorge C. Chora

quinta-feira, 16 de março de 2017

UMA GATA À JANELA



Há uma gata que passa
o dia à janela,
a cumprimentar quem passa:
-Bom dia bonitona…bom dia
bonitão…
Mas não há quem
lhe responda ou
lhe conceda um simples
sorriso, a troco de nada,
só embrulhado em simpatia.
A troco de nada,
já ninguém dá nada,
nem que seja
 um simples sorriso,
só embrulhado em simpatia,
excepto a gata,
que à janela,
cumprimenta quem passa:
-Bom dia bonitona…bom dia
bonitão…


Jorge C. Chora

quinta-feira, 9 de março de 2017

REQUIEM PARA A MULHER SEM CHETA



Morreu de vergonha
a mulher sem cheta
a quem nem a sede nem a fome
 tinham conseguido vencer.
Resistiu até ao fim,
escondeu a miséria,
silenciou o ruído
 do seu estômago vazio,
dos sonhos traídos,
dos vexames sofridos.
Morreu de vergonha
ao ser-lhe penhorado
o último refúgio,
por ser pobre e não ter cheta.
Aos aristocratas d’outrora,
assistia-lhes o privilégio
de se suicidarem por
vergonha de terem
cometido actos infamantes
ou de lesa-majestade.
À mulher de agora,
restou-lhe morrer
de vergonha, unicamente
por ser pobre e não ter cheta.


Jorge C. Chora

terça-feira, 7 de março de 2017

MULHERES


As mulheres
são a metade solar
da humanidade,
 rosas que medram
 cercadas de espinhos,
sem deixarem de exalar
 o seu perfume inebriante.
Fazem soar bem alto as suas vozes,
sempre que as querem calar,
retirar-lhes o direito de opinar,
negar-lhes o direito
de serem quem são,
a capacidade de dizer não.


Jorge C. Chora

sábado, 4 de março de 2017

A MORTE DO VELHO QUE AMAVA A POESIA


De luto não está a cidade
pela morte do velho
que amava a poesia
e bebia copos- de- três.
Os sinos não repicaram
a assinalar a sua morte
e poucos sentiram a falta
do Zé Ninguém
que amava a poesia
e bebia copos-de-três.
Amou quase toda a gente,
excepto os crápulas, os reles,
os vaidosos sem qualquer razão
para o serem,
os seres desprezíveis
e aproveitadores das
misérias humanas.
Está-se nas tintas
para quem ignora a sua morte
e paga-lhes na mesma moeda:
passa por eles deitado,
sem lhes ligar nenhuma,
o homem que amava a poesia
e bebia copos-de-três.
Morreu como viveu:
amando os que mereciam,
desprezando os que,
pouco ou nada valiam.

Jorge C. Chora

domingo, 26 de fevereiro de 2017

CARNAVAL



Loura desnuda
de alvas e rijas carnes,
tendo à ilharga uma morena
que se saracoteia
e se transforma num doce pecado,
reluzente e escorregadia,
saborosa enguia,
festim aos olhos de quem aprecia,
demónio para quem a inveja
e desdenha.
E como a igualdade tem de ser
defendida, também há matulões
despidos, regozijo de mascaradas
que ninguém vê se estão entusiasmadas.
Que siga o carnaval,
com as suas picardias
e as horrorosas matrafonas.
Divirtam-se que amanhã
é outro dia,
 o regresso à salgalhada
e ao cartapácio de malfeitorias.


Jorge C. Chora

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

O ANDARILHO



Não houve terra onde
não fosse, local onde
não pisasse, sítio onde
não tivesse estado e onde
não quisesse regressar.
Não fosse esse alguém,
um andarilho português,
 sempre saudoso dos lugares onde esteve,
 ou mesmo daqueles em que
um dia imagina poder estar,
ninguém compreenderia
uma saudade do tamanho
do mundo inteiro.


Jorge C. Chora